Lembrança Gravada com Letra de Ouro | Alexandre M. L. Barbosa
Inspirado na vida, Pedro Salgado sempre expirou música. Durante quase sete décadas fez dele seu instrumento de diálogo com o mundo. Se a realidade lhe sorrisse, compunha, se não, compunha ainda assim.
Jamais cedeu. Com terna suavidade ou tenaz firmeza, musicou a própria vida e a de inumeráveis pessoas.
Em uma entrevista afirmou certa vez que o que ganhava era pouco, mas disse: “...não ligo pra luxo, nem para coisas materiais bonitas. A beleza de que preciso eu encontro na música. Ela é estímulo pra viver e até o meu médico. Quando estou ruim do estômago e ouço uma boa retreta, saro”.
Talvez não soubesse que suas composições também curaram muitos estômagos, cicatrizaram muitas feridas e uniram muitos corações.
Em “Um episódio com banda” (Folha de são Paulo, Ilustrada, 14/07/80) Lourenço Diaféria bem contrará: “A retreta executava ‘Dois Corações’ de Pedro Salgado. Eu mergulhei no dobrado como um náufrago que se afoga nas ondas do mar, e decidi romper os escolhos da timidez enfrentando o espaço do jardim que me separava daquele olhar noturno e vagamente convidativo (...). Respirei fundo, e meu ouvidos se encheram dos compassos do dobrado, que chegava ao fim. ‘Dois Corações’. Nunca mais consegui esquecer essa música do compositor Pedro Salgado...”
A humildade sincera de Pedro Salgado tornou-o ainda maior fazendo-o superlativo como músico e como homem, e arrazoa as palavras de R. Moraes Sarmento que o coloca como “compositor dos mais vibrantes e sentimentais”, acrescentando “Artista em todos os sentidos. Admirado por todos os mestre e músicos de bandas do Brasil inteiro, por isso mesmo seu nome e sua história estão gravados com letra de outro no cenário musical, recebendo de todos os mestres e músicos debandas do Brasil inteiro, por isso mesmo seu nome e sua história estão gravados com letra de ouro no cenário musical, recebendo de todos nós brasileiros o aplauso mais vivo, mais caloroso em reconhecimento a sua luta e dedicação em prol de um Brasil mais brasileiro...”
Não menos elegantes são as palavras do amigo Jorge Bittar:
“Quando, algum dia, se estudar a personalidade dessa figura incomum, tão rica de talento artístico, e de uma fecundidade jamais vista, certamente se há de chegar a conclusão de que ele possue qualquer de sobrenatural. É uma usina de inspiração que ele transporta para a música, criando as mais encantadoras composições.
Com muita razão está colocado entre os maiores compositores da música brasileira, música que ele escreve com a alma e naquele seu estilo característico.”
Quando faleceu, em 28/09/1973, o jornal “O atibaiense” estampou com destaque: “Perdemos Pedro Salgado! O rei dos dobrados das bandas musicais brasileiras morreu”.
Dias depois, um de seus filhos, o Capitão Pedro da Cruz Salgado Filho, recebia as condolências do prefeito de Mogi-Mirim, cidade que tinha o maestro em mais alta conta:
Prezado Senhor, Com profunda tristeza tomamos conhecimento, somente nesta data do infausto passamento do compositor e grande mestre musical PEDRO SALGADO, figura que ocupa, na galeria dos imortais da música e das mais legítimas tradições nacionais, lugar de merecida e invulgar projeção.
O sentimento que nos toca neste instante atinge, também a toda coletividade mogimiriana, que se une ao pesar dos brasileiros aos quais foi dado o ensejo, pessoalmente ou não, de conhecer tão ilustre figura e à sua obra gigantesca que rompe fronteiras.
É-nos forçoso reconhecer, como de resto a todos, que ficamos a dever muito ao ilustre brasileiro que foi PEDRO SALGADO, em cuja existência legou aos seus um passado de glórias e conquistas que servirá de exemplo às gerações presente e futura.”
A história, somente agora, permitiu que dois corações se unissem. Aparecida, terra-mãe deste gênio, cultivará, agora e sempre, o talento e a obra de tão distinto protagonista da música nacional. Com o coração cheio de orgulho, cada aparecidense sustentará, no espírito, a aura de viver na terra que foi o berço de um dos mais importantes maestros deste país.