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Músicos
Pedro da Cruz Salgado: o Maestro das Quatro Mil Músicas | Alexandre M. L. Barbosa


  Aqueles que se eternizam pela extensão e qualidade de suas obras, esses são os imortais.

   Imortais são obstinados. Obstinados reformadores da vida. São originais... são presença do novo que corrompe a monotonia instalada pela irreflexão... transbordam ao mundo porque se preenchem dele.

  A imortalidade é um prêmio à vida bem vivida. Uma indelével marca histórica, mesmo que distante da memória de muitos.

  Pedro da Cruz Salgado, maestro de alma aparecidense, é um desses espíritos resolutos que se imortalizam na criação.

  Sua vasta produção musical, de altíssima qualidade, demonstra um amor esmerado pela arte da composição. Encontrou a beleza na música, como ele próprio afirmava.

  O renomado maestro superou as fronteiras do tempo, tornando-se, hoje, presença expandida de sua época. Sua música, duradoura, provoca um atemporal frescor n’alma. Para uns, clama a memória, para outros, pede a sensibilidade.

  O maestro Pedro da Cruz Salgado figura entre os maiores compositores de dobrados para bandas de todos os tempos na história da música brasileira.

  Perfila com Antonio Francisco Braga, Anacleto de Medeiros, Antonio Carlos Gomes, Francisco José Flores, Joaquim Antônio Naegele, Ernesto Julio Nazareth, Bento Mossurunga, Antônio Pedro Dantas, entre outros, na galeria dos mais expressivos compositores para bandas de música nos séculos XIX e XX.

  O amigo e admirador Jorge Frederico Messas Bittar, com elegantes palavras, realça a importância deste grande músico inspirado pela flauta da musa Euterpe:
“Pedro Salgado é uma dessas criaturas originais e raras, e por que não dizer, divinas".

  Sua inspiração vem do Alto, pois só assim poderia ele compor as páginas maravilhosas com que enternecem nossos corações e que são as centenas encantando os ouvintes com o seu ritmo gostoso e melodia bem brasileira.

  A musicalidade de Pedro Salgado fazia dele “uma usina de inspiração". A sonoridade do mundo orquestrava em seu espírito.

  O maestro é de um tempo em que havia tempo de “estar à toa", de ver "a banda” e de “ouvir coisas de amor".

  Recuperar a memória deste grande músico de Aparecida é um imperativo ético. Impõe-se como condição para a construção da identidade musical local e nacional.
Uma enorme dívida de reconheci­mento precisa ser paga a Pedra Salgado pela história da música genuina­mente brasileira.

  Aparecida e o Brasil precisam recolocar Pedro da Cruz Salgado no lugar de destaque musical do qual jamais deveria ter saído.

  Filho de Bibiano da Cruz Salgado e de Dona Augusta Gonçalves Salgado, descendentes de portugueses, Pedro Salgado nasceu na cidade de Arrozal do Piraí, estado do Rio de Ja­neiro, em 13 de agosto de 1890.

  Com apenas um ano e meio de idade, Pedro Salgado ficou órfão de pai.

  Dona Augusta, mulher simples e carregada de amor aos filhos e fibra para o trabalho, ficou com a árdua tarefa de cuidar dos filhos Pedro e Antonio, o que fez com a tenacidade dos fortes.


(Clique na imagem para ampliar)
  Em 1892, porém, diante do agravamento das dificuldades, Dona Augusta, na esperança de dias melhores, mudou-se, com os meninos, para a cidade de Taubaté, importante centro urbano do Vale do Paraíba Paulista e onde residia o seu irmão mais velho. Dois anos mais tarde, transferiu-se para Quiririm, distrito da mesma cidade, a fim de morar com sua mãe, que lá residia.

   A convite do Cônego Antonio Marques Henriques, em 1986, o padrasto de Dona Augusta, que era jornalista, transferiu-se com a família para Aparecida e fixou residência na rua Monte Carmelo.

   O jornalista atendeu ao pedido do Cônego para ser redator do jornal "Luz D'Apparecida", um periódico de circu­lação semanal e que era um dos mais antigos da região e encontrava proje­ção nacional.

   Ainda assim, a situação não ficou mais amena para a família do peque­nino Pedro. Dona Augusta conti­nuou trabalhando, arduamente, cuidando de tarefas domésticas como lavar e passar roupas "pra fora" e fazendo pequenos serviços para a igreja.

   Em Aparecida, o menino Pedro Salgado, então com seis anos, encontrou um rico ambiente musical que despertou o seu gosto pela arte e, posteriormente, favoreceu o desenvolvimen­to de seu talento.

   Imerso entre músicos de elevada capacidade de composição e execução, Pedro da Cruz Salgado passou a infância ouvindo composições primorosamente executadas por expressi­vos nomes da música local.

   Encantado pela música, o humilde menino era presença garantida na audiência das bandas de música da cidade. Junto ao coreto, dificilmente perdia as retretas. A impertinência do petiz acabava sempre por vencer a mãe que acabava cedendo aos insistentes pedidos. Era quase impossível contê-Io em casa quando havia banda na rua.

   Não bastasse ouvir, também acompanhava os músicos comprazendo-se com um pequeno mimo: freqüentemente pedia para carregar os instrumentos dos músicos da banda e, geralmente atendido, com galhardia e orgulho os empunhava. Era comum ver o menino perfilado com a banda carregando um piston.

   A "música" também soava para a­lém da casa de Pedro quando ele resolvia, com seus colegas, tomar b­nho nas turvas águas do rio Paraíba do Sul. A vizinhança toda podia ouvir a ralhação da mãe acompanhada da percussão do chinelo. Uma sinfonia.

   Entretanto, as traquinagens da me­ninice não paravam por aí. Em 1900, com apenas dez anos de idade, liderou um grupo de meninos e formou uma banda de música, se é que pod­ria receber este nome um grupo de moleques marchando pelas ruas de Aparecida soprando instrumentos feitos de talo de folha de mamoeiro, e batendo tampas de caçarolas e panelas.
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