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Romaria em carro-de-boi | Conceição Borges Ribeiro Camargo
  A palavra romaria vem realmente de Roma, por ser a sede da Igreja, para onde muitos peregrinos se dirigiam desde os primeiros tempos. Surge, daí, a palavra romeiro.

  Romaria é um aspecto religioso, sobrevivências de costumes que encontram nesses momentos, clima favorável à exteriorização normal.

  A parte exterior das romarias, após as promessas, doação de espórtulas, entrega de ex-votos, assistência ao cerimonial litúrgico, é campo aberto ao estudo da etnográfica e do folclore, de alto interesse humano.

  Os portugueses trouxeram a tradição das romarias para o Brasil. Não consta que indígenas tivessem pontos de afluência religiosa nem que os africanos conhecessem romarias.

  No Brasil, entre os principais centros de romarias destacamos Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, e Bom Jesus de Pirapora, ambos em São Paulo. Nesses templos há sempre a “Sala dos Milagres” com centenas de ex-votos que merecem pesquisa etnográfica e artística.

  Na romaria pode vir até um só romeiro, mas os primeiros que das vizinhanças chegaram em Aparecida, vinham freqüentemente em grupos, a pé, depois em tropas com o bimbalhar alegre dos cincerros, em carros-de-boi, trens, caminhão, ônibus e os mais diversos meios de transporte.

  Nos caminhos do passado...

  Estes caminhos que cruzam o nosso Vale e vêm do mar, seguem para as serras e para os planaltos, são todos caminhos de civilização e de riqueza. Por eles passaram os construtores do Brasil, grandes e anônimos, os senhores de alta prosápia, de nobreza, os capitães generais, os clérigos, os bandeirantes, os faiscadores, os flibusteiros, os tropeiros, os soldados, os escravos e a malta oriunda de vários meridianos, que o acaso, a ambição ou o destino fizeram demandar as terras por onde da “serra da Bocaina a São João da Barra” segue o Paraíba.

  E todo esse mundo de gente, que por aqui passou ou aqui se fixou, que plantou cana ou café, tangeu gado, abriu estradas, tocou tropa, fundou cidades e criou um centro, que foi de civilização e hoje é de progresso, trazia em suas lembranças, nas suas bagagens, nas suas bruacas e nos seus baús e canastras, costumes imemoriais com que se adaptaram e, assim como os sangues se miscigenaram, as tradições e os usos se aculturaram, criando-se o modo de viver do homem do Vale, cujas características atraem os sociólogos.
  A conformação topográfica da região fez de Aparecida-Guaratinguetá passagem obrigatória de movimentação populacional entre São Paulo, Rio de Janeiro e Sul de Minas. O Vale do Paraíba vem, de Taubaté em diante, acompanhado de longe à esquerda e à direita pela Mantiqueira e pela Serra Quebra Cangalha na direção ao leito do Paraíba, deixando apenas estreita margem entre as águas e os morros, em que se encastela a cidade. A cidade tem uma área de 112 km2, altitude de 554 metros e, na estimativa do IBGE no ano de 1985, 32.303 habitantes.

  Um fato porém ergueria a vida do Vale do Paraíba, sobretudo na região paulista: o encontro, em outubro de 1717, da imagem Sagrada que transformaria a nossa cidade no Santuário da Padroeira do Brasil, pela púrpura cardinalícia feito um dos mais famosos encontros de romarias de todo o mundo, engalanado pela Rosa de Ouro por mercê do Santo Padre Papa Paulo VI.

  No dia 26 de julho de 1745, foi inaugurada a primeira Igreja. Capela de Nossa Senhora Aparecida, que após reformas é a antiga Basílica Nacional, de grande saudade, hoje a Matriz-Basílica. Entre 1743 e 1750 surgem as primeiras citações sobre romeiros. Escritores e historiadores nacionais e internacionais visitaram a Capela de Nossa Senhora Aparecida e anotaram grupos de romeiros e romarias.

  Em 1817, cem anos após o encontro da Imagem, dois sábios bávaros, Frederico Felipe Von Martius e João Baptista Von Spix, estiveram em Aparecida na véspera de Natal, deixando estas anotações no livro “Viagem pelo Brasil”: “Após um milha de marcha, chegamos ao sítio de romarias Nossa Senhora Aparecida. Capela situada num outeiro, cercada de algumas casas”.

  O desenvolvimento de Aparecida foi lento até o ano de 1842, data em que foi criada a Freguesia da Capela de Nossa Senhora Aparecida.

  Em 1900 chegaram as primeiras romarias organizadas: Guaratinguetá, Lorena, Taubaté.


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