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Euclides da Cunha em Aparecida do Norte | Conceição Borges Ribeiro Camargo
  Em 1887, era comum em Aparecida do Norte a modinha “Ò pescador da barquinha”. Conta o barqueiro traído pelo feitiço da mulher. Era cantada na sala grande da Fazenda dos Lemes, era cantada às margens do Paraíba prateado, quando se esperava o Marcolino barqueiro. Os remos do Marcolino deixavam um encanto nas águas – ninguém conseguia aquele friso ondulado, tão igual, tão lindo... Marcolino sentia a alma das coisas quando em seu barco atravessava o rio, levando e trazendo passageiros de Aparecida, do Potim. Em noite de lua, era a modinha aduetada, um seresteiro em cada margem e Marcolino cantando também, se distanciando, se aproximando...

 – Ó pescador da barquinha!
 – O que é lá?
 – Quero passar do outro lado.
 – Por quê?
 – O que?
 – Que estou morto de saudade.
 – Não faz mal que esteja!
 – Ó pescador da barquinha!
 – O que é lá?
 – Onde tu vais enganado?
 – Por quê?
 – Essa mulher que tu levas,
 – O que tem?
 – Já foi mulher de um soldado.
 – Não faz mal que fosse!
 – Ó pescador da barquinha!
 – O que é lá?
 – Onde tu vais iludido?
 – Por quê?
 – Essa mulher que tu levas.
 – O que tem?
 – O que tem?
 – Não faz mal que tenha!

  Depois, o Marcolino morreu. Veio outro barqueiro, o Pedro, e veio também a ponte. No fim do século passado, Aparecida era distrito de paz do município de Guaratinguetá. No pitoresco e vizinho bairro do Putim, residia Francisco José de Castro, senhor de diversas propriedades agrícolas, inclusive a Fazenda Amarela. Uma balsa no rio Paraíba unia os dois povoados. Balsa pequena, não facilitando o transporte e o comércio.

  Sentindo quanto era difícil e minguava o serviço da balsa para o escoamento dos produtos de suas fazendas e passagem do seu gado, tratou de construir à sua custa, uma ponte de madeira sobre o rio Paraíba.
  Tendo sido edificada uma ponte metálica em Guaratinguetá, demoliram a velha ponte de madeira, que unia a cidade ao bairro do Pedregulho, e o material foi por ele adquirido e transportado, parte pelo vaporzinho “Piaguhy”, do Engenho Central de Lorena, parte por carros de boi de sua propriedade, fazendo estes o percurso por Aparecida. Conta-se que, na baldeação da madeira, um homem caiu do vaporzinho perecendo afogado.

  Achando que o caminho de Aparecida ao Putim não era bom, pois que as árvores se tocavam e seus ramos se uniam, tornando a passagem embaraçosa ao próprio pedestre, falou com Antonio Barbosa – o Totó da Ponte Alta, proprietário do terreno da margem direita do Paraíba, lado de Aparecida – para mudar o traçado tornando-o mais acessível ao povo. Totó concordou e fez-se novo caminho saindo da porteira, não muito distante do outro caminho, que serve até hoje para todo comércio e ligação entre Putim e Aparecida.

  Trazia o material de Guaratinguetá e deixado às margens do rio, iniciou-se a construção. Duas vezes foi começada do lado do Putim, mas, devido ao xisto existente, não ia avante. Tentaram, por esse motivo, as obras do lado de Aparecida. As estacas, apesar de serem fincadas e batidas por meio de um bate-estaca, não se afirmavam no leito do rio, devido suas formação ardosiana. Mandaram fazer uns ponteiros de ferro para serem adaptados para serem adaptados a cada estaca, facilitando a penetração no xisto. Depois de fincados no fundo do rio, seguras por homens e cordas, entrava em ação o célebre bate-estaca. Por cima do andaime, que ia de uma à outra margem fez-se uma armação de madeira em forma de duas escadas, com um intervalo de 60 centímetros, e muito bem travada. Uma carretilha possante estava na viga suporte, na parte superior da armação, entre as duas escadas, em cujo vão devia correr o peso bate-estaca.

  O pobre e primitivo bate-estaca do Putim era, afinal, uma simples e pesada peça de ferro, em forma quase de pirâmide quadrangular, tendo na parte menor uma argola, à qual se deveria prender um cabo de aço, que giraria na carretilha.


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