Nº 60 | novembro / dezembro 2014
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Sacizada de São Luiz | Da Redação

São Luiz do Paraitinga-SP é o típico exemplo de cidade que caminha a passos largos na construção de uma identidade ligada à cultura popular. Seu calendário anual de eventos está repleto de festividades que orbitam em torno das crenças e hábitos regionais.

De festas religiosas e seus folguedos a manifestações folclóricas, as atividades se sucedem ao longo dos meses preenchendo o cotidiano dos habitantes da cidade e alimentando a economia local com a presença constante de turistas em busca de formas alternativas de lazer que, por sinal, em São Luiz, são exuberantes.

"Encontro de Folia de Reis", em janeiro, "Festival e Carnaval de Mar-chinhas", em fevereiro, "Semana da Canção Brasileira", em maio, "Soca Paçoca", em julho, "Festa da Cozinha Caipira", em agosto, "Festival da Mú-sica Caipira de Raiz", em setembro, "Semana da Cultura Negra", em novembro, e "Natal das Fitas", em dezembro, são alguns momentos de um farto calendário que, em 2014, por exemplo, contou com mais de trinta promoções.

Dentre tantas realizações, a "Festa do Saci", em sua 12a edição, traz o tom especial da valorização de elementos da cultura nacional.

Não sem razão, o lendário e traquina personagem da carapuça vermelha é celebrado no dia 31 de outubro. Uma reação simbólica ao avanço cultural (e de consumo) do "Dia das Bruxas" dos estadunidenses.

Muito embora, em 2003, tenha sido apresentado um projeto de lei de autoria de Ângela Guadagnin na Câmara dos Deputados, para a oficialização nacional da data, foi a Assembleia Legislativa de São Paulo que se antecipou e aprovou uma lei, datada de 13 de janeiro de 2004, instituindo o "Dia do Saci" (Lei n0 11.669). Antes do Estado de São Paulo, porém, várias cidades paulistas já haviam adotado o mesmo procedimento, dentre elas São Luiz do Paraitinga e Guaratinguetá.

Outras cidades brasileiras como Vitória-ES, Uberaba-MG, Poços de Caldas-MG e Fortaleza-CE também adotaram o negrinho perneta e o 31 de outubro com o objetivo de resgatar personagens do folclore nacional.

Mas, sem pestanejar, é em São Luiz do Paraitinga-SP que o moleque travesso apronta das maiores.

Foi lá o berço da criação da primeira lei municipal do país reconhecendo o seu dia e é lá que o saci se esconde. Ou é guardado?

Criada em 2003, a bem humorada Sociedade dos Observadores de Saci (SOSACI) tem sido a Organização não-capitalista (ONC) - como se auto-denomina - responsável pela mobilização de recursos com o propósito de encontrar o danadinho do pé-de-vento e de prendê-lo na memória das pessoas para que dali não saia mais.

Assim, foi esta organização a res-ponsável pela aprovação do Projeto de Lei Municipal n0 43, de 16 de setembro de 2003, que estabeleceu o período de 25 a 31 de outubro como a Semana do Saci, iniciativa pioneira no Brasil.

Também tem sido ela grande defensora da cultura nacional, como se pode observar no oswaldiano "Manifesto do Saci":

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"Um espectro ronda a indústria da cultura. Como já ocorrera durante a I Guerra Mundial - quando os chamados 'povos civilizados' se matavam entre si nos campos da Europa, como lembra Monteiro Lobato em seu Inquérito, escrito em 1917 -, o espectro do Saci voltou para dar nó na crina das potências que invadem os outros países com uma 'indústria cultural' predadora e orquestrada.

O Saci é reconhecido como uma força da resistência cultural a essa invasão. Na figura simpática e travessa do insígne perneta, esbarram hoje, impotentes, os x-men, os pokemon, os raloins e os jogos de guerra, como esbarravam ontem patos assexuados e ratos com orelhas de canguru.

É tempo, pois, do Saci expor abertamente seus objetivos, lançando um manifesto e denunciando o verdadeiro espectro: o espectro do imperialismo cultural. Para tanto, outros expoentes do imaginário cultu-ral brasileiro - como o Boitatá, a Iara, o Curupira e o Mapinguari - reuniram-se e redigiram o presente manifesto.

A cultura popular é um elemento essencial à identidade de um povo. As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso país. A história de todas as culturas até hoje existentes é a história de opressores e oprimidos. Hoje, como ontem, o Saci apóia, em qualquer lugar e em qualquer tempo, qualquer iniciativa no sentido de contestar a arrogância, a prepotência e a destruição de que é portadora a indústria cultural do império.

O Saci não se reivindica como símbolo único e incontestável da cultura popular brasileira. O Saci trabalha pela união e pelo entendimento das várias iniciativas culturais que devolvam ao nosso povo a valorização de sua identidade cultural. O Saci não dissimula suas opiniões e seus objetivos e proclama, abertamente, que estes só podem ser alcançados por um amplo movimento de resistência cultural, denunciando os malefícios da indústria cultural imperialista. Que ela trema à idéia de uma resistência cultural popular. Nesta, o Saci nada tem a perder a não ser seus grilhões. E tem um mundo a ganhar.

Sacis de todo o Brasil, unamo-nos!"


Hoje, há mais de uma década, São Luiz soma aos seus tantos títulos o de ser a cidade da grande travessura de lutar pelo genuinamente brasileiro.
 
 
Ótica Macedo ACIA
 
 
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