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Nº 49 | janeiro / fevereiro 2013
Memória

O piano do Sanatório | Wanderley Gomes Sardinha

De 1902 a 1909, meu avô Francisco Ramos prestou serviços para o Ministério da Guerra, fazendo transporte de material para as obras militares que se realizavam em Lorena, na Vila Vieira do Piquete e na Serra da Mantiqueira. Eram elas a ferrovia Lorena – Benfica, a Fábrica de Pólvora Sem Fumaça e o Sanatório Militar de Lavrinhas. Esse trabalho, meu avô fazia com 4 carros de boi puxados por 8 juntas e conduzidos por ele e por meus tios João, Luiz e Antonio. Com a inauguração da ferrovia, em setembro de 1906, esse serviço foi quase extinto. Apenas continuou o transporte para o Sanatório Militar.

Meu avô era considerado o melhor carreiro, ou condutor de carros de boi, que trabalhava para o Exército Brasileiro, nas obras da região. Era competente, cuidadoso e dedicado. Certa ocasião, ele transportou 5 mil telhas de barro, importadas da França, da estação de Lorena para o canteiro de obras da Fábrica de Pólvora, sem quebrar nenhuma. Isto fazia dele um profissional respeitado. Um dia, em dezembro de 1907, ele foi chamado à Estação Rodrigues Alves para realizar um trabalho para o Ministério da Guerra, a pedido do coronel Joaquim Maia, que construía o Sanatório Militar de Lavrinhas. Tratava-se de levar uma carga valiosa e delicada para aquele hospital, que deveria ser inaugurado nos primeiros dias de 1908. Esta consistia de um piano alemão, novo, afinado, com 800 libras de peso, envolto em papelão e embalado em madeira. A carga não deveria sofrer solavancos, não tomar chuva e nem exposição a calor excessivo.

Eram 6 horas da manhã de uma 2ª feira, quando meu avô chegou à Estação Rodrigues Alves. O tempo era bom e não havia prenúncio de chuva. Veio a cavalo acompanhado de meu tio Luiz, que conduzia um carro de boi, tracionado por uma junta de bois mansos. Meu tio pendurou nas laterais do carro 8 jacás com capim, para forragear os bois nas paradas. A água seria bebida nos rios do Ronco, do Piquete e do Benfica, que seriam cruzados mais de uma vez. Um jogo de calços, de madeira de lei, era levado para travar as rodas do carro, nas paradas íngremes. No fundo do veículo foi colocada casca de arroz até a altura de 1 palmo e as laterais foram protegidas com fibra seca de bananeira. Às 8 horas deixou a estação com destino ao Sanatório Militar.

Em pouco tempo, dezenas de crianças juntaram-se ao lado do carro de boi, para acompanhar o cortejo que se formara. Quando se soube que a carga transportada era um piano, a curiosidade de todos aumentou. Meu pai era um daqueles pequenos e ele me disse que um acontecimento, como aquele, era tão raro que não poderia ser perdido. Os meninos acompanharam aquele préstito, até o bairro do Bambuzinho.

A parada para o almoço foi realizada junto ao rio Benfica. Os animais receberam a ração de capim e beberam bastante água. Meu avô e meu tio consumiram o almoço que trouxeram e se prepararam para a parte mais difícil da jornada, que era subir a serra do Benfica. Chegaram ao Sanatório Militar no início da noite, descarregaram a preciosa carga, alimentaram os bois e os soltaram na invernada. Após tomar banho e jantar foram dormir e se preparar para a descida da serra, que fariam no dia seguinte. Antes de adormecer, tiveram a agradável surpresa de ouvir uma jovem enfermeira executar lindos acordes no piano que transportaram. Eram músicas de Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros e Joaquim Calado.

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Aquele instrumento musical fez a alegria do hospital nos 4 anos em que ele funcionou. Ficava no salão de visitas e, após o expediente, sempre havia alguém disposto a tocá-lo. Como a quase totalidade dos médicos, enfermeiros, enfermeiras e funcionários da administração residia no Sanatório, o local de reunião, após o jantar, era junto ao piano. Inúmeros cantores que se apresentaram no hospital tiveram acompanhamento pianística. Mário Pinheiro, o maior cantor do Brasil, no começo do século passado, Roque Ricciardi, o seresteiro da Pauliceia, Eduardo Neves e tantos outros. Nas noites de 6ª feira apresentavam-se no Sanatório os artistas da Vila Vieira do Piquete, Francisco Máximo, Gracioso Maziero e Bonfiglio de Oliveira. A plateia era sempre composta por médicos, enfermeiros, enfermeiras e pessoal da administração, uma vez que os pacientes, quase todos idosos preferiam os conjuntos de violeiros e sanfoneiros que vinham de Itajubá e cidades vizinhas.

Um dia em 1911 aquele magnifico hospital, um dos mais modernos do país, de sua época, fechou suas portas. Não conseguimos acreditar que o marechal Hermes da Fonseca, o presidente da República da época, permitiu que aquele crime se consumasse. Ele que, como Ministro da Guerra tanto se empenhou para a conclusão e inauguração do Sanatório, agora permitia a sua desativação. Será que ele não se lembrava de que centenas de soldados, que lutaram com ele no Paraguai, tinham no Sanatório o repouso merecido e o tratamento adequado para os males trazidos do campo de luta?

O piano alemão, afinado, de apenas 4 anos, agora estava mudo, coberto de poeira, em um canto do hospital novo, mas agora abandonado. Algum tempo depois, um comboio de carros de boi parou defronte o imponente prédio, para transportar o material hospitalar, para a estação ferroviária da Estrela, na Vila Vieira do Piquete. Meu pai fazia parte daquela comitiva. Quando ele viu o piano pronto para ser embarcado, todo empoeirado, sem embalagem protetora, seus olhos se encheram de lágrimas. Recordou o dia em que caminhara junto dele pelas ruas de nossa terra.

Aquele material foi desembarcado e ao seu lado uma placa dizia: “destinado à estação ferroviária de Itatiaia”. Meu pai contemplou, tristonho, aquele piano, pela última vez.

Wanderley Gomes Sardinha é membro titular da Academia Lorenense de Letras.

 
 
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