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Nº 54 | novembro / dezembro 2013
Artes

Magela Borbagatto: Mestre da Cultura Popular | Da Redação

Geraldo Magela dos Santos, ou simplesmente Magela Borbagatto, é um artista plástico autodidata nascido em Jacareí-SP e que há mais de 25 anos desenvolve seu trabalho voltado para as figuras populares de barro e para a pintura primitivista. Borbagatto ainda ocupa-se da curadoria de exposições, da criação de jogos com mandalas, da docência em cursos livres de artes plásticas para crianças, jovens e professores, e da coordenação de projetos socioeducativos em instituições públicas e privadas da capital paulista, do Vale do Paraíba paulista e de algumas cidades mineiras.

O Lince – Quando e de que maneira se deu sua iniciação à arte popular?

Magela Borbagato – Minha iniciação à Cultura Popular se deu do modo espontâneo em meio ao rico universo de expressões populares que existia em Santa Branca-SP, cidade onde cresci. Nesta cidade, onde passei a morar a partir dos seis anos de idade, convivi naturalmente com festas populares onde havia doces típicos, grupo de Moçambiqueiros, rezas de Capelão, quermesses, leilões de roça, jeito típico de falar o português, bandeirinhas, flores de papel, cartuchos de prendas, estandartes, folias de Reis, danças de São Gonçalo, encomendações das Almas, contos de assombrações, histórias antigas da cidade, costumes dos mineiros & costumes dos paulistas, presença dos comerciantes libaneses, plantações de laranja e de caqui, pescarias, céu aberto e estrelado e uma praça pública que era o mundo daquele lugar. Tudo isso batido no liquidificador da alma passou a ser a minha essência, que influenciou em muito o meu olhar e a minha relação com a Arte que eu viria a produzir e propor ao longo da minha carreira.

O Lince – Por quê Borbagatto pos-posto ao seu nome?

Magela Borbagato – O sobrenome artístico BORBAGATTO é uma solução prática que dei a um problema de confusão entre os meus trabalhos e os trabalhos de outro artista, que também tem o mesmo nome. Em Santa Branca existe o Artista Plástico, meu amigo, cujo nome é Magela e por inúmeras vezes as pessoas procuravam por mim na casa dele e vice versa. Durante muito tempo procurei uma forma de distinguir nossos nomes, uma vez que trabalhamos no seguimento das artes populares, ele no campo da Pintura Primitivista e eu na Cerâmica Figurativa. Quando passei a ter um atelier em Jacareí, cidade onde nasci, foi exatamente na Rua Borba Gato que me estabeleci. Manuel de Borba Gato foi genro de Fernão Dias Paes, o Bandeirante. No final desta rua vivem descendentes do renomado buscador de esmeraldas, e também por isso resolvi adotar Borbagatto, como uma distante homenagem a estes paulistas que, a partir do Vale do Paraíba, foram em busca de outras “terras brasilis”. Afinal, viver de expressão artística no Brasil é como desbravar terras hostis, enfrentando onças e jaguatiricas, serpentes e mosquitos, até que se possa estabelecer dignamente a defesa e a prática da Arte popular brasileira.

O Lince – O que são as “paulistinhas”?

Magela Borbagato – “Paulistinhas” são imagens sacras populares do Vale do Paraíba, que surgiram para atender as demandas do comércio de imagens, no final do século XVII até o início do século XX. Feitas em argila branca cinzenta, queimadas em forno à lenha, possuem características muito próprias, tais como quantidade reduzida de cores (branco, azul, vermelho, preto e verde azulado); formato cônico; expressões rígidas; feições “ingênuas”; ocas até quase a cabeça (para facilitar o processo de queima) e, principalmente, na grande maioria, de culto doméstico, por se tratar de imagens feitas para o povo simples de nossa região vale paraibana. Tais imagens trazem consigo mais mistérios do que informações, pois tendo origem até hoje desconhecida, e com total ausência de assinaturas dos santeiros, seguem anônimas e quase desconhecidas do próprio povo do Vale. Por “se tratar de imagens que atendiam o povo mais simples, obviamente jamais chegaram a concorrer com suas parentas” vindas da Europa, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais, e por ser assim também pouca ou nenhuma atenção despertou entre o clero e as pessoas mais abastadas do Vale. Valorizar a história desta imaginária é, antes de tudo, resgatar a religiosidade e fé das pessoas comuns que construíram o “império cafeeiro” do Vale. Ainda mencionamos “os Barões e os Aviões”, mas esquecemos dos “caipiras e dos tuberculosos” que influenciaram o nosso jeito de ser. A divulgação desta imaginária popular é uma tentativa de resgatar algo tão simples e frágil, mas de uma importância muito grande para a história regional, dando a conhecer seus saberes e fazeres, sua utilidade e significado, sua presença e identidade marcante.

O Lince – Recentemente você recebeu um importante prêmio do Ministério da Cultura que passa a considerá-lo como Mestre da Cultura Popular Brasileira. Você pode nos falar um pouco mais sobre a importância deste prêmio e do reconhecimento que lhe foi dado? Ou seja, o que significa ser um Mestre da Cultura Popular no Brasil?

Magela Borbagato – O Prêmio de Mestre da Cultura Popular Brasileira, conferido a mim e a mais 169 brasileiros de todo o país, reconhece nossa contribuição para a difusão, preservação e fomento da cultura brasileira, de importância local, regional, estadual e nacional. O título de Mestre é, antes de tudo, uma “medalha de honra ao mérito” por termos trabalhado anônima e persistentemente nos valores culturais brasileiros. Lamentavelmente a Cultura Popular não é tão enaltecida como as culturas eruditas, de origem europeia, possivelmente será mais fácil um instrumentista clássico ser homenageado publicamente, do que um mestre da cultura popular. Somos Mestres da cultura marginal, embora sejamos representantes da Cultura Brasileira, que sofridamente resiste às embromações estrangeiras, que vai trocando nosso Saci por teias de aranhas importadas de outras culturas dominantes.

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Ser Mestre da Cultura Popular Brasileira significa receber um copo de água fresca depois de ter andado mil quilômetros. Felizmente o Ministério da Cultura nos oferece esse copo de água fresca para continuarmos nossa caminhada. O grande diferencial deste prêmio está em reconhecer em vida àqueles que deram sua vida para o fazer artístico popular, uma vez que as instituições públicas são muito deficientes em reconhecer talentos em sua própria localidade, ou quando o fazem isso se dá com o “mestre” já morto e sepultado e quiçá dando a ele o nome de uma rua insignificante em um bairro sem nenhuma infra estrutura. Eu ainda estou por entender o que este Prêmio vai representar em minha vida, pois até o momento não obtive dos órgãos competentes (prefeitura e fundação cultural) de minha cidade (Jacareí) nem sequer uma meia vírgula de congratulação. Quatro vereadores se manifestaram via moção congratulatória na Câmara Municipal e todos os meios de comunicação da região foram solícitos em me entrevistar e divulgar a notícia do prêmio.

O Lince – Às vésperas do Natal, como você percebe, sob a perspectiva da cultura popular, as relações entre as nossas típicas formas de celebrar o nascimento de Jesus e esse grande movimento promovido pela “shoppingnização” dos costumes?

Magela Borbagato – A “shoppingnização” dos costumes natalinos é uma excelente forma de matar a cultura brasileira e seus costumes, pois ao implantar o velhinho de barbas brancas e seu saco de ilusões, vai retirando sistematicamente o espaço do nosso jeito tradicional de enfeitar o natal. Quando matamos o jeito brasileiro de enfeitar o natal, matamos também a arte de montar presépios, a arte de modelar presépios e também os folguedos próprios desta época. Lembrem-se de que a Folia de Reis, as Pastorinhas, os Figureiros e outros fazeres e saberes também morrem quando se mata o hábito de montar o presépio. Afinal, como uma Folia de Reis poderá cantar seus louvores, se não houver mais pessoas que montem seus tradicionais presépios? Como sobreviverão os figureiros cuja fonte de renda mais importante é a confecção de presépios? Que significado terá para as pastorinhas de cantar para o Papai Noel e seu saco de ilusões? É muito fácil matar uma cultura e soterrá-la sob o pretexto de modernidade e inovação.

O Lince – Você tem feito um louvável trabalho com o objetivo de divulgar e propagar o tema “paulistinhas” pelo Brasil, e até mesmo no exterior, proferindo palestras, ministrando cursos, organizando exposições e desenvolvendo projetos socioeducativos. Que razões te motivam?

Magela Borbagato – A Cultura Popular no Brasil terá que ser muito forte e bem articulada se quiser sobreviver tendo em vista o futuro. Aqui nos lembramos da Cultura Nacional apenas no mês de agosto para, logo depois, fingirmos que não somos brasileiros. A Cultura Popular, em um país consciente, deveria ser pauta para todos os dias e todos os segmentos da sociedade, considerando que um povo bem definido culturalmente será mais difícil de ser prostituido.

O Lince – Analisando, retrospectivamente, os resultados de sua carreira como artista popular, como você a avalia? E que perspectivas poderiam ser apontadas para a cultura popular em nosso país?

Magela Borbagato – Ao olhar para a minha trajetória de Artista, vejo que explorei bem meus parcos talentos e os fiz render muito mais do que eu imaginava. Trabalhei em variadas áreas, sempre colocando a brasilidade como ingrediente dos meus trabalhos. Optei por ser um artista do fazer e não um artista da produção. Minha arte nasceu nas mãos de todos aqueles que passaram pelo meu caminho nestes últimos 35 anos de caminhada. Quis ser um artista em contato com as comunidades e não me tornei um artista fechado em atelier, numa produção obsessiva. Gosto de passar o que sei; focalizo o processo do fazer artístico e não me ocupo muito com o produto final. Em minha opinião quem aprecia um quadro, uma escultura ou qualquer obra do universo das plásticas, dificilmente verá ali o quanto de tempo e dedicação o artista ali depositou, sendo assim, gosto de vivenciar o fazer com meus alunos. Não me considero um perito em técnicas, mas sim um especialista em compartilhar meus pequenos saberes com aqueles que cruzam o meu caminho das artes!

Confira um pouco da obra Magela Borbagatto em nossa Galeria

 
 
 
 
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