Nº 46 | julho / agosto 2012
Panopticum

O Engenho D´água ontem e hoje | Thereza e Tom Maia

Fazenda Engenho d’água no álbum de arte Vale do Paraíba - Velhas Fazendas com desenhos a bico-de-pena de Tom Maia e texto de Sérgio Buarque de Holanda. 1976.

Erguido no século dezoito e hoje tema de textos, tese e até do livro intitulado “A Fazenda Engenho d’água de Guaratinguetá - a beira do caminho e dentro da história”, de autoria de Maria Apparecida Nogueira Coupé, este antigo engenho é um precioso testemunho da memória de vários tempos da região do Vale do Paraíba Paulista. Dista 4 km, por asfalto,do centro da cidade, à margem do ribeirão São Gonçalo e à direita da Rodovia Paulo Virgínio, antigo Caminho Novo que ligava Guaratinguetá e Cunha ao porto de Paraty.

Seu primeiro proprietário foi Mathias da Silveira, filho do Padre Antonio da Silveira. Falecido em 1776, Mathias era português da Ilha do Funchal. O engenho vivia então do plantio da cana, com produção de aguardente e açúcar. Nele, além das terras e 38 escravos, registra Maria A. N. Coupé, havia “uma morada de casa de vivenda de três lances, assobradada, parede de mão coberta de telha, com casa de cozinha e mais mesteres, coberta de telha, casa de moenda, de alambique, das pipas e mais despejo, paiol com quarto pegado, tudo coberto de telha e mais benfeitorias, decídio que tudo sendo avaliado pelos ditos avaliadores em 160 mil réis”.

A partir daí sucederam-se dezoito proprietários até os dias atuais, com destaque para alguns como Manuel José de Melo, futuro Capitão-mor da Vila de Guaratinguetá, onde em 1822 hospedou o Príncipe D. Pedro na sua viagem para a Independência do Brasil. Nas terras do Engenho, antes de se dedicar ao café e após a cana, o futuro Capitão-mor, um dos mais poderosos economicamente da Província de São Paulo, plantou chá com mudas vindas da Índia.

Ficou também a lembrança na fazenda, do seu proprietário Dr. Francisco de Paula Oliveira Borges – filho do Visconde de Guaratinguetá. Foi Promotor Público de Guaratinguetá, Deputado à Assembleia Legislativa e Presidente da Província da Paraíba em 1887. Condecorado com a Ordem de Cristo, ficou conhecido em sua terra pelas missas de Natal que anualmente mandava rezar na fazenda do Engenho d’água. Uma carta, escrita por sua filha adotiva Evangelina para Maria Isbella Maia Fabiano, autora do texto “As missas na Fazenda Engenho d’água”, aqui a transcrevemos:

“Pai Borges, por várias vezes, sempre no dia de Natal, ofereceu uma grande festa, no Engenho D’água, nossa fazenda de recreio, a pouca distância de Guaratinguetá. Festas estas que marcaram época, tal era o interesse que despertavam nos moradores da cidade. Eram convidados os parentes, compadres e amigos mais chegados. Constava de uma Missa de Natal, acompanhada de um lauto almoço à moda da roça. Isto passava-se entre 1907 e 1911, com muita alegria e congraçamento entre os convivas por motivo do Ano Bom.

A missa era rezada em uma das duas alcovas da sala de visitas, preparada para a cerimônia. Era uma grande casa colonial, com uma sala de jantar de 10 m. de comprimento tendo ao fundo um canto de lazer com uma rede, cadeiras de balanço, poltronas, etc.

Mãe Miloca, nessa época, com boa saúde ocupava-se, com muita eficiência, da direção da casa, abrangendo a cozinha, as iguarias, o requinte da mesa e desempenhando seu papel de anfitriã. Logo nos primeiros dias do mês, as doceiras habilitavam-se com seus apetrechos para a fabricação de doces cristalizados que demandavam de tempo, as compotas, bolos, pudins e mais quitutes. As cozinheiras selecionavam os animais para o corte, tais como: perus, leitões, cabritos, frangos e pombos. Para estas festas a firma Monteiro Jr enviava a cada ano, os peixes e camarões em latões com gelo e mais uma enorme barrica com frutas européias, nozes, amêndoas, avelãs, castanhas e bacalhau da Noruega. Tudo era festa.

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Os convidados eram transportados em “troleys” puxados a dois burros, que faziam diversas viagens à cidade. A mesa era posta com capricho: toalha de linho bordada, cristais finos e talheres de prata, acompanhando as sopeiras antigas e travessas de prata. O cardápio constava de: uma boa canja, perus assados, leitões, frangos, bacalhau à Espanhola e arroz com pombos. Para a sobremesa havia torta de nozes, pudins, doces diversos regados com bons vinhos escolhidos. Depois do almoço, Pai Borges levava os convidados para visitarem um pomar, do qual ele se orgulhava. Tudo plantado e cultivado por ele com o maior carinho. Eram “Kakis” que ele mandou vir do Japão, ameixas, pêssegos, figos, mangas, laranjas, etc... As parreiras, que eram muitas, ele sulfatava com uma máquina as costas, para preservar das moscas e morcegos e também da moléstia das uvas. Suas uvas prediletas eram as “moscatel”, “chacelat rose” e a “delavase” para o vinho. As uvas eram, além desse tratamento, ensacadas cacho por cacho, para maior garantia. Era uma vivenda maravilhosa. Só uma coisa nos preocupava cada ano: as chuvas de verão. Por duas vezes foi penosa a travessia do rio que circundava a fazenda, exigindo um cocheiro bem adestrado para o trabalho. Felizmente nunca aconteceu nada e então ficou agradável a recordação destas festas que não voltam mais.

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Thereza Regina de Camargo Maia é historiadora, escritora e diretora do Museu Frei Galvão em Guaratinguetá-SP.
Tom Maia é desenhista e escritor.

 
 
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