– Estou notando, continuei, enquanto examinava a preciosidade, que alguns destes impressos...
– ...são anteriores a nossa Independência, concluiu o senhor Rodrigues. Eu sei. Mas aqui ninguém se interessa por essas velharias. Por ocasião de uma faxina que fizeram nos cacarecos e bugigangas da casa, até quiseram pôr no lixo, de uma só vez, tudo isso. Aliás as traças e a umidade já se incumbiram da destruição.
– Mas o senhor poderia...
– ... vender, não é? Pois isto é que não. Vender, não quero. Prefiro dar de presente, como faço agora, a alguém que aprecie, que conserve, que tenha gôsto por estas coisas. Olhe: cá está um número da “Aurora Fluminense”, de março de 1831; traz um notável artigo do Evaristo declarando inevitável a renúncia do Pedro I. Cá está outro: o “Diário Mercantil”. Viu o que publica na primeira página? O famoso edital do “toque do Aragão”. É de 4 de março de 1825!
– Realmente! Não sei como lhe agradeça esta...
– Não tem o que agradecer. Veja agora este “Mosaico”. O primeiro jornal publicado em Guaratinguetá! E este outro, o “Paraíba”.
– Não é tão antigo...
– Como o outro, não é. Tem uns bons sessenta anos. Mas leia o título do artigo que toma tôda a primeira página.
– “A mais bela dádiva do Paraíba.”
– Isso! E sabe do que se trata?
– Já percebi, disse eu, examinando a página referida. É da imagem de Nossa Senhora...
– Da Aparecida. Justamente! Nem podia ser outra coisa! Aí está a reprodução total do manuscrito em que o Padre Vilela conta o "achamento" da imagem, e os primeiros milagres.
João Baptista de Mello e Souza foi professor do Colégio Pedro II, membro da Academia Carioca de Letras e autor, entre outros, dos livros Majupira (Editora Saraiva), Meninos de Queluz e Histórias do Rio Paraíba, em dois volumes
“Os barcos desciam nas águas escuras
Do rio deserto... E os barcos subiam
Nas águas escuras do rio deserto...
Tornavam subindo... descendo... a tentar...
Lançavam as rêdes... Puxavam as rêdes...
E as rêdes vazias, sem nada a pescar...”
Adelmar Tavares
(O Milagre da Aparecida)
– Ah! você é filho do João de Deus? Entre, môço! Não faça cerimônia! A casa é sua!...
Assim me recebia cordialmente, o senhor Salvador Rodrigues, velho amigo de meu pai, residente na Aparecida, em modesta, mas confortável vivenda na parte plana da cidade, aquém da estação. Antigo serventuário forense, vivia em relativo bem-estar, graças aos recursos provenientes de sua pequena lavoura e da atividade que exercia como agente de companhias de seguros e representante de firmas comerciais. Dei-lhe o apertado abraço que meu pai lhe enviou, e iniciei uma conversação desde logo caracterizada pela mais efusiva familiaridade. Perguntou-me o excelente homem o que me levara até lá.
– Estou em visita a minha irmã, que foi nomeada professora...
– ...da Escola Normal de Guará!... aduziu o dono da casa, que tinha, como verifiquei logo a seguir, o hábito de interceptar e concluir as frases que os outros começavam.
– Isso mesmo.
– Eu li no jornal e fiquei muito contente.
– Obrigado. E meu pai recomendou-me...
– ...que viesse me ver, não é? Pois fêz muito bem.
Momentos depois a conversa tomara nôvo impulso. O senhor Rodrigues convocou a espôsa e as filhas, que se achavam no interior da casa, entregues a seus afazeres.
– Maria Rita! Luciana! Negrinha! Venham cá! Está aqui o filho do João de Deus!
Mais alguns minutos, e já eu estava examinado, fichado e matriculado entre os íntimos da casa. A última criaturinha que me apareceu foi a Negrinha. Era a menina mais clara que eu já tinha visto em dias de minha vida. O que valem os apelidos!
– Pois fêz muito bem procurando o nosso tugúrio, disse o senhor Rodrigues. Seu pai, a quem devo muitos e valiosos serviços, falou-me a seu respeito e me disse que você gosta de colecionar documentos e coisas antigas. Eu prometi, então, mandar-lhe uns jornaizinhos do tempo do Onça e mais uns folhetos e miudezas que um tio meu, falecido há alguns anos, me deu. Vou já buscá-los.
Até hoje me dói a consciência por não haver confessado logo que a posse dos tais jornaizinhos antigos fôra o motivo principal da visita.
– Mas... isto tem grande valor! observei, apenas vi o prometido espólio numa caixa de papelão contemporânea do terremoto de Lisboa.
Que pena! O papel dos folhetos, amarelecido pelo tempo, e já rendilhado nas extremidades como uma filigrama, apresentava sérias lesões que talvez dificultassem a leitura do texto.
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