A civilização elabora no homem apenas a multiplicidade de sensações e... absolutamente nada mais” (DOSTOIÉVSKI, 2000, p. 36).
Ele segue declarando que o homem prefere agir conforme seu próprio prazer – vontade – e nunca segundo a razão, fazendo assim uma alusão crítica à visão grega do mundo - de que há uma força que nos move, a qual, para os gregos, eram os deuses, mas que para nós hoje é o inconsciente, representado por ele como “as leis da natureza” - que destituía qualquer existência de vontade no homem.
Seu discurso segue paradoxalmente falando sobre o levantamento do cadastro das vantagens humanas postos numa tabela a ser devidamente seguida, posteriormente questionada: “Ora, que prazer se pode ter em desejar segundo uma tabela?” (DOSTOIÉVSKI, 2000, p. 40).
Aqui entramos com a teoria do “pai da psicanálise” de que o propósito da vida é o princípio do prazer, que só pode ser alcançado pela satisfação do instinto, gerando em nós, assim, a felicidade. Logo, havendo uma não-satisfação deste instinto, isso provocará em nós um sentimento de desprazer, sofrimento e desconforto que podem advir de três direções distintas: do corpo, do mundo externo ou dos relacionamentos com outras pessoas.
Este sofrimento resulta no mal-estar que impulsionará o sujeito a desejar o afastamento e a fuga. A civilização impõe regras e padrões a serem seguidos que privam o homem da satisfação de seus instintos, gerando este sentimento de repulsa.
É importante ressaltar que:
Freud afirma que é possível explicar essa rejeição da cultura, mas se recusa a justificá-la, porque ela se fundamenta no esquecimento do caráter protetor desta última. [...] o homem não pode viver plenamente feliz nela, mas não consegue sobreviver sem ela (ROUDINESCO e PLON, 2000, p.491).
Thalliane Weber Pereira é graduada em Letras pela Faculdade Tereza D'Ávila – Lorena-SP
“Estudo da séria doença de horror ao domicílio. Causas da doença. Crescimento progressivo da doença. Indignação provocada pela fatuidade universal de todas as classes, de todos os seres, nos dois sexos, em todas as idades” (BAUDELAIRE, 1981, p. 87).
Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski nasceu em 11 de novembro de 1821, em Moscou e faleceu em 9 de fevereiro de 1881, em São Petersburgo, após sofrer uma hemorragia pulmonar. Foi criado num ambiente rígido, por um pai autoritário, era epilético e perdeu a mãe aos dezesseis anos. Viveu na época em que a Rússia saía do czarismo absolutista para a revolução socialista. Ia totalmente contra o pensamento racionalista da época. Era um homem misantropo e taciturno que vivia num “isolamento triste e ressentido” (NUNES, 1995, p. 28). Notam-se traços autobiográficos em suas obras, como veremos em Memórias do Subsolo.
[...] afastavam-no dos condiscípulos um amor-próprio excessivo, uma desconfiança e timidez doentias. Ardia em desejos de se dedicar ao primeiro que lhe aparecesse, mas retraía-se, fechava-se dentro de si mesmo. Tinha medo de viver. Que havia de comum entre esses garotos alegres e Fiódor Dostoiévski, a quem uma melancolia, cuidadosamente conservada, sombreava a existência? Que havia de comum entre as suas aspirações românticas, os seus vagos ideais de glória, as suas admirações literárias e os jogos frustres dos companheiros? Revoltavam-no os gracejos vulgares que lhe ouvia [...] (TROYAT apud NUNES, 1995, p.29).
Memórias do Subsolo, no original Zapíski Iz Podpólia, é uma novela do escritor russo, publicada em 1864, onde, segundo Pinto (2000):
[...] um anônimo narrador destila amargura e escárnio contra as almas idealistas de seu tempo, que confiam ingenuamente na subordinação do homem às leis da natureza como forma de atingir um estado de harmonia social e espiritual. Para o homem subterrâneo, esses “palácios de cristal”, “essas sutilezas do belo e sublime” são quimeras do homem de ação, que reduz os anseios da alma ao bem-estar material, segundo o credo positivista. Por isso, ele preferirá sua existência de zombaria e torpeza, de tédio e inação, a “consciência hipertrofiada” de quem conhece a essência irredutível do ser humano (PINTO, 2000).
O “homem do subsolo”, como o chamou Bakhtin, se porta com desprezo ao moralismo e ao pensamento racionalista e positivista de seu tempo, utilizando como um dos recursos o cinismo de um verdadeiro Dândi. Trata-se de um ser excêntrico, misantropo que fala sobre o “cavalheiro pouco nobre” e a “sensatez”, revelando um mal-estar na civilização e refugiando-se no seu subsolo, que segundo Pinto (2000) é visto como “lugar retórico dos labirintos interiores” (PINTO, 2000).
A novela é dividida em duas partes, a primeira intitulada O subsolo e a segunda, A propósito da neve molhada. Na primeira, o narrador discursa a respeito do seu estado atual no subsolo, do seu comportamento grosseiro e hostil, suas opiniões ignominiosas, dos seus anos na repartição pública, de assuntos irrelevantes e questões irresolúveis, numa sutil crítica ao sistema da civilização. Na segunda, ele relembra momentos com os colegas da escola, rememora momentos com uma prostituta chamada Liza, com a qual se comporta de maneira sórdida, sempre com a mesma sutileza crítica.
Freud, Nietzsche e Bakhtin são alguns dos grandes estudiosos do autor russo. Neste estudo, teremos como base o ensaio O mal-estar na civilização, do analista Sigmund Freud, que demonstrou seu interesse pelo autor já em seu outro ensaio Dostoiévski e o Parricídio. O objetivo é revelar o mal-estar na civilização no narrador do subsolo por meio da evocação e alusão, a começar pelo trecho em que ele declara: “O que suaviza, pois, em nós a civilização?
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