Se o gótico elevava os homens a Deus, o romano e o bizantino traziam Deus à Terra (“God lives with us”).
Este “monumento de verdade e sinceridade artística” em estilo romanesco “liberalmente interpretado”, deveria abrigar milhares de fiéis.
Os norte-americanos preocuparam-se em fazer da Igreja um espelho da sua cultura e, parece, que obtiveram êxito ao construir um dos dez maiores templos do mundo.
Quanto ao Santuário de Aparecida, desconhecem-se os propósitos que levaram o respeitado arquiteto Benedito Calixto a apresentar um projeto desprovido de originalidade arquitetônica e os motivos que conduziram a Santa Sé a aprovar o projeto.
Pode ter sido o excesso de prudência – não querendo colocar em risco a segurança de milhares que de romeiros que se aglomeram no interior da Basílica, adotou uma fórmula já testada e aprovada –; a admiração incontida e arrebatadora pelo estilo; uma certa displicência profissional optando pelo esforço mínimo; ou um misto destes e/ou outros elementos.
Além da forma, do estilo e das dimensões, muitas são as semelhanças que não são meras coincidências. Por exemplo, a torre, de altura quase idêntica, Benedito Calixto deslocou de nordeste para noroeste, e há, no santuário americano, um grande salão no subsolo para atender os visitantes.
Sabe-se ainda que, no final da década de 1940, Benedito Calixto também apresentou projeto para a construção de uma igreja, na paulista cidade de Itapetininga, em moldes semelhantes ao que seria a Basílica de Aparecida. As datas coincidem com o período pós-viagem apontado pelo historiador Júlio Brustoloni.
Uma conclusão é irrefutável: diferentemente da americana, a Basílica de Aparecida, considerada tão somente a sua arquitetura, não é a expressão da identidade religiosa do catolicismo brasileiro.
O projeto do renomado arquiteto brasileiro parece ter ficado aquém das expectativas dos eclesiais que o incumbiram de buscar no exterior a inspiração para uma obra original.
O Santuário Nacional de Aparecida é “cópia adaptada” do Santuário Nacional da Imaculada Conceição situado em Washington D.C. (District of Columbia), nos Estados Unidos.
Foi esta a expressão utilizada pelo padre redentorista Júlio João Brustoloni, um religioso interessado na História da Igreja em Aparecida, para se referir ao projeto arquitetônico da Basílica Nova em seu artigo “25 anos de construção da Basílica Nova”, publicado na revista “Ecos Marianos 1982” (p. 18-25).
O primeiro parágrafo do texto mencionado diz, na íntegra, o seguinte:
“Em setembro de 1947, o Dr. Benedito Calixto de Jesus Neto viajou para os Estados Unidos, Canadá, México e Peru, a fim de estudar obras de arquitetura religiosa moderna e coletar dados para a planta da futura basílica. A 1º de fevereiro de 1949, apresentou ao Sr. Cardeal Motta o ante-projeto da obra. Apesar do tempo gasto e das viagens, não foi original, pois o projeto é cópia adaptada (grifo meu) do Santuário da Imaculada Conceição de Washington. Em julho do mesmo ano, o Dr. Calixto viajou para Roma onde apresentou seu projeto às autoridades em arte sacra, que lhe sugeriram algumas modificações.”
Padre Brustoloni está coberto de razão. A Basílica de Aparecida reproduz, de maneira simplificada e ampliada, o Santuário Mariano de Washington dedicado à Imaculada Conceição que é considerada, pelo americanos e pela Igreja Católica, a padroeira dos Estados Unidos.
O projeto original de construção do santuário americano data de 1914-1915 e foi inspirado no gótico francês do século XIV.
Transformado em maquete, o projeto percorreu os Estados Unidos de New York City a San Francisco. O objetivo do tour era o de permitir a arrecadação de fundos para o início da construção da igreja que seria a expressão da devoção do povo americano à virgem imaculada.
Este sentimento patriótico, tipicamente estadunidense, levou os americanos a desejarem uma igreja que, pelo estilo, distinguisse e dignificasse a fé do povo católico daquele país.
Por isso, em 1918, o Comitê de Construção e o Conselho Curador da Catholic University American (CUA) exigiram a substituição do projeto original de inspiração gótica por um projeto de estilo romanesco-bizantino.
Charles D. Maginnis (1867-1955), o arquiteto da igreja, teve por objetivo chegar a uma construção original que simbolizasse “a fé e amor por Maria de uma íntegra e grande nação”. Buscava uma igreja genuinamente americana.
Quatro foram as razões apresentadas para justificar a substituição do estilo arquitetônico:
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