O vale como um todo guarda particularidades patrimoniais e caminhos bastante interessantes de serem percorridos. Aqui guardamos a histórias dos barões do café, da revolução constitucionalista e de diversos autores da literatura brasileira. As caminhadas que fazemos por aqui nos inspiram a escrevermos crônicas que revelam as nossas percepções e as nossas sensibilidades humanas.
Aconselho todos os caminhantes urbanos a terem sempre em mãos um diário de bordo para registrar todos as ideias, sentimentos, desconfortos, composições, imagens, dentre outras sugestões criativas que possam surgir no percurso da sua caminhada. Lembrando que você pode criar sozinho o seu caminho e praticá-lo sem a necessidade de um grupo específico. Se houver algum grupo, a caminhada tende a se tornar mais prazerosa e repleta de partilhas de vida.
Para exemplificar o uso do diário de bordo, nada melhor que mostrar um trecho deste publicado no caminhourbano.blogspot.com:
“Após uma semana de caminhada pelas terras das três garças, continuo seguindo o curso do rio paraíba do sul. Vim de Campos dos Goytacazes que é planície e me encanto como Vale. Cada beleza tem a sua cor, o seu cheiro, o seu som...Parei para almoçar no Mercado Municipal que corresponde uma das sete maravilhas de Guaratinguetá, pelo menos para mim. Feito a sesta, sai a caminhar para conhecer Pedregulho, um bairro que fica do outro lado de Guaratinguetá, semelhante a Campos, onde o seu outro lado se chama Guarus, antiga Santo Antônio dos Guarulhos. Semelhanças a parte, curtir muito a ponte que caiu que só fui me dá conta de que era uma ponte, depois que vi fotos históricas no Museu Frei Galvão, localizado na Praça Conselheiro Rodrigues Alves. Lá no outro lado de Guaratinguetá, tirei muitas fotos e caminhei até uma escultura estranha de um pássaro ou seria um ser mitológico. Andei muito pela avenida João Pessoa, outra semelhança com a minha cidade natal.
Neste caminhar não pude deixar de registrar o que eu chamei de “lixo carnavalesco”, enormes esculturas de isopor, fantasias e carros alegóricos bem enfeitados que revelavam a beleza e a exuberância do carnaval de Guaratinguetá. Um verdadeiro museu de cultura popular à céu aberto, exposto de forma tímida e desnuda. Mediante este movimento pude perceber o quanto podemos aprender simplesmente caminhando pela nossa cidade conhecida ou desconhecida.”
Em Guaratinguetá, despretensiosamente proponho, por enquanto, duas rotas de caminhada urbana ou dois caminhos que podemos fazer. São elas:
O primeiro é o caminho que faço todos os dias para trabalhar, revela paisagens urbanas bem interessantes como o prédio da prefeitura e da secretária de planejamento e as belíssimas casas que conservam uma arquitetura neoclássica.
O outro é o caminho que faço do meu local de trabalho até o shopping. Além da sua praça de alimentação bastante variada, possibilita uma interação social privada, que difere da rua que é pública, mas tem o seu valor. Afinal podemos nos encantar também com os recursos e serviços do mundo pós-moderno. No seu percurso podemos observar diversos prédios do patrimônio histórico de Guaratinguetá.
Neste interim, chegamos a conclusão que praticando a caminhada urbana entramos em contato também com a nossa cidadania, vemos além das belezas, muitas vezes imperceptíveis para o poder público e sociedade civil, as feiuras, bastante perceptíveis para nós, como jovens se drogando, adultos urinando, casais se relacionando sexualmente, famílias catando lixo para se alimentar dentre outras atividades insanas que interferem na nossa liberdade. Os bustos e as estátuas das praças assistem atônitas as faltas de bom senso.
Caminhando aprendemos coisas que jamais poderíamos aprender dentro de casa, trancado no quarto. Então o que você está esperando. Levante-se da sua poltrona da sala, desligue a sua televisão e saia por aí a conhecer melhor a sua cidade e a sua identidade sócio-histórica-cultural. Então não perca tempo, seja também um praticante do urban hiking.
Rudolf Rotchild Costa Cavalcante é sociólogo, designer gráfico e responsável pelo blog caminhosurbanos.
Urban hiking também conhecido como caminhada urbana é mais comum do que a gente imagina. Em tempos remotos, os nossos antepassados costumavam chamar esta caminhada urbana de “dar uma passeada”, “olhar as vitrines”, “vê as modas na rua”. Recordo-me que a minha vó costumava me chamar para andar pelo centro da cidade de Campos dos Goytacazes para olhar o movimento. Eu adorava. Várias vezes, imerso em chateações mentais, eu gostava de andar pela cidade, para “espairecer as ideias”. Sem saber que eu estava praticando a caminhada urbana.
Nos Estados Unidos a caminhada urbana é levada a sério. No site www.chicagocarless.com, Michael Doyle, por exemplo, expressa que além de caminhar para limpar a sua mente, explora o cheiro e o som da cidade e busca através daí o seu equilíbrio emocional. No Brasil, ultimamente, costumamos fazer as nossas caminhadas urbanas dentro de específicos eventos esportivos, porém raramente usamos como uma prática diária.
Com o advento da indústria automobilística fomos tornando-nos preguiçosos, sedentários. Até pra ir a uma padaria na esquina, ligamos o carro, gastamos gasolina, poluímos o meio-ambiente. E é justamente nesses tempos de engarrafamentos, poluição e trânsito desorganizado que a caminhada urbana ganha importância de ser mais uma alternativa de sustentabilidade ambiental. Como fazia Diderot, deveremos repensar as nossas atitudes de cidadãos e começar a colocar no nosso cotidiano a prática da caminhada urbana.
A prática da caminhada que hoje é indicada por médicos de todas as especializações, antes do século XVIII, era uma diversão para poucos, mas que acabou mudando os hábitos da moda parisiense: os vestidos começaram a ficar mais leves e os sapatos com saltos mais baixos. Passear ou flanar se tornou um prazer onde a vida urbana foi se tornando uma necessidade na vida das pessoas. Os homens daquela época precisavam serem vistos. Há neste movimento o rompimento com a casa (privado) e a conquista da rua (público). Segundo, o cronista João do Rio, “a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma”.
Na verdade toda vez que a gente resolve conhecer a cidade, tristes ou alegres, com os nossos próprios passos, sem carro e com muita disposição, podemos chamar de caminhada urbana. Somos, dentro de um contexto urbano, seres que caminham. Somos potencialmente caminhantes urbanos.
E sabe quando você passa realmente a conhecer a sua cidade? Quando você caminha sobre ela. Nas ruas estão impressas a sua história, o seu imaginário, a sua alma. Caminhando pela cidade você se dá conta da sua urbanidade. Caminhando pela cidade conhecemos pessoas sozinhas ou acompanhadas, uma variedade de pessoas. Existem algumas que nos atraem, outras que nos repelem. Eis a diversidade tão presente no espaço urbano contemporâneo, desafio para todos nós (cidade). Caminhando pela cidade eu conheço as belezas patrimoniais (históricas e culturais) e a arquitetura que remonta o passado e confirma a presença de outros que por ali passaram e deixaram no chão os seus passos, testemunhas de sua história.
Neste processo costumam surgir relatos investigadores do passado, do presente e do futuro, etnografia de rua, diários de bordo.
A caminhada urbana é também uma aventura, um turismo urbano descompromissado.
Podemos aí partilhar informações com os caminhantes-guias - um mero título logístico, pois na verdade na caminhada urbana, todos podem ser guias de si mesmo e dos outros. Caminhos ou rotas podem ser feitos para dar um pouco de organização ao grupo que propõe a caminhada urbana, mas que também pode fazer os seus caminhos de forma intuitiva, aleatória, tendo o tempo combinado como a única referência. Chamamos isso de “caminho- tempo” que podem durar trinta minutos para menos ou para mais.
Segundo o sociólogo, Zygmunt Bauman, a pós-modernidade, no qual estamos inseridos, costumam nos causar desenraizamento, perda da tradição dentro do contexto da metropolização – estar em um local que não te pertence. Contudo, o fenômeno “metrópole” que são várias cidades e pertencimentos dentro de uma região, pode proporciona mudança, conhecimento e renovação urbana. É possível realizarmos caminhadas urbanas em outras cidades além daquelas que nascemos sem precisar nos preocupar com a perda das nossas raízes. Sejam metropolitanas ou não, temos sempre a oportunidade de maturar a nossa identidade sócio-histórica e cultural caminhando sobre esta nova cidade. Contrariando a perspectiva de Bauman, o poeta Charles Baudelaire nos diz que “é um imenso prazer fixar residência na multiplicidade, em tudo o que se agita e que se move, evanescente e infinito: você não está em casa, mas se sente em casa em toda parte; você vê todo mundo, está no centro de tudo, mas permanece escondido de todos.”
Nas cidades que integram o vale do paraíba do sul (baixo, médio e alto), temos diversas opções de caminhada urbana como as ruas centrais e ladeiras de Guaratinguetá, onde caminhando por elas me veio a idéia de criar um blog que falasse do assunto.