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Nº 39 | Maio/ junho de 2011
Grafias

Apenas um graveto | Jorge de Souza

Aos poucos, como as água do rio, a sua tristeza foi escorrendo do seu interior. Respirou fundo e pensou: a vida pode tornar-se um graveto retorcido e seco se não soubermos desenhar os nossos sonhos.

Ela levantou-se. Subiu as escadas esculpidas no barranco de solo arenoso.Havia brilho nos seus olhos.  Passou por debaixo de um pé de amoras e viu a porta da cozinha ainda entreaberta. Entrou na casa silenciosa.

Não tinha muitas roupas. Rapidamente as colocou na mala. Em seguida caminhou até a cozinha, onde, rapidamente rabiscou um bilhete:

“Estou indo, não me procure mais. Vou fazer desta vida, a qual você quase transformou em um graveto seco e retorcido, num instrumento para, nas areias do mundo, desenhar o meu traçado...”

Então, ela depositou o pequeno bilhete sobre a mesa e, para que o vento não o levasse, colocou o graveto em cima dele.

Saiu, deixando a porta da cozinha entreaberta...

Jorge de Souza é autor do livro Crônicas do Itapema.

Ela deixou a porta da cozinha entreaberta e caminhou pela pequena trilha em direção ao rio. A tarde corria solta e o sol amarelo tinha uma cor de tristeza para os olhos do coração daquela moça de pele morena, cabelos pretos e longos, e de olhar esverdeado e gateado. Uma fraca rajada de vento fez o bambuzal cantar uma canção preguiçosa.
O vento trouxe um cheiro gostoso de capim-gordura. Ela, entorpecida pelo odor, deixou-se ser tocada pelo vento que, audacioso, levantou a sua saia deixando aparecer as coxas grossas, maciças e morenas. Ela sabia que estava só naquela tarde, por isto não se importara com a ousadia das mãos do vento a correr-lhe as partes íntimas.

Havia canto de pássaros, havia murmurinho das águas, mas dentro dela não, dentro dela corria apenas um rio com sabor de sertão nordestino.

Ela desceu os degraus esculpidos no barranco e foi sentar-se num velho tronco de ingá parcialmente destruído pelo cupim à margem do Rio Paraíba. Cruzou as mãos à altura do queixo, apoiando, em seguida, o cotovelo em seus joelhos e ficou sismando.

O tempo foi passando e assim ela fica sentada: imóvel com as mãos apoiando o queixo e os braços apoiados nos joelhos.

Ela apanhou um graveto e, preguiçosamente, sem desejar uma mínima vontade, começou a fazer traçados na pequena prainha onde os seus pés estavam parcialmente soterrados pela areia fina. Seus rabiscos não tinham sentido, estavam desconexos. Súbito ela desenhou um coração. Ela jamais imaginaria que poderia desenhar. Pensou: Vou desenhar uma garça voando. E lá, minutos depois estava a garça voando por sobre um rio.

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