Esculpi-la com palavras
Primeiro, juntar substantivos.
Tomar posse deles todos.
Tê-los à mão.
Dar-lhe um certo volume,
Ainda disforme.
Manuseando verbos, vírgulas e pontos,
Começo a configurar seu corpo:
Um todo, ainda sem detalhes.
Você começa a aparecer:
Harmônica, expressiva,
Bela, delicada,
Nudez total, angélica,
Saindo de minhas mãos.
Entalhar o sorriso, o olhar.
E, com gestos suaves.
Esboçar o movimento.
Contemplar seu vôo.
No poema acima, o autor destaca como ele faz a construção do poema, primeiro, pega as ferramentas, as palavras, separa o que acreditou importante, os substantivos, vai dando forma, acrescentando então os verbos, vírgulas e pontos, dando forma até o poema ficar pronto, fechando-o com "o sorriso, o olhar". A partir daí, deixa o poema voar, passando a contemplar o seu voo, ou seja, verificando as reações que o poema provocou nas pessoas que ele atingiu.
A maior falta que percebi na poesia de Braga Barros é a dor. Braga Barros não é um poeta que se aprofunda na dor humana, na solidão, nos recônditos escondidos da alma. Ao contrário, de maneira mais “clássica” da visão do poeta para a sociedade, ele canta o amor, a beleza da mulher, a esperança, a beleza da poesia e da alma, a riqueza dos momentos felizes, a paz. Sua escrita é recheada desta simplicidade.
Talvez busque mesmo estas qualidades, talvez por enxergar o mundo tão cheio de dor, ele prefere mostrar a beleza em vez de mostrar a dor. A singeleza de poemas como “Mamãe”, “Café no Sítio”, “Meu Pai”. Talvez uma fuga do mundo moderno ou uma busca de coisas mais simples para a vida.
Mas a falta deste aprofundamento na dor incomoda porque parece que a poesia não decola só com o cantar da beleza, mesmo quando ele tenta entrar em questões mais sociais, não consegue um aprofundamento maior, ficou devendo isto.
Como melhores poemas do autor neste livro, fico com “Mídia”, “Meu Coração”, “Corpo Musical” e “Passado”.
As crônicas “Carta a Manoel de Barros”, “O Reino da Palavra” e “A Casa no Final da Rua” são interessantes mas destoam do restante do livro, talvez eu seja um pouco avesso à idéia de se misturar contos e crônicas com poesia no mesmo livro, poderiam ser utilizadas em outro contexto, não em um livro de poesia.
Fernando Scarpel é autor dos livros Hoje tem Espetáculo (2006) e Pelo Adão no Paraíso (2008).
Apesar da advertência na abertura do livro a que o autor chamou de Bula, em que diz que cada poema ser independente, o livro parece conter dois livros em um.
O primeiro livro seria um livro dedicado às crianças, chamando a atenção nos poemas com temas infantis de animais, circo e música. Imaginei um belo livro de poesia para crianças, cheio de figuras coloridas, em que os poemas iriam surgindo, primeiro os animais, depois a música e, depois, o circo.
Afinal, ao ler poemas como “Meus Animais”, “A Manada”, “Tatu-Bola” e “Falar com Animal” e também a recriação da fábula “A Formiga e a Cigarra”, não consigo imaginar como sendo poesia para adultos. São poemas para a leitura com crianças, coisa que fiz e as crianças que as ouviram, adoraram.
Somando-se a estes poemas com animais, temos poemas de música como “Apresentação dos Músicos”, “Sonoplastia”, “Contrabaixo”, “Jazz”, “O Baterista”, “Blow”, “Tocando de Ouvido”, vindo, na seqüência, os poemas do circo, que são: “O Circo”, “O Mágico”, “O Engolidor de Fogo”.
Senti falta de poemas que poderiam ter os seguintes títulos: “A Bailarina” e o “O Palhaço”, assim, completar-se-ia um livro inteiramente dedicado às crianças, fica aqui a sugestão para o autor: transformar parte do seu livro em um livro de poesias para crianças, acrescentando-se ao tema do circo, poemas com bailarina e palhaço.
Esta verve de poesia para crianças é muito boa, os poemas são singelos e o vocabulário utilizado é mais simples, propiciando bom entendimento, à exceção feita para o poema “Falar com Animal”, que é uma verdadeira aula das vozes dos bichos, só como exemplo, pegamos uma estrofe qualquer do poema:
“Virou mercado e todos falaram ao mesmo tempo,
Com aquele seu papo o peru gruguleja,
O pato grasna, a garça branca gazeia
E o papagaio palra feito gente falando aos ventos”
Um excelente poema didático, até para ensinar gente grande (confesso que eu não sabia que a garça branca gazeava).
Quanto à parte do livro escrita para adultos, um tema bastante usado pelo autor é a mulher. Admirada pela sua beleza, perfeita e no alto do seu pedestal, ao qual o poeta deseja conquistar e, conquistada, nutre-o dos prazeres trazidos por este amor, como em “Férias”, “Novelos”, “Madona”, “Feminina”, “Gostosa”, “Importa”, “Contagiante”, “Nossa Nudez”
No entanto, esta mistura de temas ao longo do livro, traz a dificuldade de compreender a proposta do autor com o seu trabalho. Seria apenas mostrar a diversidade e quantidade de poemas, seria discutir o fazer poético, seria falar de amor, criar um elo de comunicação com as crianças? Retornando à advertência inicial, não foi possível ler cada poema de maneira independente, vez que os temas surgem e um poema tenta explicar o anterior. Em muitos casos, ficamos em dúvida se o poeta fala de uma amada que seria uma mulher real, seria a inspiração, ou se a amada é a poesia em si, a literatura em si em vez de ser uma mulher. Temos o exemplo de:
Contagiante
Você,
Mais do que tudo
Mesmo quando passa
Sem me olhar,
Sem me sorrir,
Sem se importar,
Não passa em vão.
Atrai o meu olhar,
Força ao sorriso,
Aborda o coração.
Maior do que eu,
Seu ser contagiante,
Com gestos suaves
E longos cabelos negros
Passa aparentemente distante,
Mas invade minha alma
Deixando marcas, cicatrizes
E um perfume de flor.
Esta dúvida surge porque o poeta, diversas vezes, trata do assunto do fazer poético, da própria poesia, procurando explicar o que é poesia para ele, o que é o fazer poético.
Começa com isso no primeiro poema “Abasteço-me”, e continua em “Buscá-la”, “Tema para Cristina”, “Pedras Preciosas”, até encontrarmos o fazer poético comparado com a confecção de uma música em “Corpo Musical” ou de uma escultura em:
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