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Nº 39 | Maio/ junho de 2011
Grafias

Anjo Azul | Elizete Reis

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Entrei em desespero. Não queria que o amigo partisse assim, entregasse os pontos, logo ele, o meu herói, que com suas muletas rumava mais rápido do que qualquer atleta olímpico.

Começava a entender que o amigo estava cansado de viver...

Criei coragem. Atravessei os cômodos separados por cortinas de algodão, casa modesta, livre de qualquer cerimônia, impregnada de aromas de café, doces e amor que fugia do fogão à lenha.

Lá estava ele, estático, olhando para o horizonte. Pude segurar as suas mãos e me despedir, sem ouvir qualquer som. Apenas imagens que eternizaram em minhas lembranças.

O céu começava a pipocar de estrelas e um anjo celestial desceu em uma estrela Dalva, visão divina que até hoje não compreendi, pois foi efêmera.

Adeus! Foi o que os olhos de Chico me confidenciaram, sem mover nenhum músculo do rosto. O poder do seu olhar parado, mas com um brilho cintilante do lúmen das estrelas resplandecentes, me deu força para entregar o amigo aos braços daquela figura encantadora.

Nem percebi o tempo passar. Acordei com o galo cantando no terreiro.

O anjo azul levara meu amigo Chiquinho...

Cócórócócó... Sustenidos de dor e tristeza.

Conto classificado em terceiro lugar no concurso “Aconteceu em Aparecida” - edição 2010.

Cócórócócó!

Amanheceu.  O galo cantou no terreiro... Parecia que estava contente.  Seu canto ecoava por toda a rua.

CóCóRóCóCó!

Os vizinhos, há tempo reclamavam, cobravam providências, mas que mal há no canto do valente penoso, que levanta de madrugada e é feliz porque é o espectador do espetáculo único do raiar de cada dia.

Os dias passaram. Nada era feito. Todos se acostumaram. E não deve ser assim? A inocência da natureza nunca deve se extinguir.

Um dia conheci um jovem paraplégico muito ativo. Seu nome era superação. Desenvolvia muitas atividades. Coisas que até Deus duvidava.

 Em Aparecida era conhecido por todos. Sempre presente em todos os eventos culturais, esportivos. “Roda de mais de três, tô dentro”. Esse era o seu lema. Era um tempo que vai longe. Não se falava ainda em acessibilidade.
 Meu amigo foi guerreiro, um Dom Quixote que em vez de correr atrás dos moinhos, lutava por qualidade de vida àqueles que careciam de atenção da mesma forma que ele. Rampas de acesso, calçadas livres de buracos e obstáculos. Foi o pioneiro em atentar às dificuldades enfrentadas pelos portadores de necessidades especiais.

Tornamo-nos amigos fiéis. Ele contava de suas aventuras. Da paixão avassaladora que lhe chegou de repente. Meu amigo me dizia coisas lindas sobre uma bela jovem, e sempre prometia apresentar-me a ela. Mas o tempo passava e nada desse encontro acontecer.

Certo dia contou-me que passaram a noite juntos. Não entendi nada porque meu amigo não andava bem de saúde. Ninguém o via acompanhado. Talvez fosse uma romeira ou uma ouvinte sonhadora.

Os amigos me perguntavam sobre o seu paradeiro preocupados, pois notavam o Chiquinho desanimado, sumido.  Eu sempre dizia: – Não há de ser nada, ele está trabalhando demais.

Eu sempre dava uma desculpa.

Sintonizei na Rádio Aparecida no horário do seu programa, mas não o ouvi falar. Estavam tocando músicas sem intervalos. Liguei para lá. Chico não fora trabalhar...

Resolvi procurá-lo em casa de amigos. Fui primeiro na casa do amigo que ficava na Travessa Floriano Peixoto, paralela ao Cemitério Velho, no Bairro Santa Rita, o portão sempre aberto e as portas da casa escancaradas a qualquer hora do dia. Casa de gente amiga é sempre assim.

Encontrei Dona “Gusta” com um olhar cansado, marejado de tantas lágrimas. Estava só.

“Entra lá pro terreiro. Chico está esperando a noite chegar. Tenho medo de ir até lá e o anjo azul já ter levado o meu Chiquinho embora, morar lá nas brumas de algodão.”

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