V
Penumbra. O luar delineando os objetos. A caminho do quadro, ele percebe algo no sofá. Forçando a vista, reconhece o boné esquecido pelo tio. Pensa no pobre coitado. Sempre de bicicleta, dando duro na vida, ganhando seu dinheiro à custa de muito trabalho. O que haveria de pensar dele se o visse agora? Que golpe seria. Que decepção. Quanta vergonha e desgosto. Ele mesmo já se sentia envergonhado de estar ali. Ainda estava em tempo de se arrepender. Ainda podia voltar atrás.
VI
Antes de partir, aproximou-se do sofá e, com o rosto molhado de arrependimento, apanhou o boné para devolvê-lo ao tio. Nisso, sentiu uma presença atrás de si.
Virou-se e deu com o dono da casa. Apontava uma arma. Trêmula arma. Trêmula e precipitada.
VII
No corpo baleado, o velho demorou a reconhecer o jovem pintor.
“Um ladrão”, constatou depois, já sem nenhum arrependimento.
Wilson Gorj é autor dos livros Sem Contos Longos e Prometo ser breve.
I
A muito custo, economizava dinheiro para comprar a sonhada motocicleta. Para tanto, contava com o apoio do tio, a quem ajudava nos bicos de pintura.
Toda semana pintava alguma coisa. Para aquela estava agendado serviço na residência de um casal de idosos.
E lá foram tio e sobrinho para mais uma empreitada.
Logo no primeiro dia, pintando as paredes da sala, o jovem ajudante descobriu algo atrás de um dos quadros. Um cofre. De imediato, ocorreu-lhe um pensamento: rápida suposição que cruzou sua mente deixando um rastro de fumaça escura. No mesmo instante, reprovando-se, o rapaz abanou a cabeça, como se quisesse dissipar o fumo negro das más intenções.
Consciência limpa, voltou a ocupar-se do seu trabalho, entretendo a mente com outras coisas.
II
Segundo dia. O tio pincelava a fachada. Pintando o quarto do casal, o sobrinho encontrou a carteira do velho sobre a cômoda. Outra vez o tal pensamento deu uma acelerada em sua mente. Abriu a carteira. Dentro, apenas alguns trocados. Fuçou. De uma reentrância retirou um papelucho com uns números em série. O pensamento negro roncou o motor. Anotou-os.
III
Terminaram o serviço. Recebida do tio a parte combinada, juntou-a ao montante guardado. Ainda faltava muito para comprar a moto dos seus sonhos. O tal pensamento voltou a acelerar.
IV
Na mesma noite, o sobrinho do pintor pulou o muro da casa dos velhinhos e entrou na sala pela janela previamente destravada.
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