O conteúdo desta página requer uma versão mais recente do Adobe Flash Player.

Obter Adobe Flash player

 
 
Nº 39 | Maio/ junho de 2011
Grafias

Um Ladrão | Wilson Gorj

V

Penumbra. O luar delineando os objetos. A caminho do quadro, ele percebe algo no sofá. Forçando a vista, reconhece o boné esquecido pelo tio. Pensa no pobre coitado. Sempre de bicicleta, dando duro na vida, ganhando seu dinheiro à custa de muito trabalho. O que haveria de pensar dele se o visse agora?  Que golpe seria. Que decepção. Quanta vergonha e desgosto. Ele mesmo já se sentia envergonhado de estar ali.  Ainda estava em tempo de se arrepender. Ainda podia voltar atrás.

VI

Antes de partir, aproximou-se do sofá e, com o rosto molhado de arrependimento, apanhou o boné para devolvê-lo ao tio. Nisso, sentiu uma presença atrás de si.

Virou-se e deu com o dono da casa. Apontava uma arma. Trêmula arma. Trêmula e precipitada.

VII

No corpo baleado, o velho demorou a reconhecer o jovem pintor. 

“Um ladrão”, constatou depois, já sem nenhum arrependimento.

Wilson Gorj é autor dos livros Sem Contos Longos e Prometo ser breve.

I

A muito custo, economizava dinheiro para comprar a sonhada motocicleta. Para tanto, contava com o apoio do tio, a quem ajudava nos bicos de pintura.

Toda semana pintava alguma coisa. Para aquela estava agendado serviço na residência de um casal de idosos.

E lá foram tio e sobrinho para mais uma empreitada.

Logo no primeiro dia, pintando as paredes da sala, o jovem ajudante descobriu algo atrás de um dos quadros. Um cofre. De imediato, ocorreu-lhe um pensamento: rápida suposição que cruzou sua mente deixando um rastro de fumaça escura. No mesmo instante, reprovando-se, o rapaz abanou a cabeça, como se quisesse dissipar o fumo negro das más intenções.

Consciência limpa, voltou a ocupar-se do seu trabalho, entretendo a mente com outras coisas.

II

Segundo dia. O tio pincelava a fachada. Pintando o quarto do casal, o sobrinho encontrou a carteira do velho sobre a cômoda.  Outra vez o tal pensamento deu uma acelerada em sua mente. Abriu a carteira. Dentro, apenas alguns trocados. Fuçou. De uma reentrância retirou um papelucho com uns números em série. O pensamento negro roncou o motor. Anotou-os.

III

Terminaram o serviço. Recebida do tio a parte combinada, juntou-a ao montante guardado. Ainda faltava muito para comprar a moto dos seus sonhos. O tal pensamento voltou a acelerar.

IV

Na mesma noite, o sobrinho do pintor pulou o muro da casa dos velhinhos e entrou na sala pela janela previamente destravada.

Leia mais textos da Seção Grafias desta edição

« Voltar

 
 

Supermercado Santa Cabeça

Rua Benedito Macedo, 301

Ponte Alta

Aparecida, SP

Tel.: (12) 3105-2058

 
 
  © 2007 - 2012 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo | Aparecida, SP | CEP 12570-000