Suas irmãs, Leocádia Carolina Salles Barreto e Francisca Luiza de Salles Barreto casaram-se com fazendeiros de café; também seus outros irmãos se tornaram fazendeiros de café: Augusto César Pereira Barreto, em Resende e Ribeirão Preto; Rodrigo Pereira Barreto, em Resende, Cravinhos e Ribeirão Preto e o Major Antônio Pereira Barreto Pedroso Sobrinho , em Ribeirão Preto.
O próprio Luis Pereira Barreto foi proprietário de uma fazenda de café em Ribeirão Preto – a “Fazendinha”-, mas terminou por vendê-la a seu irmão Augusto César, em 1879, provavelmente por problemas financeiros. Seu terceiro filho, José Pereira Barreto Neto, tornou-se fazendeiro em Matão. Cf. BOPP, 1983.
Esta crítica ao Segundo Reinado albergava também, além de militares e cafeicultores, uma camada média urbana letrada que ia, aos poucos, tomando a burocracia estatal, clamando por critérios de mérito que desenhassem novos espaços políticos de atuação, um discurso de feições modernas incompatíveis com as instituições monárquicas.
Dotados de formação técnico-científica – eram militares, engenheiros, médicos –, eram em tudo antípodas dos literatos e dos bacharéis. A reação desta contra-elite imperial (CARVALHO, 1991) far-se-á, então, em nome da política representativa e tendo o discurso científico por molde de sua crítica às instituições imperiais e aos seus pilares de legitimação – o liberalismo dos bacharéis e o indianismo romântico. O projeto civilizatório que Barreto construiu para o Brasil não era alheio a esta situação; ao contrário, sua inserção social vai perfeitamente com seu discurso; médico que era, integrava também a contra-elite que, externa ao grupo de mando do Segundo Reinado, tornou-se crítica dele.
Esta contra-elite, de modo geral, atingia a compreensão de que um fosso separava o Brasil da civilização; esta "consciência amena do atraso" (CÂNDIDO, 1989) levará a intelectualidade brasileira a reconsiderar as possibilidades de progresso futuro, a partir de uma releitura de si própria. Se o liberalismo dos bacharéis combinava com o discurso romântico, em grande medida conciliador das diferenças, o cientificismo emergente vai encontrar a forma de seu discurso na própria ciência. As questões antes tomadas como eminentemente políticas serão deslocadas; trata-se agora de pensá-las no terreno social em que se encontram e de equacioná-las a partir da sociologia nascente. A ciência emerge, portanto, como a grande fornecedora de respostas.
Angela Alonso é Professora do De-partamento de Sociologia da USP, pesquisadora do Cebrap e bolsista de produtividade do CNPq. Fez mestrado e doutorado na USP e Pós-Doutorado na Yale University. Entre 2000 e 2010 foi pesquisadora da Universidade de Sussex e entre 2009 e 2010 foi Fellow da Fundação Guggenheim. É autora de vários livros, sendo um deles indicado para o Prêmio Jabuti e Telecom Brasil-Portugal de Literatura.
"A sua geração foi toda de literatura e de imaginação; a nossa é toda de ciência e de razão. Outros tempos, outros temperamentos.” Barreto, 26/07/1878 apud Barros, 1967
Quando no Brasil ainda bem pouco se falava de positivismo e a quase totalidade dos que iam à Europa alocavam-se nos cursos de direito de Paris ou de Coimbra, já que a carreira mais vistosa e também mais promissora no Segundo Reinado era certamente a de bacharel, Luís Pereira Barreto formou-se médico pela universidade de Bruxelas. Filho de um grande proprietário de lavoura cafeeira, Barreto certamente não necessitava do bacharelado como trampolim social; era membro de um grupo econômico emergente, tendo, por isso, recursos para custear seus estudos no que melhor lhe aprouvesse. Foi em Bruxelas, ainda estudante, que tomou contato com os escritos de Comte, convertendo-se imediatamente à religião da humanidade. Foi, pois, como positivista religioso, afinado com a direção de Laffitte, que Barreto retornou ao Brasil em meados de 1864, onde passou a divulgar a boa-nova positivista, sem jamais abandonar sua bem sucedida carreira médica.
O país que Barreto encontrou fervilhava. Se a guerra do Paraguai fornecia ao Brasil subsídios para que se pensasse como uma nação coesa face ao inimigo externo, produzia também modificações internas. Os militares voltavam com ares de guardiões da pátria e buscavam encontrar seu lugar no processo de civilização do país. Desde 1850, a cúpula militar vinha sofrendo a invasão, lenta mas eficaz, do positivismo, uma filosofia republicana e anti-escravagista. Estava também em curso um processo de formação de uma classe militar separada dos civis, com visão de mundo própria e fortemente contrária ao predomínio dos “legistas”. Esta antipatia com a condução da política pelos bacharéis irá unir a nova elite intelectual emergente, formada por positivistas, “científicos” e militares.
Não somente a guerra, mas também o fim do tráfico negreiro traziam à tona o problema da abolição e a necessidade de alternativas de mão-de-obra, principalmente para a província de São Paulo, que prosperava com seus cada vez mais amplos cafezais. O declínio da cafeicultura no Vale do Paraíba é concomitante com a ascensão do Oeste Paulista. Os decadentes formavam uma aristocracia contente com o sistema do Império e fiel a D. Pedro; os ascendentes terão visão diametralmente oposta. O desenvolvimento e a prosperidade do café em São Paulo se fizeram por iniciativas particulares, no mais das vezes à revelia do poder central e com mão de obra crescentemente imigrante. Estavam se tornando economicamente muito importantes para serem relegados ao segundo ou terceiro plano do cenário político. Pereira Barreto era filho e irmão de fazendeiros, fazendeiro ele próprio, membro de uma família que constituiu uma verdadeira linhagem de cafeicultores no oeste paulista; balizado por essa posição, ambicionava o lugar de porta-voz desta elite econômica ascendente nos fins do Império, para a qual era bastante atraente o regime federativo proposto pelo republicanismo e que poderia encontrar no positivismo, que Barreto trazia na mala, uma filosofia da história capaz de proporcionar uma fundamentação para a crítica do Império.
O irmão mais velho de Barreto, o Coronel Comendador José Pereira Barreto, organiza e comanda uma Caravana a São Paulo em 1876 – que ficou conhecida como Bandeira Barreto –, com a finalidade de explorar as terras roxas do Oeste Paulista. Da caravana participam também outros irmãos: Miguel Pedroso Barreto, que se torna fazendeiro de café em Cravinhos e Franca; Cândido Pereira Barreto, que vai inicialmente para São Simão e também compra terra roxa em Cravinhos; Francisco Pereira Barreto, que se torna produtor de café e cana em Cravinhos.
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