Não se trata de mera contraposição entre ética universal e éticas particulares. Simplesmente, é dizer que não há ética universal que não se faça em cada caso particular.
Recusar a ética do clã é impedir a degeneração da política em alheamento bestializador de indivíduos e enfrentamento partidário, não menos estúpido, de grupos ocupados de si mesmos.
Sócrates, na apologia que lhe dedicou Platão, é um exemplar homem da Pólis mesmo diante de um tribunal predisposto a condená-lo. O trecho final de seu discurso é comovente e elucidativo tanto pela severidade do pai que deseja que os filhos cultivem a retidão de caráter, dando importância ao que tem valor, como pela sua fidelidade aos propósitos da vida cidadã que em nenhuma hipótese poderia ser maculada pela mesquinhez pessoal. Disse Sócrates:
“... só tenho um pedido que lhes faça: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que não tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós o fizerdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também.
Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue o melhor rumo, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade.” (Defesa de Sócrates, Platão)
Hoje, especial momento de exacerbação de espíritos egocentrados, furtivamente encontramos lucidez em um mundo educado para o desvario.
Sócrates nos coloca a necessidade de retomarmos a posse de nossa própria consciência para enfrentarmos o desafio infindável de viver a democracia.
Se teremos a melhor sorte, isso dependerá de nossas escolhas.
Dos problemas que, há muito, afligem a humanidade, a ética ganha centralidade pelo simples fato de não haver ação humana que ocorra fora de seu âmbito.
Todo agir é ético. Se isso é uma evidência, onde estariam o anti-ético e o a-ético presentes em certos discursos apologéticos pela moralidade? No âmbito da negação e da indiferença diante de um sistema de valores, o que indica que a recusa de determinadas referências de ação nos antepõe ao instituído, mas jamais nos conduz para além dos liames da ética. Assim, mais que contra-senso, é demagógico clamar por uma ética universal de valores eternos. Quando muito, esse clamor é uma tentativa de um modelo hegemônico de buscar a homogeneização de uma multiplicidade que insiste em sua auto-reprodução, re-criando a diversidade no interior dos sistemas à medida que os mesmos, pretensiosamente, se pasteurizam.
Neste sentido, a globalização tecnológica e econômica – ainda em seus primórdios – pela qual passamos, exige um modelo ético-político que se harmonize com valores intrinsecamente in-compatíveis com estruturas de sociedade, de cultura, de economia, de política e de direito que não sejam as que lhes favoreçam.
Daí o fortalecimento de toda e qualquer ética orientada para a acumulação de capital. A diversidade, estrategicamente, é permitida, estimulada - e explorada - sempre que não represente ameaça ao escopo principal de lucro e de poder, este sustentação daquele.
É aqui que ganha sentido dizer de uma ética do clã compreendida como padrões de conduta e de convivência guiados por interesses individuais, dos quais a família, outros grupos e as corporações aparecem como versões ampliadas.
Quantas atrocidades cometidas em nome da família, da igreja, da empresa, das irmandades e de outras instituições! Nelas está o nascedouro da violência, da covardia, da corrupção, da alienação, do atavismo e, o que não poderia ser pior, do enclausuramento do indivíduo em um universo psíquico onde a recusa aos interesses coletivos é o zênite.
Quantas barbáries cometidas para defender a si mesmo e aos seus! Quantas vezes o público ferido pelo privado!
Eis o cerne de nossas maiores agruras ético-políticas: a recusa de compartilhar valores que se afastem da ética de grupos (extensão de interesses individualistas) para se aproximar de éticas de caráter mais universal.
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