Dentro deste aspecto abordado por Pinkola Estés, a Mulher Selvagem tem a voz mítica do passado, conhece as estórias ancestrais e mantém o registro delas para a geração atual, dessa forma mantêm o diálogo entre várias gerações. Nesse caso ela torna-se agente de coleta. Na verdade recolher estórias é uma sucessiva atividade paleontológica. Dentro desta perspectiva colocamos Eugênia Sereno como legítima escavadora e mantenedora do folclore de importantes regiões brasileiras: o Vale do Paraíba e o Vale do Sapucaí. Ao contemplar o leitor de O Pássaro da Escuridão com o folclore dessas regiões, Eugênia inovou marcando seu pronunciado. Toda contadora de estórias, ou como é denominada pelos psicanalistas atuais: cantadora, é guardiã de velhas estórias que lhe são transmitidas através dos tempos por parentes ou amigos que já se foram, mas antes, lhe passaram essa magia. Eugênia teve três fases onde fez a coleta: a primeira na infância, em sua casa no largo da Matriz de São Bento (ouvindo seus pais, tios e avós – já que não tinha irmãos e, por algum tempo, era a única criança na família), a segunda quando professora de escola rural no bairro da Capela do Bahú (ouvindo seus alunos, pais de alunos e moradores da redondeza), a terceira morando em São Paulo, no bairro Perdizes (ouvindo seus pais e os pais de seu marido). Na primeira fase ficava a par dos clássicos da literatura mundial, na segunda fase, os causos de assombramentos e da pobreza, na terceira fase, o misticismo italiano. Cada cantadora tem seu jeito próprio, sua forma peculiar de contar estórias. Eugênia deixou nos personagens das estórias contidas em O Pássaro da Escuridão a reiteração de sua marca – o vagalume.
Rita Elisa Sêda é santarritense de nascimento, joseense de coração e vilaboense de alma . É cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.
Dentro da análise psicanalítica da PhD Clarissa Pinkola Estés as estórias são bálsamos medicinais, elas não exigem muita coisa, somente a atenção ao ouvi-la, com calma e interesse, dessa forma “suscitam o interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem aflorar o arquétipo, nesse caso o da Mulher Selvagem”.
A Mulher Selvagem coleta estórias oriundas do seu meio, do seu entorno, da área em que nasceu e foi criada. Geralmente ela herda essas características e, como uma loba, sabe defender sua matilha, vive em comunidade, especialmente com a família. Adquire com eles a magia de contar estórias, dessa forma terá oportunidade de invocar o trabalho da alma, ampliando seus conhecimentos, desenvolvendo sua psique, aprimorando o self feminino.
Dentro desse conceito moderno a respeito das Cantadoras de Estórias, posso incorporar Eugênia Sereno, ou para os sambentistas... a Ditinha! Ela foi uma Mulher Selvagem que a vida toda esteve junto com sua matilha. Quando criança teve a família por perto, nas brincadeiras de rua, dentro de casa, nos estudos. Seu pai, o farmacêutico Luiz de Rezende; seu tio, o jornalista Plínio Esteves Salgado e, seu avô, o diretor Genésio C. Pereira, eram professores no Externato São Luiz, durante a época em que ela freqüentou a escolaridade Primária. Período em que seus parentes e, também, professores redigiam e imprimiam o jornal O Alvor e o Almanaque de São Bento, publicando informações jornalísticas e poemas, alguns deles assinados por Plínio Salgado. Nessa atmosfera literária a criança Ditinha era “meninota travessa como poucas em suas estripulias bem lembradas em São Bento do Sapucaí e Córrego do Cambuí”, segundo afirmou seu tio Plínio Salgado. Em meados da década de 1920, Ditinha, foi cursar a Escola Normal do Brás na cidade de São Paulo, seus pais foram juntos, o pai compôs farmácia no bairro para acompanhar o desenvolvimento escolar da filha que nessa época também estudou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Tornou-se excelente musicista, tocava piano, foi aluna de grandes mestres da música como: Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Mário de Andrade, Fructuoso Vianna e Schiafarelli. Após se formar como normalista (1930) ela e seus pais voltaram para São Bento do Sapucaí. Em 1937 foi lecionar na Escola Coronel Ribeiro da Luz sendo designada para a área rural Escola Mista do Bairro da Capela do Bahú, ali permanecendo por dois anos, exercendo a atividade de mestra. Em 1939 retornou a cidade de São Paulo onde no mesmo ano se formou em Higienista Sanitária. Casou-se com Mário Graciotti, em sete de setembro de 1940, e foram residir no bairro de Perdizes, na capital. Junto com eles foram morar os pais de Benedicta Rezende Graciotti e os pais de Mário Graciotti. Neste contexto de preservação familiar podemos dizer que Eugênia Sereno era uma Mulher Selvagem.
|
|