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Nº 37 | Janeiro/ fevereiro de 2010
História

Banda Mole de Guaratinguetá: a irreverência ganha as ruas | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

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Paródia... pra que te quero?

As paródias para marchinhas foram introduzidas a partir do carnaval de 1986, ano em que foi realizado um concurso para a escolha de melhor música e letra. Usando o pseudônimo Mãde La Seca, Matilde Casela foi a vencedora com uma letra cuja tônica era o chamamento para a participação na Banda Mole. Contudo, como tudo o que acontece neste bloco de sujos nada tem de oficial, a música adotada pelos “agremiados” para ser cantada na rua foi a dos autores Flávio Augusto e “Tupi”. É de ressaltar que até o carnaval anterior eram cantadas as marchinhas tradicionais.
Antes disso, em 1979, um concurso realizado no Clube Literário Centro, havia definido a marcha-hino da banda. José Luís de Castro e “Zé Buchinha”, os contemplados, usaram a letra para registrar o papel de abertura do carnaval na cidade atribuído à banda e homenagear Carlucho, um de seus fundadores e incansável entusiasta.
O tom de irreverência e crítica das paródias, visando escrachar figuras de destaque no cenário político municipal, nacional ou internacional e ridicularizar fatos a eles ligados, surgiu no carnaval de 1987. Naquela ocasião, um secretário municipal entendeu que deveria disciplinar os carnavalescos pondo-lhes regras, o que feria frontalmente os princípios da banda. A atitude grotesca do secretário teve como resposta a negligência dos foliões e uma marchinha que fez história ao se referir a um tal Azevedo que “queria organizar através de um programa oficial” quem nem tem “deretoria”.
Desde aí, de secretário municipal a presidente, ninguém ficou ausente. Sadam Hussein e a Guerra do Golfo, o presidente Fernando Collor de Mello e os descamisados, os Anões do Orçamento liderados pelo deputado sergipano João Alves, a gafe da acompanhante do presidente Itamar Franco quando assistiam ao desfile de carnaval na Marquês de Sapucaí, a escolha equivocada de duas rainhas no mesmo carnaval da cidade, o desvio de recursos vultosos para a construção do Fórum Trabalhista na cidade de São Paulo pelo então juiz-presidente do Tribunal Regional do Trabalho, Nicolau dos Santos Neto, apelidado de Lalau, a Guerra do Afeganistão, o apagão da era Fernando Henrique Cardoso que levou ao racionamento de água e energia, o programa Fome Zero, a compra do Aerolula e o mensalão durante o governo Lula também foram alvo da consideração dos compositores. Nem o Código Nacional de Trânsito ficou de fora das bem humoradas paródias da banda.
As marchinhas são invariável e propositalmente escolhidas às vésperas do carnaval, cerca de 15 a 20 dias antes, dada a conveniência de “pegar carona” num tema do momento. Isto faz parecer que, aos olhos dos “organizadores”, o efeito catártico de tal medida (fazer uma crítica pública a um reprovável fato recente) aumentaria a empolgação dos participantes.

Movidos à alegria, irreverência ... e álcool

A expectativa para sair na Banda Mole nada tem de ansiedade. Segundo Carlucho, em Guaratinguetá, no dia derradeiro, um cheiro de carne assada espalha-se pela cidade. São os preparativos. Cada pequeno grupo de participantes encontra-se em um local previamente definido – geralmente a casa de um deles – para assar o seu churrasco e calibrar sua alegria com a bebida de sua preferência – ou da preferência de seu bolso.
Os organizadores não poderiam faltar ao ritual. Também eles se reúnem para comer e beber no sábado, antes do início do desfile.

Calibrados, todos seguem para o local de (des)concentração e tanto lá quanto durante a passagem pelas ruas de estreitas calçadas da cidade, quem faz grande sucesso na manutenção dos ânimos é a irrecusável caipirinha da Dona Helena, esposa do Dr. Caetano. A saborosa bebida, depois de preparada, é colocada, com gelo, em recipientes térmicos. Ao serem chocalhadas as garrafas, as pedras de gelo se agitam produzindo um som semelhante ao guizo de uma cobra. E a “cascavé”, como ficou conhecida, é solicitação freqüente dos foliões.
 Apesar do alto grau etílico que move os participantes, segundo Carlucho nunca houve um problema sério provocado por embriaguez, a não ser, conta ele, certa vez, quando do alto do caminhão de som, os organizadores avistaram à frente algo que poderia causar sérios danos. Os carros estacionados em uma determinada rua não tinham sido retirados. “Imagine uma multidão tendo que passar por ali. Chamei um companheiro e mostrei a situação. Ele me disse: – Deixa comigo. Desceu do caminhão e provocou uma briga generalizada lá embaixo que logo foi acalmada. Com isso, encontramos um bom motivo para encerrar o desfile e evitamos um mal maior.”

Com dinheiro ou sem dinheiro... eu brinco

A participação na Banda Mole é incondicional. Não há nenhum entrave de ordem financeira. Não há nenhuma exigência material que limite a participação. Não há sequer a necessidade de estar travestido ou usando a camiseta do bloco. Com ou sem fantasia, cada um participa ao seu modo.

É verídico que o elevado crescimento do número de participantes exigiu dos organizadores alguns recursos financeiros para o custeio do caminhão de som, dos músicos e da segurança. Geralmente este auxílio vem de recursos públicos transferidos pela Prefeitura Municipal, mas este apoio sofre intermitências e nem sempre o poder público se dispõe a fazer repasses.

Anos houve em que os organizadores se obrigaram a cotizar dos próprios recursos para por o bloco na rua. Mas a resposta foi sempre imediata: paródia.

Com ou sem dinheiro, há 36 anos a Banda Mole faz a abertura do carnaval guaratinguetaense.  Segundo estimativas da Polícia Militar, cerca de 35.000 pessoas (dados de 2007) vão para as ruas para participar ou assistir ao desfile neste dia.

1 Da Matta, Roberto. Carnavais, malandros e heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 4ª edição, 1983, p. 131.

2 Ibidem, p. 132

Andrade, Silvia Helena de Castro e Gama, Viviane Cavalca Monteiro. Banda Mole: Crítica e Brincadeira no Carnaval de Guaratinguetá. Monografia para o Curso de Especialização Lato Sensu em História do Brasil Contemporâneo, Lorena, Unisal, 2007, 74p.

Da Matta, Roberto. Carnavais, malandros e heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 4ª edição, 1983.

Escute a marchinha tema de 2011

[Escute as marchinhas dos anos anteriores.]

Do primeiro ao sexto dia criou o céu e a terra, separou o dia e a noite e as águas das águas, dividiu continentes e mares, fez brotar vegetação com frutos e sementes, cintilou o céu de estrelas junto ao sol e a lua, povoou o mar, a terra e o céu de multidões de seres vivos e, à sua semelhança, fez o homem. No sábado... colocou a fantasia e saiu na Banda Mole.

E da ordem... se fez o caos

Sábado de carnaval. Missa na Matriz de Santo Antonio. Igreja repleta. Os fiéis devotos recebem as bênçãos e recomendações do padre e a porta principal se fecha. É o sinal combinado. A festa da alegria e da descontração irá começar. Diante do Literário Centro, tradicional clube da cidade, um grupo de amigos e muitos mais (des)concentram-se para uma das maiores explosões de espontaneidade e irreverência carnavalesca do Vale do Paraíba: a Banda Mole de Guaratinguetá.

Big bang às avessas, a Banda Mole representa a desestabilização da ordem, a ruptura com a hierarquia e a inaceitação do instituído. Se as regras complicam e limitam, a idéia básica que conduz a iniciativa há 36 anos é simplificar ao mínimo. Não há estatutos e regulamentos estabelecendo exigências e prescrevendo comportamentos e uma fictícia “Deretoria Cultural” se incumbe de assegurar, sem as formais reuniões e atas, as condições logísticas para que o evento, com ou sem algum apoio do Poder Público, aconteça.

No início... um bate-papo

Nascida do desejo, em meados da década de 1970, de reavivar os antigos carnavais da cidade, a idéia de criar um bloco carnavalesco para desfilar pelas ruas de Guaratinguetá nos anos que se seguissem a 1975 foi de quatro amigos e companheiros de clube: o dentista, então presidente do Clube, Carlos Alberto Jambeiro da Rocha (Carlucho), o pintor letrista Carlos Santos Pinto Graglia (Carlinhos Letrão), o contador James Roberto Gomes e o comerciante Tonico Bartelega que num bate-papo de final de tarde num domingo de carnaval resolveram que o carnaval dos anos seguintes não deveriam ser mais os mesmos.
A eles se juntou um grande número de simpatizantes considerados por Carlucho como fundadores do bloco que desfilaria pela primeira vez no sábado de carnaval de 1976. Entre outros a prestarem colaboração, estavam: a professora Ana Maria Jambeiro da Rocha, o médico pediatra Caetano Caltabiano Coutinho, o goleiro cantor Caxambu, as irmãs comerciantes Celeste e Graça Macedo, o advogado e fiscal estadual Chiquinho Paula Santos, o fazendeiro Gilberto Fortes Azevedo, o carteiro e músico João Athaíde, o comerciante João Cavalca (Joãozinho Tonelada), o policial rodoviário José Carlos Santos Pinto, o advogado Jurandir Meireles, o industrial (hoje presidente da Associação Comercial e Industrial de Aparecida) Ângelo Reginaldo Leite e sua esposa Liana Souza, o radialista Luis Carlos Miranda de Carvalho, o advogado Marcelo Ortiz (posteriormente Deputado Federal por duas legislaturas), a professora Maria Helena Batalha Quissak e o bancário “Paulinho” Santos Pinto.

Centenas de pessoas garantiram o sucesso do primeiro desfile. A pé ou em corsos*, foliões cantavam e dançavam pelas ruas do centro da cidade ao som de marchinhas entoadas por músicos da Banda Santa Luzia regidos pelo maestro João Verges.

Folia sim... mas só após a reza

O itinerário esbarrou horário, pois como, logo de saída e no auge da empolgação, a Banda haveria de passar diante da igreja matriz em pleno horário de culto, um acordo precisou ser estabelecido entre os “deretores” da banda e o pároco: a folia só começaria depois que o padre encerrasse a celebração. E assim foi feito. Monsenhor Oswaldo de Barros Bindão, após encerrar suas palavras finais, pedia para que se fechassem as portas da igreja para que a Banda Mole pudesse passar. Tal procedimento foi seguido pelos demais padres, sendo que alguns chegavam a pedir aos fiéis que fossem para a rua assistir ao desfile.
Modificado em 2003 em razão do remodelamento da praça Conselheiro Rodrigues Alves, o percurso passou a ter início a partir dela, no início da rua José Bonifácio, mantendo o restante do trajeto, mas não mais passando diante da igreja matriz.

Mulher de bigode?... só no carnaval pode

Vestidos, minissaias, lingeries, perucas, saltos altos, maquiagens, bolsas, vozes efeminadas, beijos e insinuações fartamente distribuídos ao público que assiste e muita canjebrina constituem o cenário, a coreografia, o elenco e o script deste admirável espetáculo de rua que Guaratinguetá proporciona, todos os anos, há mais de três décadas, durante o carnaval.

Este hábito momesco de inversão da indumentária e dos papéis, mais que uma despretensiosa e divertida brincadeira, simboliza a oportunidade de inverter as posições dentro de uma estrutura social marcada pela rígida definição de papéis e lugares. É o antropólogo Roberto Da Matta, em estudo comparativo do carnaval em culturas distintas como a brasileira e a estadunidense, que afirma:

“Não parece haver dúvidas que Carnaval é um rito onde o princípio social da inversão é aplicado de modo consistente. Mas inverter é apenas um mecanismo lógico, e nem sempre conduz o evento social na mesma direção”.1

No Brasil, em especial, a inversão carnavalesca

“...situa-se como um princípio que suspende temporariamente a classificação precisa das coisas, pessoas, gestos, categorias e grupos no espaço social, dando margem para que tudo e todos possam ser deslocados. É precisamente por poder colocar tudo fora de lugar que o Carnaval é frequentemente associado a ‘uma grande ilusão’, ou ‘loucura’. A transformação do Carnaval brasileiro é, pois, aquela da hierarquia quotidiana na igualdade mágica de um momento passageiro”.2

A inversão da indumentária permite abstrair, como categoria sociológica, a inversão como uma reordenação temporária da “hierarquia secular da sociedade”, relativizando os conceitos, valores e posições que regram as relações societárias durante os demais dias do ano.
Neste sentido, o adjetivo Mole acrescentado à banda, apesar de não ter sido atribuído com esta intenção, cabe com perfeição para expressar o caráter ao mesmo tempo tenro, maleável e lânguido diante dos rígidos e impermeáveis ditames estabelecidos por uma elite pactuada com a indiferença perante as injustas desigualdades sociais.
Daí, talvez, o inevitável desembocar na composição de paródias de marchinhas com um forte tom de crítica às incontinências administrativas de nossos políticos.

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