Nº 37 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Grafias

Em busca da verdade | Wilson Gorj


Curioso, quis também saber a verdade; portanto, tratei de segui-lo.

Não foi fácil.  Apesar das pernas pequenas, o anão andava rápido demais; o suficiente para me deixar ofegante.

Vendo-o dobrar uma esquina, fiz o mesmo e encontrei-o num beco, empilhando os livros no chão, sob uma janela entreaberta.  Tomei coragem e me aproximei. Minha presença não lhe causou a mínima estranheza; o que ele fez foi me olhar com indiferença e dizer, mais a si mesmo que para mim: “Agora descobrirei a verdade”. Dito isso, trepou na pilha dos calhamaços – os quais, diga-se de passagem, descobri não serem obras filosóficas ou religiosas, mas sim maçantes tratados sobre engenharia espacial. 

Botando a cabeça pelo vão da janela, o anão espiou lá dentro por um tempo e, ao me devolver a atenção, meneando a cabeça, sentenciou: “É verdade, então”.

Curiosidade é fogo. Também pus a cabeça janela adentro e espiei. Na cama, vi um casal adormecido, os corpos nus enroscados numa pose amorosa.

 “Não é mentira”, continuou o anão, fazendo cara de choro. “A ingrata está mesmo me traindo.”

Deixei-o com suas lágrimas e voltei para casa, dando razão ao famoso ditado, que sabiamente nos adverte: “A verdade dói”. 

O anão que o diga.

Duvidar de tudo é um dos meus defeitos.

Ser curioso é outro.

Disse defeito, mas a curiosidade também pode ser uma virtude. Tudo depende do caso.

Defeito ou não, a verdade é que muitas vezes me vejo em apuros por querer saber o que não é da minha conta.

O fato de meter o nariz onde não sou chamado também me rendeu algumas situações engraçadas.  Como esta que agora me proponho a contar.

Aconteceu numa tarde em que me encontrava debruçado à janela com os olhos pregados à rua. Olhava e procurava alguma coisa que me ajudasse a passar o tempo. Ali ficaria, morrendo de tédio, se não visse o tal anão a vir pela calçada, ameaçando derrubar uma pilha de livros que a muito custo carregava e que, de tão alta, quase lhe encobria o rosto.

Como já havíamos nos cruzado outras vezes, ao vê-lo passar por mim tomei a liberdade de perguntar:

– Que isso, anão! Saqueou uma biblioteca?

Ele parou. Tirou a cara de trás dos livros e olhou-me sério.

– Biblioteca nenhuma. Encontrei isto pelo caminho. Estou à procura da verdade.

Fiquei intrigado. Suas palavras penetraram-me no cérebro como sementes. Não tardou para que a árvore da curiosidade crescesse em meu espírito, deitando suas raízes no solo fértil dos meus pensamentos.

Esta história de caminhos e verdades não me era estranha. Logo farejei nela uma busca transcendental.  Descoberta que me deixou admirado. Afinal, atualmente quem é que se preocupa com este tipo de coisa? No mundo de hoje tudo gira em torno do dinheiro. Tudo e todos. Mas lá ia alguém com objetivos mais elevados do que o de acumular o vil metal. Não duvidava de que aquele sujeito, tão pequeno por fora como grande por dentro, estivesse atrás de respostas para as velhas perguntas às quais o homem tem se questionado desde os primórdios.  “Quem sou eu? De onde vim e para onde vou?” Com certeza, o anão se preocupava com essas questões metafísicas. Ele mesmo dissera estar em busca da Verdade. E essa verdade talvez se encontrasse naqueles livros grossos, decerto obras sagradas como a Bíblia, o Alcorão e o Bhagavat-Gita. Portanto, eu seria um completo idiota se continuasse plantado à janela, de braços cruzados, dispersando a oportunidade de conhecer algo que talvez mudasse a minha vida. 

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