O conteúdo desta página requer uma versão mais recente do Adobe Flash Player.

Obter Adobe Flash player

 
Nº 37 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Editorial

Questão de bom senso | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

A imprevisível dinâmica histórica uma vez mais triunfou. Seu caráter de abertura temporal e originalidade uma vez mais resgatou aquilo que Gramsci, em sua Introdução à Filosofia da Práxis, chamava de possibilidade de escolha entre as diversas filosofias ou concepções de mundo existentes numa frontal recusa a uma filosofia geral. Seria como se a diversidade conjurasse ininterruptamente às tramas do discurso e da ação uniformizadores.

Tal antagonismo pode levar ao centro de uma discussão genuína, qual seja, a de saber em que medida há suficiente liberdade para a escolha e que artimanhas são postas em prática para que as opções se reduzam ao mínimo.

Contribuindo para este debate, Marx, mais que proverbial, foi de uma lucidez exemplar ao enunciar, no 18 Brumário de Luís Bonaparte, uma de suas mais claras definições do homem como um ser histórico: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.”

Considerar histórica e dialeticamente os efeitos restritivos das circunstâncias não significa, por seu lado, atar-se a um fatalismo resignado, mas, antes de mais nada, alargar a consciência de mundo, perceber a sua complexidade e nele atuar com menor dose de ingenuidade.

Pensamento e ação irrigados pelo senso comum bem servem à conservação da atual (des)ordem. Se é que a transformação é o que interessa, é preciso ir além daquilo que nos familiariza. É uma questão de bom senso e de coragem.

O senso comum, não raras vezes, apresenta-se como uma fábrica de mitos quando a inteligência, de rédeas afrouxadas, deixa de cumprir o seu papel de crivo.

Deixando-se regar e regrar por impressões prematuras e avaliações precipitadas, o conhecimento dele oriundo tem um limitado valor utilitário.

Sendo uma forma, tanto quanto possível rápida, de acomodar-se ao mundo, o senso comum busca desvencilhar-se de tudo o que exige reflexão prolongada para encontrar-se com a facilidade da crença sempre que conveniente.

E no tocante a este assunto, parece que nunca se foi tão crédulo quanto na pós-modernidade. Crenças de outra ordem é verdade, mas crenças. Parece que a vida por inteiro foi transformada num ato de fé. Não necessariamente na fé de que falam as igrejas formal e fisicamente constituídas e construídas. Elas também, mas não apenas.

É de uma fé sem deuses e sem templos de que se trata. Uma fé laica com seus novos dogmas, ritos e sacerdotes. Quase positivista. Quase, pois que contrariamente ao que prognosticaram os positivistas, a instrução pelas ciências positivas não aconteceu e a crescente prosperidade material da população não levou ao seu “desenvolvimento” moral e ao movimento ascendente da civilização. O que temos é uma fé que acredita no poder redentor do consumo, na regeneração pela compra e na libertação pela palavra ratificadora de falastrões interessados em exaurir-nos a alma e o bolso.

Ao invés da ciência, o consumo tornou-se a nova religião da humanidade. A ciência, é certo, colocou as bases materiais que facilitaram a existência, e muito, mas a evolução espiritual e moral da humanidade não é sua derivada por subordinação. Os imbricamentos entre a ciência e a ética permitiram influências mútuas que acabaram por enviesar o processo de surgimento do novo homem racional almejado pelos positivistas de toda ordem.

 
 
100% Ice Cream Polimédica
 
 
  © 2007 - 2012 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo | Aparecida, SP | CEP 12570-000