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Nº 37 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Ágora

Brito Broca - Literatura, Memória e História | Joaquim Roberto Fagundes

Na literatura existem expressões e impressões históricas embutidas de quem a escreveu, dos protagonistas que a cercaram e dos personagens que, em certo sentido, são resultados da inserção do autor no mundo real, seja de forma diluída ou claramente impressa no enredo ficcional. Portanto, explorar e entender nas sublinhas os diálogos e as mensagens de um momento histórico são elementos fundamentais enquanto entendimento dos elementos resultantes da vivência e sobrevivência do homem em seu meio e uma maneira de compreender com maior ênfase ou sob outro olhar os acontecimentos e a sua extensão no cotidiano das pessoas.

No âmago da memória, rica e empolgante, temos uma complexidade mental que reflete a multiplicidade dos fatos singulares, mostrando uma sociedade brasileira diferente e complexa daquela que a historiografia tem demonstrado, principalmente na região valeparaibana. A mistura de pensamentos e de ideias, bem como o embate entre ambas na realidade é uma construção necessária para a história, desde o mais insignificante até o caráter mais globalizante, que se apresenta como prefeito motor da micro-história.

Conclusivamente, o que temos na literatura de Brito Broca é a essência da história, da memória e do patrimônio imaterial que necessita ser explorado, compreendido e disseminado para toda a sociedade. E, o ano do cinqüentenário é o ponto de partida para discussões, encontros e realizações em torno de sua obra, reiterando que o Vale do Paraíba é rico em fontes documentais diferentes das oficiais e que a universidade tem o dever moral de engendrar na prática os instrumentos para concretizar novas perspectivas de produção e absorção desse universo. Sobretudo, deixando de se isolar e pensar numa forma coerente de estreitar laços com outras instituições congêneres no sentido de produzir novos conhecimentos mediante a interdisciplinaridade baseada num tripé fundamental: Universidade-Escola-Sociedade.

O ano de 2011 marca o cinqüentenário de morte do escritor e crítico literário José Brito Broca, nascido em Guaratinguetá e falecido no Rio de Janeiro.

Trata-se de um nome expressivo na vida literária brasileira nas décadas de 1940-1950, quando produziu textos jornalísticos de envergadura na imprensa carioca, analisando a história literária brasileira, desde o período colonial até a primeira metade do século XX.

Reservado, sabia manter o equilíbrio entre o profissionalismo e a boêmia carioca, que sobreviveu desde os áureos tempos da belle époque brasileira, na última década de 1800 e inicio do XX.

Foi funcionário do Ministério da Educação, ao lado de nomes de peso do cenário intelectual da época, onde cultivou amigos, admiração e reconhecimento.

Além de incansáveis e eloquentes matérias jornalísticas, deixou-nos importantes obras que servem de referência para a história e a memória do país, com destaque para “Memórias”, evocando sua cidade natal, e “A Vida Literária no Brasil – 1900”, sobre o panorama literário nacional, entre outras.

Ademais, legou aos contemporâneos um imenso acervo, hoje pertencente à Universidade de Campinas – UNICAMP e que tem sido objeto de estudos dos historiadores.

Infelizmente, embora se explore alguns aspectos da sua produção intelectual e de sua contribuição, na região do Vale do Paraíba não existe nada expressivo em torno do assunto.
Dessa forma, o ano de 2011, longe de ser um marco meramente comemorativo, poderia ser o ano em que poderíamos pensar em difundir o seu legado nos meios acadêmicos, escolares e para a toda a sociedade. A contribuição de sua obra para a pesquisa histórica no Brasil e para a região é vital e importantíssima, já que sua postura, conduta e crítica sedimentam um pensamento e um modo de viver característicos de uma época importante para o país, do qual não temos um domínio satisfatório. E, também, considerar sua obra como ponto de partida para o resgate da memória, principalmente porque não temos mais o hábito de escrever como antes ou de registrar nossas impressões sobre fatos e pessoas da nossa época. Seria salutar socializar a prática memorialística de pessoas anônimas como fonte histórica para a posteridade. Dois aspectos, portanto, que podem traduzir um viés histórico não apreendido pela nossa história ainda oficialesca.

 
 

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