Conviria realmente unificar os sistemas: a êsse respeito, tem-se pensado não só como o sr. Said Ali, mas também em sentido contrário. Lembra o sr. Graña Etcheverry que Caramuel (Metamétrica, 1663) havia proposto para o espanhol a contagem até a última tônica; e Rodrigues Lapa que Mussafia (Sull’antica Métrica portoghese, 1895) proclamou as vantagens do nosso sistema.
Sob certos aspectos, a contagem pós-Castilho parece mesmo melhor, como é fácil demonstrar. Manuel Bandeira, prefaciando o opúsculo de Said Ali, escreve o seguinte: “Pessoalmente, prefiro o critério de Castilho, isto é, a contagem até a última sílaba tônica. As sílabas átonas dos versos graves e esdrúxulos não influem na estrutura dos mesmos: podem influir na do verso seguinte. Assim, na poesia “Valsa”, de Casimiro de Abreu:
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa,
No vale,
Do vento
Cruento
Batida...
No sexto verso a última sílaba de “pálida” pertence na realidade ao verso seguinte “Rosa”, que tem uma sílaba a menos, como era de necessidade, sem o que se quebraria o ritmo uniforme do poema.
Adverte Graña Etcheverry que, em sua opinião, esse poema não é constituído por versos de 2 sílabas, mas de pentassílabos com rima interna, e assim afasta a razão de Bandeira. Não julgo, como o sr. Graña Etcheverry, que se trate mesmo de pentassílabos, cujo ritmo meramente influiu na seqüência. Mas é possível demonstrar, com exemplos incontrovertíveis, a procedência do argumento de Manuel Bandeira. Basta abrirmos os “Poetas da Academia do Senado da Câmara de São Paulo” para que ressaltem os seguintes exemplos.
Não consiste a grandeza,
O poder, a glória, a majestade;
Que rega da nobreza as belas flores.
Destas frutos são de altos primores
Não se aprende, Senhor, fantasiando;
Mas vendo, tratando, e pelejando
Que são do original realces belos,
Vós Senhora, vós, princesa augusta
Que o tempo gastador nunca consome
Um no chafariz todo se eleva
Em qualquer desses dísticos o segundo verso tem aparentemente 9 sílabas; mas a sílaba final de cada um dos primeiros decassílabos se projeta para o verso seguinte, que passa desse modo a ter 10 sílabas:
Não se aprende, Senhor, fantasian-
do; Mas vendo, tratando e pelejando.
Ora, transparece desse exemplo que haverá certo absurdo em denominar o 1º verso hendecassílabo, pois cedendo uma sílaba, é abstruso continuar computando em seu número a sílaba cedida, situação essa que o sistema de Castilho tem o mérito de evitar. Assim, o argumento de Bandeira afigura-se-me grosso modo acertado.
Quanto ao critério de Graña Etcheverry, é arbitrário fazer com que os pés fechem em tônica; há também os de ritmo descendente, como o troqueu e o dáctilo, cujas átonas não precedem, mas sucedem a tônica. Said Ali já apontara, a propósito de Castilho, a arbitrariedade que preside a esse critério. Assim, embora eu concorde com a tese do sr. Graña Etcheverry, de que o sistema português de contagem é mais ajustado à realidade rítmica do que o castelhano, a essa conclusão não chego pelos mesmos caminhos que o distinto ensaísta.
É fato bem sabido que antes da publicação do Tratado de Metrificação Portuguesa (1851) de A. F. de Castilho, os versos de nossa língua eram designados à italiana ou espanhola: contava-se uma sílaba além da última acentuada, quer fôsse agudo (e assim a sílaba não existisse), quer fôsse exdrúxulo (e assim houvesse duas sílabas, que se contavam por uma). Dizia-se, pois, que eram hendecassílabos (isto é, de 11 sílabas) os seguintes versos, que hoje chamamos decassílabos (de 10 sílabas):
Ali na multidão dêsses heróis;
Em turbilhão de eternos resplendores;
A noite, o mais tranqüilo dos narcóticos.
A reforma de Castilho acabou vitoriosa, e hoje contamos os versos até a última sílada acentuada, desprezando as demais para efeito de designação. Tal vitória não foi conseguida sem reação da parte de muitos; certos tratadistas rejeitaram expressamente a inovação, como por exemplo o sr. Delfim Maria d’Oliveira Maya, autor de um Manual de Estilo que em 1881 estava na 9ª edição, ou o dr. Paulo Antônio do Vale, professor catedrático de Retórico do Curso de Preparatórios Anexo à Faculdade de Direito de São Paulo, que em suas Noções de Arte Poética (1884) achava o processo de Castilho capaz de provocar confusão (parecer que já era, aliás, o do sr. Oliveira Maya). Outros autores, como Eduardo Carlos Pereira (Gramática Expositiva), passaram a indicar acomodaticiamente os dois sistemas, referindo-se a “versos de 11 ou 10 silabas”, “de 10 ou 9” e assim por diante. Terceiros preceptistas, finalmente, preferiram repousar na autoridade de Castilho, confessando-o abertamente, como o sr. F. A. Duarte de Vasconcelos, em seu Compêndio dos Princípios Elementares de Arte Poética, etc., editado em Coimbra na década de 60. Essa divisão de opiniões e a leitura dos manuais franceses, que começou a prevalecer durante o nosso parnasianismo, acabaram por fazer vitorioso o sistema de Castilho, que arcaizou o outro. Bilac e Guimarães Passos, por exemplo, nem aludem à designação dos versos anterior a Castilho – designação hoje revogada em Portugal ou no Brasil.
Não significa isso, porém, que não possa haver quem prefira o sistema de antes de Castilho ou proponha a volta a êle: tal foi o caso do prof. Said Ali (Versificação Portuguesa, 1949), que rebate as razões de Castilho e adota o sistema anterior ao estabelecido pelo autor de Escavações Poéticas.
Por seu turno, em estudo publicado no número 8 da Revista do Livro, sob o título “La Equivalência de Oxítonos, Paroxítonos e Proparoxítonos a fin de Verso”, o sr. Manuel Graña Etcheverry procura mostrar a procedência da argumentação de Castilho e refutar a de Said Ali. Traz êsse estudo larga digressão histórica (do ponto de vista castelhano), mas, na parte que nos interessa, considera preferível o sistema português de contagem ao espanhol, e isso pelo seguinte argumento: “como a disposição do acento é o que caracteriza o pé, podemos dizer que o verso termina no último acento: nêle se faz sentir a necessidade do retôrno”. Êsse argumento, a meu ver, não deixa de ser sibilino, pois num verso de andamento trocaico como “Ave Maris Stella” não vejo como seja possível dizer que termina com stel, sacrificando a sílaba la do último troqueu, numa espécie de catalexe desarrazoada, desde que o verso estava inteiro e passa a amputado. O mesmo se dá com o verso “Dies irae, dies illa”, também de andamento trocaico, ou em geral com os versos de ritmo descendente, que sofrem catalexe forçada se prevalecer o critério do sr. Grafia Etcheverry, de parar o verso na última tônica (a do último pé). Ora, não é possível desprezar sílabas na poesia “rítmica” médio-latina, cuja contagem se processa incluindo-se no número de sílabas a sílaba posterior à tônica.
O sistema italiano e espanhol, derivado em última análise desse princípio médio-latino das “sílabas contadas”, é tão legítimo como o português atual, que repete a presumível maneira de contar galego-portuguêsa. O provençal não contava a sílaba metatônica, e, também em nossa língua, “o princípio rítmico dominante já no século XIII, sempre que havia mistura de versos graves e agudos, era o de fazer do verso agudo o padrão da medida”. Todavia, a singularidade conhecida como “lei de Mussafia” (ocatossílabos agudos, alternando com heptassílabos graves, ou decassílabos agudos com eneassílabos graves), parece devida ao princípio médio-latino das sílabas contadas, isto é, o número de sílabas devia ser igual de verso a verso, pouco importando a posição do acento final.
De um modo ou de outro, o fato é que as línguas românicas se acham divididas no modo de contar as sílabas dos versos, alinhando-se de um lado o provençal, francês e protuguês, de outro o italiano e o espanhol.
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