O poeta brinca, como escrevia Mário de Andrade transcrevendo Pallazeschi: “Lasciatemi divertire!” E brincando, ou divertindo-se, realiza-se numa poesia de presença marcante. Plural de nuvens não é livro que possa passar sem que se assinale seu lugar de realce em nossa poesia: chega de redimi-la de torrenciais mesmices e da obnubilação dos que pensam que cantam, mas na verdade coaxam.
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. "O poeta se diverte": Revista de poesia e crítica, Brasília, nº. 11, setembro de 1985./Poeta e crítico dos melhores, residente em São Paulo e autor de livros como O amador de poemas (1957), Lamentação floral (1946), dentre outros.
Duas coisas chamam a atenção, liminarmente, neste Plural de nuvens de Gilberto Mendonça Teles: em primeiro lugar, mostra-se com toda a clareza o virtuose do verso, capaz de usar indiferentemente as rimas fazer navego assonar com arquipélago, por exemplo), ou mesmo as rimas apenas das sílabas tônicas; capaz, ainda, de ressuscitar formas usadas no Romantismo, como o alexandrino arcaico ou o eneassílabo (com um espécime composto, raridade de Junqueira Freire!), embora o verso de nove sílabas fosse também usado, e com maior insistência, se acentuado na quarta, pelos simbolistas. E tudo isso casado com estilo por vezes sério, mas frequentemente lúdico ou zombeteiro: “Tudo o que escrevo/Tem algo de travesso” – assevera Mendonça Teles. E esse ar leve, irônico, mangador, é o segundo ponto que nos solicita a atenção. Aliterações, paronomásias, alusões relampagueiam pelos versos, que também fazem, de vez em quando, os vocábulos quase esgotarem suas possibilidades, como se nota em “Teatro de arena” com papel ou “Sem-pé-nem-cabeça” com pé. Economicamente, falando dos quatro elementos, contrai em “m’ar”, à Cassiano, mar e ar; se forja palavras-valises, é com bom gosto que surgem: “silensual”, de sensual e silêncio, pode ser citada.
A faceta bem humorada do poeta, e o modo como a lapida, situam-no em posto perfeitamente dele, pessoal, inconfundível, apesar das raízes longínquas que possa ter de escarros mestres. Na verdade, ninguém desenvolveu, como ele, em nossa poesia moderna, essa feição alegre, foliona, mas completamente destituída de ferrão satírico ou mordaz, de qualquer ofensa ou maldade. Eis um exemplo, colhido quase ao acaso:
No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
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Vejam, por exemplo, a minha cara de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D. Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.
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Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século
e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.
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