só a boca desdentada
esboça o avesso da desdita
num esgar de sorriso
contida alegria
é nascido um filho seu
menino-homem, um varão,
o messias encarnado
vai cumprir
sina outra
transformar a soalheira
enverdecer o sertão
assim sobrevive o homem
padecedor dessas plagas
sempre a ilusão incrustada
na vindoura geração.
Dora Vilela é graduada em Letras, pós-graduada em Literatura e autora dos livros Pretensos Colóquios (1996), Descaminhos (2007), Retrato Falado (2010), Bordados do Avesso (2010) e Instantes Decantados (2010).
Sou composta de versos
punhados de versos
quilos de versos
atravesso o mundo
me equilibrando neles
não são bons, não são artísticos
não seguem ritmo,
técnica ou melodia
realizo versos, como quem coleciona instantes
como quem adiciona auroras e poentes
nem sempre vêm carregados de emoção
antes se esforçam em ser águas
correntes
prá que a existência neles deslize
são a vida transmutada em letras
são as coisas em estado simbólico
são minha história a mim participada
são meus passos observados
são o retrato do meu egoísmo
porque são meus
esses punhados de versos
porque são minha escolha
_a menos dolorida_
de transformar a realidade
em apenas um livro que alguém lê.
ele caminha, trôpego,
direção da tapera
pés nus, anguloso solo,
sol a pino
o suor encharca
a veste de aniagem,
a pele já tostada
useira e vezeira
da soalha do sertão
Leia mais textos da Seção Grafias desta edição
Supermercado Santa Cabeça Rua Benedito Macedo, 301 Ponte Alta Aparecida, SP Tel.: (12) 3105-2058 |