Porém, como afirmou Noel Andrade (violeiro urbano da nova geração regional) na entrevista que forneceu à nossa pesquisa:
a viola não parou no tempo, mas ficou encubado um tempo esse negócio da viola e ela ficou preservada nas mãos dos Foliões, esses violeiros muito simples, esse pessoal que canta a terra, as coisas que lê, vê, que ele ouve – informação oral de todas as maneiras. Tanto história, técnicas que são passadas na tradição oral, esse povo joga na música2.
Essa nova geração de violeiros mantém uma ligação e uma identificação intensa com o universo caipira, que resulta em uma combinação de preservação e mudanças na própria música caipira3, mostrando que a diversidade possível de ser extraída da viola ainda não foi explorada totalmente. No entanto, os sinais dessa diversidade são percebidos pelo violeiro, como nos conta o próprio Noel:
Eu conheço esse espírito [...] conheço esse universo, mas eu não fiquei lá na roça, do dia em que nasci até ontem, eu morei na cidade, eu estudei, eu estou aqui. Eu conheci outras coisas, ouvi rock, muito rock, muita coisa, eu ouvi música clássica, música brega, eu escutava com os meus amigos [...] Então, eu não consigo fazer uma música tão pura, de raiz, como esse violeiro que está lá na roça, que vive lá. Aquela mão que preservou a viola não é a minha, mas tem da mão dele na minha. Só que a minha já não é a dele mais.
Vê-se, assim, que as traduções culturais dos violeiros urbanos resultam em composições musicais que inovam e sofisticam o uso da viola caipira, sem perder o fundo cultural e religioso que sustenta a sonoridade do instrumento. Traduções culturais que já inspiraram análises acadêmicas, como na bonita dissertação de Souza (2002).
E lembrando Stuart Hall (2005, p. 103), essas traduções são elaboradas "[...] por gente que viaja, mesmo quando permanece em suas casas ou escritórios". Nesse sentido, é próprio afirmar que as traduções podem até ser locais, mas os criadores culturais que as elaboram são "sujeitos em trânsito" pelos processos da globalização4, como o "homem em trânsito" consumidor de cultura, descrito por Toffler (1965, p. 50).
André Luiz da Silva é doutorando em Ciências Sociais (PUC-SP) e professor da Universidade de Taubaté-SP & José Rogério Lopes é doutor em Ciências Sociais e professor da UNISINOS-RS.
“Não dá pé, não tem pé nem cabeça,
não tem ninguém que mereça,
não tem coração que esqueça,
não tem jeito mesmo,
não tem dó no peito,
não tem nem talvez defeito,
o que você me fez?”
Geraldo Azevedo
Os lugares da viola na região do Vale do Paraíba Paulista são vários, das festas de bairro, na roça, passando pelos bares de periferia dos centros urbanos, aos shows em praças, mercados, estações de rádios, centros culturais e salas de concerto. No entanto, os lugares físicos, como espaços concretos, são importantes somente por permitirem localizações àqueles que gostam de tocar ou ouvir o som da viola. Qualquer pessoa pode acessar uma diversidade de sítios na internet que os identificam ou relacionam1. Aqui, devemos reconhecer uma outra ordem de orientações, presentes nesses lugares todos. Trata-se de perceber que o verdadeiro lugar da viola é o da sociabilidade, nessa região marcada por um passado de formação caipira, que deixou incrustado na memória das pessoas um desejo particular de encontrar o outro, embalado pelas histórias dos lugares e dos acontecimentos que partilham, ou partilharam, contados como música.
José de Souza Martins (1975), em um texto já clássico, intitulado “Música sertaneja: a dissimulação na linguagem dos humilhados” (publicado anteriormente ao ano citado com o sugestivo título de “Viola quebrada”), já havia afirmado que a música caipira
[...] se caracteriza estritamente por seu valor de utilidade, enquanto meio necessário para efetivação de certas relações sociais essenciais ao ciclo do cotidiano do caipira. [...] Sem a música essas relações não poderiam ocorrer ou seriam dificultadas, acentuando a crise da sociabilidade mínima dos bairros rurais, como aliás se observa naqueles que estão em desagregação (Martins, 1975, p. 112).
A viola caipira, nesse sentido, é um instrumento valioso para os sujeitos que viveram as transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas na região, nas últimas cinco décadas, sobretudo com a migração dos sujeitos rurais que foram para os centros urbanos da região, como São José dos Campos, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e Cruzeiro.
A mudança do ‘rosto’ da região nesse período, de rural para predominantemente urbano e caracterizado pelo desenvolvimento tecnológico, parecia confirmar o enunciado de Octávio Ianni (1988), que afirmava na década de 1980 que o caboclo dos nossos amores estava se transformando em lúmpenproletariado nas cidades industriais. No entanto, em torno das manifestações propiciadas pelo uso da viola, entre outros motivos, formaram-se redes de sujeitos migrantes que trocam regularmente experiências e histórias, fortalecendo laços de parentesco, compadrio e amizades, nos novos contextos (Lopes, 1995).
As duas últimas gerações de migrantes, especialmente, têm fomentado um grupo de novos violeiros e de público para a música caipira, que agora começa a apresentar seus resultados, com a difusão progressiva que a viola vem alcançando no meio musical urbano da região e do país. E se essa difusão ficou obscurecida algum tempo é menos por causa da qualidade musical da própria viola e da música caipira, e mais por conta da idéia de ‘progresso’ que a região e o país viveram nessas últimas décadas, que isolou a figura do caipira, e de suas manifestações culturais, como símbolos de uma tradição que resiste às inovações (Lopes, 2005).
Acoplan Papelaria e Informática Rua Dr. Rangel de Camargo, 38 Ponte Alta - Aparecida/SP Tel.: (12) 3105.7555 acoplan@uol.com.br |
Hotel Cathedral Avenida Getúlio Vargass, 901 Aparecida/SP Tel.: (12) 3105.1051 Tel.: (12) 3105.3413 www.hotelcatedral.com.br |