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Nº 40 | Julho/ agosto de 2011
Panopticum

Tradição e memória

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Com sua imensa capacidade de multiplicação, os grupos de tradição se transformaram em lugar de estudo, capacitação e envolvimento de crianças, jovens, adultos e idosos em um processo político, de produção intelectual e de colaboração coletiva em prol de uma causa salutar que é o fortalecimento do patrimônio cultural brasileiro. Ao lado de investimentos não simbólicos para a reprodução dos saberes, estas coletividades clamam por políticas públicas que valorizem o histórico e as diferenças entre os grupos sem impedir o diálogo da tradição com a atualidade, gerando oportunidades com promoção ampla de direitos humanos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.

As coletividades não são organismos desprovidos de vida, têm seu olhar, seu sentir, estão inseridas em contextos distintos e, como reação à realidade local, refletem versões próprias e específicas dos signos globais. Registrar as manifestações da tradição em literatura, foto e audiovisual significa difusão, pesquisa e reconstituição da memória do povo brasileiro, ao tempo em que dá voz a atores que encontram dificuldades em estabelecer intercâmbios e circular o país. São essas manifestações que podem e devem ser expressão de identidade cultural. Dessa forma, é preciso ampliar e fortalecer a conquista desses espaços para que sejam viabilizados processos de reconhecimento, afirmação, valorização e transmissão dessas manifestações, tão mais autênticas do que o produto da indústria cultural massiva.

Dane de Jade

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“Nada melhor que as tradições para repensar a saúde de nossa alma brasileira”

Mário de Andrade

Herança constituída por saberes, valores e costumes expressos por meio de crenças religiosas, culinárias, terapias e medicinas, contos, promessas, festas, artes, folguedos, de inumeráveis ofícios e técnicas, em essência, fundamento e alimento dos modos de agir, sentir e pensar do homem, a cultura de tradição de transmissão oral é um componente de decisiva importância para a definição da identidade de um povo. É ela que lhe confere peculiaridades e o diferencia.

Ainda que dirigentes de nações, mesmo de forma precária, falem em patrimônio imaterial e assinem tratados para proteção da diversidade cultural, em todo canto do planeta despontam iniciativas que procuram inventariar, defender e promover interesses comuns da humanidade nos campos de cultura e identidade, incentivando processos educativos no sentido do pluralismo, do reconhecimento e do respeito à diversidade cultural. Nesse contexto, revelam-se os Mestres de Tradição Oral, repassadores de ciências ancestrais reinventadas no contato com os elementos da contemporaneidade, homens e mulheres suscetíveis às mudanças e inovações do presente, protagonistas maiores de uma relação dialética criativa e cotidiana que labora no interior das trocas sociais e articula a sociedade.

Onde os Mestres encontram o poder da reinvenção? Talvez na teimosia em sobreviver, em persistir diante da inexorabilidade do destino de sucumbir, ao qual parecem estar sempre condenados. Na sombra das árvores, nas praças e pontas de rua, encantado com as cores e ritmos tão cheios de sentido e diferentes da monotonia das telas do consumo globalizado, o povo se ajunta para ver Reisados, Cocos, Bandas Cabaçais, Guerreiros, Lapinhas, Bacamarteiros, Maneiro-Pau, Penitentes, Cirandas, Aboios, Caretas, Pastoris, Poesia de Cordéis, Mamulengos, Repentistas, Emboladores, Bois, Caninha Verde, Maracatus, Folias de Reis, Jongos, Congadas, Moçambiques, Catiras, Marujadas, Fandangos, Afoxés, Mutirões de Brão, Calangos e tantas outras manifestações vívidas no imaginário e na vida da gente rural habitante das cidades. A tradição popular renova o espírito coletivo, sua fonte constante de criação e orientação, forma identidades e subjetividades na convivência no grupo; ensinando costumes integrados à vida, expressam passado, presente e futuro numa síntese existencial.

Em todas as regiões do Brasil os mestres populares engrandecem suas obras, preparando as novas gerações numa ciranda de respeito social. Há uma necessidade premente da redescoberta da riqueza do universo das tradições e dos processos de ensino-aprendizagem em seus aspectos teóricos, didáticos e práticos.

 
 
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