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Nº 40 | Julho/ agosto de 2011
Memória

Bonfim...O Povoado Esquecido | Wilson Silvaston Júnior

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No final do século XIX e início do século XX, o povoado contava com armazéns, casa de ferragens, escola de primeiras letras e casa paroquial. A escritura de doação do templo para a igreja, datada de 1906, registra 28 casas no povoado.

A igreja torna-se o epicentro social do povoado. A vida social e econômica se organizava em torno da vida religiosa: manifestar a fé, expressar a arte, amarrar negócios, contratar casamentos...

Mas o tempo de fartura e prosperidade do bairro estava com seus dias contados. O mesmo café que o colocou no mapa do Estado de São Paulo já dava sinais de cansaço. O esgotamento progressivo do solo, a mentalidade conservadora dos fazendeiros preocupados com a ostentação social, as leis abolicionistas, as grandes geadas do início do século XX e a superprodução de café acompanhada da crise mundial de 1929, são os fatores que explicam a decadência do café no Vale do Paraíba. Logo depois, os caminhos que surgiram na região determinaram o novo fluxo do desenvolvimento.

A partir de 1930, como não há mais um produto econômico que justifique a permanência daquelas velhas famílias nas suas propriedades rurais, não há mais tropa transitando em torno do povoado, porque o produto básico desapareceu. Aos poucos, os habitantes foram se mudando procurando outros locais.

Do povoado esquecido restou uma igreja na encruzilhada da memória.

Wilson Silvaston Júnior é jornalista.

O café já foi, por um longo período, o pilar econômico de nossa nação. O ouro negro sustentou o Império, financiou a República e mudou radicalmente a cultura econômica e social de boa parte de nosso país, principalmente em nossa região.

Não de pode falar em história do Vale do Paraíba sem antes mencionar a influência que a cultura do café exerceu no desenvolvimento da região.

As primeiras mudas foram introduzidas na região no início do século XIX, período em que os agricultores ainda investiam nos engenhos de açúcar.

Para o Prof. Fábio Ricci, Doutor em História Econômica, a importância da região é comprovada pelo primeiro Recenseamento Geral do Brasil (1872) que aponta para São Paulo, 28.000 habitantes, Taubaté, 21.000 habitantes, e Guaratinguetá, 20.000 habitantes.

O café marcou profundamente a região do Bonfim, de Roseira e de todo o Vale do Paraíba, modificando a paisagem dos contrafortes da Quebra-Cangalha e também a vida econômica, política e cultural.

A expressividade atingida pelo povoado do Bonfim, devido à produção do café, pode ser comprovada em mapa do Estado de São Paulo de 1919, onde se pode encontrar a demarcação do povoado e as fazendas produtoras próximas. Além do surto econômico provocado pela cultura do café trazendo a riqueza necessária para o desenvolvimento do povoado, o que também cooperou foi a posição em relação às cidades vizinhas. A localização é estratégica. Numa encruzilhada de caminhos, liga Lagoinha-Roseira-Mottas-Aparecida-Guaratinguetá.

A igreja do Bonfim, homenagem ao Cristo Crucificado, foi construída na década de 1880, por José Pereira Barbosa. Segundo o Prof. José Luiz Pasin, reza a tradição que ele gastou mais de 50 contos de réis na execução da obra.
Na mesma época era inaugurada a Estrada de Ferro Dom Pedro II.

Português de nascimento, José Pereira Barbosa chegou ao Brasil, por volta de 1850, acompanhando o irmão que era oficial da Marinha Mercante Portuguesa. Estabelecido na capital do Império, tornou-se comprador de café. Mais tarde transferiu-se para o Vale do Paraíba, instalando-se como fazendeiro de café na região do Bonfim.

A prosperidade dos negócios permitiu-lhe construir a igreja. Os recursos não foram poupados. São 690 metros quadrados de construção. O altar-mor foi entalhado a canivete por José Romão. A pintura da ascensão do Senhor (ascendit in coelum), no teto da igreja, foi feita por José Pinto e retrata, em primeiro plano, José Pereira Barbosa no canto inferior esquerdo, junto aos apóstolos. Todos os paramentos (púlpitos, imagens,...) foram trazidos da Europa.

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