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Nº 40 | Julho/ agosto de 2011
Meio Ambiente

Pico dos Marins – O Gigante de São Paulo | Gerson Santos

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No início da temporada de montanhismo (abril/maio) e no seu fim (setembro) é comum a ocorrência de nuvens entre os 1.600 m e 2.200 m de altitude. A Serra da Mantiqueira atua como uma gigantesca muralha natural que impede a transposição das nuvens do Vale do Paraíba para o Sul de Minas Gerais e proporciona a observação de fenômenos atmosféricos surpreendentes como a dinâmica das nuvens tentando vencer as encostas da serra e envolvendo alguns picos deixando-os apenas com as partes mais altas expostas. À medida que a noite cai, a temperatura diminui rapidamente, as luzes das cidades começam a brilhar e a estrelas pipocam pelo céu até formarem um manto negro cintilante que, com frequência incomum, é riscado pelas passagens de estrelas cadentes. Algumas cidades – Cunha, Campos do Jordão e Passa Quatro –, antes invisíveis durante o dia, tornam-se evidentes com o acender de suas luzes ao anoitecer.

Na montanha, em geral dorme-se cedo. O corpo cansado da longa e extenuante caminhada rumo ao cume e o frio intenso da noite fazem com que, poucas horas após o cair da noite, procuremos os nossos “aposentos” de montanha. Em contrapartida, acorda-se cedo – bem cedo mesmo. Mais precisamente, antes do nascer do Sol; justamente para presenciarmos este espetáculo de luz e cores proporcionado pelo nosso astro-rei. Neste momento o Sol é uma verdadeira e luminosa celebridade! Todos no Pico dos Marins voltam suas atenções e câmeras fotográficas para admirar e registrar a sua apoteótica aparição. Contudo, o Sol é uma celebridade generosa. Ele lança sua luz sobre outras belíssimas atrações dignas de contemplação e fotografias: o vasto tapete de nuvens que frequentemente recobre o Vale do Paraíba ao amanhecer, as brumas que permeiam o mar de morros do Sul de Minas Gerais e a revoada de centenas de andorinhas que rasgam o céu em um gracioso e deslumbrante balé aéreo.

Terminado o espetáculo matinal é hora de retornar à barraca, preparar um reforçado café da manhã, arrumar a mochila e descer a montanha. Na caminhada de ida e volta a mochila foi se aliviando do peso da água e dos alimentos. Em contrapartida, nossas câmeras e, sobretudo, nossas mentes, enriqueceram-se com muitas imagens maravilhosas e histórias inesquecíveis que serão mostradas e contadas para quem aguarda ansiosamente o nosso retorno para casa.

Gerson Santos é montanhista fascinado pelo Pico dos Marins e idealizador do site www.marinzeiro.com

Piquete, um pequeno município do estado de São Paulo, com apenas 176 km2 e com aproximadamente 15.000 habitantes, encravado a 656 m de altitude no sopé da Serra da Mantiqueira, muralha natural que, nos tempos do Brasil Colônia, desafiou a coragem dos Bandeirantes que sonhavam explorar o interior da Terra de Vera Cruz em busca de ouro, abriga um gigante de 2.420,7 m de altitude, a montanha mais alta do estado: o Pico dos Marins.

Tamanho gigantismo, associado às suas encostas escarpadas, colocam o Pico dos Marins em evidência entre as vertentes da Serra da Mantiqueira, tornando-o facilmente identificável desde a cidade fluminense de Resende até o município paulista de Taubaté. Mas, é de perto que o Pico dos Marins mostra toda sua imponência e beleza, despertando em quem o observa um misto de sensações entre encantamento diante da paisagem que se descortina e atração pelo desafio de alcançar seu cume. E chegar ao topo do Pico dos Marins é uma tarefa bastante cansativa que demanda cerca de 5 horas de caminhada em um percurso muito acidentado com cerca de 5 km de distância e 800 m de desnível. Importante ressaltar a necessidade de se fazer a caminhada acompanhado de um guia para evitar o risco de perder-se na trilha, além de que um bom guia fornece orientações importantes sobre o ambiente de montanha, o tipo de roupa e calçados a serem utilizados, equipamentos e alimentação.

Chegar ao topo do Pico dos Marins é uma vitória recheada de inúmeras conquistas preliminares que são colhidas ao longo do percurso e representadas pelos obstáculos vencidos, pelas descobertas das paisagens arrebatadoras das colinas e dos mares de morros do Sul de Minas Gerais, da imensidão do Vale do Paraíba com suas pequenas cidades, da peculiaridade das flores, bromélias, orquídeas, flores diversas e aves típicas das montanhas tropicais brasileiras. Uma vez no cume, a emoção da conquista, a euforia e o alívio da chegada são sentimentos que se misturam dentro de cada um ao chegar ao topo. Mas, ainda há muitas surpresas a serem reveladas, sobretudo aos que permanecerem acampados no cume até a manhã do dia seguinte. A panorâmica de 360° permite observar várias cidades do Vale do Paraíba – Cruzeiro, Cachoeira Paulista, Canas, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida e Roseira – entrecortadas pelo Rio Paraíba do Sul, a Serra da Mantiqueira estendendo-se de Leste a Oeste, a lendária Pedra da Mina (2.798 m) encravada na desafiadora Serra Fina, o vizinho e escarpado Pico do Itaguaré (2.308 m) e o fascinante mar de morros do Sul de Minas Gerais. Em dias sem névoa é possível identificar a Basílica do Santuário Nacional de Aparecida e a cidade de Campos do Jordão. A oeste do maciço principal do Pico dos Marins há dois outros rochosos picos menores, mas não menos impressionantes e que, embora não haja uma trilha definida, podem ser acessados sem o auxilio de equipamentos de escalada.

Entretanto, tudo o que foi descrito até aqui é apenas uma parte do espetáculo visual que pode ser apreciado do cume do Pico dos Marins. Ao final da tarde o poente vai se compondo de intensos tons alaranjados, a luz suave e amarelada do Sol tinge a face oeste do Pico do Itaguaré e banha todas as terras baixas do Vale do Paraíba e o mar de morros do Sul de Minas Gerais.

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