Nessas crônicas, Lobato se dispunha não só a divulgar a obra dos escritores hispano-americanos, como mostrava o papel deles como escritores-críticos e intermediadores literários de nossa literatura em seus países. A bandeira que Lobato tentava erguer aqui já estava hasteada por lá há mais tempo. Segundo ele, o jornal argentino La Nación já havia publicado em folhetim O Guarani, de José de Alencar, e Canaã, de Graça Aranha, traduzidos para o castelhano. Daí, Lobato conclui: “Benjamín de Garay, com algumas traduções, fez mais pelo Brasil na Argentina do que todos os discursadores que ‘estigmatizam’, ‘urgem’ e só...”. O próprio Lobato, com sua obra Urupês, havia sido traduzido por esse tradutor argentino, em 1921.
Por meio da editora Monteiro Lobato & Cia., ele idealizou uma coleção que intitulou Biblioteca Sul-americana, e na qual publicou Facundo, do argentino Domingo Faustino Sarmiento, traduzido por Carlos Maul. Em artigo de 1923, Lobato prometia publicar igualmente obras de Manuel Gálvez, José Ingenieros, Horacio Quiroga, Eduardo Barrios, Arturo Cancela, Hugo Wast (pseudônimo de Gustavo Martínez Zuviría), Vicente Salaverri, entre outros. Propunha-se a divulgar assim obras nacionais (e nacionalistas) de cada um desses países, com o objetivo de iniciar “praticamente o programa de aproximação que tem a empresa”.
Os doze textos aqui mencionados de Monteiro Lobato são geralmente intitulados com o nome da obra resenhada e, além do resumo do livro, oferecem quase sempre uma sucinta apresentação dos autores e de suas obras já publicadas. Desse modo, o editor exerce assim seu papel de mediador literário, valorizando o objeto que divulga:
"Salaverri tem já uma obra de vulto, três romances da vida do campo, quatro da vida das cidades, três contos e ainda várias obras de crítica social e jornalismo. É um verdadeiro homem de espírito amplo e compreensivo, capaz de voos magníficos. É um esforçado e leal obreiro do Uruguai moderno, um construtor a quem a literatura sul-americana já deve várias obras excelentes e deverá ainda verdadeiras obras-primas. Porque Salaverri evolui visivelmente e ainda não atingiu o vértice da sua montanha."
Angela das Neves é Mestre em Letras pela Universidade de São Paulo, doutoranda em Língua e Literatura Francesa pela mesma instituição e professora de Língua e Cultura Francesas.
Fraternidade, compreensão mútua e intercâmbio de ideias. Esses eram alguns dos princípios que moviam o diretor da Revista do Brasil, Monteiro Lobato, quando, no início da década de 1920, começou mais uma de suas campanhas pioneiras: a do intercâmbio literário entre países hispano-americanos e o Brasil. Antes de Lobato, somente José Veríssimo havia se aproximado com igual apego, com maior profundidade crítica, mas com papel menor como agente literário entre as diversas nações envolvidas.
Distanciados no tempo, podemos hoje, certamente, atribuir ao fundador da literatura infantil brasileira também o papel de intermediador entre a Literatura Hispano-americana e o Brasil. Monteiro Lobato não falava espanhol, língua que ele achava engraçada e pitoresca, mas lia correntemente romances e contos nesse idioma e manteve contato direto com escritores como os argentinos Manuel Gálvez e Benito Lynch, o chileno Eduardo Barrios e os uruguaios Horacio Quiroga (com quem se correspondeu esparsamente, entre 1921 e 1927) e Vicente Salaverri, entre outros.
O principal veículo utilizado por Lobato para a difusão desses escritores foi a Revista do Brasil, periódico vinculado ao jornal O Estado de S. Paulo, de que ele foi assíduo colaborador a partir de 1916 e, por fim, dono e editor, após 1918. Ele escreveu ali onze crônicas sobre a Literatura Hispano-americana no período de 1920 a 1924, reunidas postumamente no volume 18 da primeira série das Obras Completas de Monteiro Lobato, intitulado Crítica e outras notas. Um outro artigo sobre Manuel Gálvez, intitulado “Um romancista argentino” e escrito mais tarde, seria inserido somente na edição de Ideias de Jeca Tatu para as suas obras completas, em 1946. Nesses doze textos, o principal objetivo de Lobato era resenhar obras em prosa (contos, romances e uma peça teatro), lançadas recentemente nos países de origem, e divulgá-las por aqui.
Com uma definição muito própria de Monteiro Lobato, ele idealizava uma “interpenetração literária recíproca” entre as nações latino-americanas, a fim de afirmarmos nossa independência cultural dos antepassados coloniais europeus. Em crônica sobre o livro de Vicente Salaverri, El hijo del león, Lobato afirma: “Ninguém mais contesta o surto esplêndido que modernamente caracteriza a mentalidade sul-americana. O continente liberta-se da Europa caduca, pensa com seu próprio cérebro e faz arte sua, personalíssima.” Era a ideia de sistema literário tornando-se consciente entre nós, como Antonio Candido constatou em sua Formação da Literatura Brasileira, ideia essa que remonta ao Romantismo.
Assim como na maioria das causas que defendeu, Lobato foi incisivo e apresentou soluções para a divulgação mútua entre a Literatura Brasileira e a Hispano-americana. “Havemos de nos coligar todos os interessados – autores, editores, livreiros e jornalistas. É da ação entrosada de todos estes elementos que há de vir a solução do problema”, disse ele, no artigo “Inquérito literário sul-americano”, datado de julho de 1923.
Para Lobato, se havia algum estranhamento entre nós e os países vizinhos era por pura falta de conhecimento mútuo. A partir de uma concepção romântica dos laços culturais, ele pensava que a arte poderia funcionar como uma “andorinha da paz”, atravessando fronteiras e mitigando as desavenças políticas.
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