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Nº 40 | Julho/ agosto de 2011
História

A Música no Vale do Paraíba e o Resgate de um Repertório | Régis Duprat

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Os marcos cronológicos foram superados a partir da localização, em Mogi das Cruzes, de papéis de música que provavelmente constituíram o arquivo do mestre-de-capela Faustino Xavier do Prado (1708-1800). Todo o levantamento, avaliação paleográfica e histórico-biográfica, que levou à datação aproximada da documentação encontrada, entre 1730 e 1735, foi realizado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. (Duprat, 1984 e 1986). Sem abranger considerações técnicas mais específicas são manuscritos musicais de Mogi das Cruzes, no Vale do Paraíba, de música religiosa integrada na liturgia, todas de duração relativamente curta, insuficientes, inclusive em sua quantidade, para conclusões mais arrojadas sobre as técnicas e formas mais complexas de construção musical. Mas o arcabouço do desenvolvimento ulterior já está presente, podendo-se inferir algo sobre o uso do vocabulário harmônico, as técnicas mais simples do contraponto a quatro vozes, expansão da frase polifônica e incursões modulatórias. Podemos concluir, também, do amplo conhecimento por parte desses músicos da correção dos textos latinos da liturgia que cabia musicar dentro do calendário anual, não obstante eventuais adaptações de grafia ou a forma de tratamento fonético na fusão de texto e música.

Outro aspecto que empresta sentido a essa configuração é o fato desse material ter-se encontrado em Mogi das Cruzes, então pequena vila do Vale do Paraíba, a poucos quilômetros da também pequena São Paulo erigida em cidade há exatamente 300 anos, a 11 de julho de 1711.

Régis Duprat é Doutor em História da Música pela Universidade de Brasília, com pós-doutorado e livre-docência concluídos pela UNESP. É autor e co-autor de dezenas de livros e artigos. Em 1996, recebeu o Prêmio Clio de História da Música da Academia Paulista de História.

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Desde o início da década de 1960 desenvolvi pesquisas cujo plano global integrava o levantamento, em fontes primárias, de parte considerável do passado musical paulista dos séculos XVII e XVIII. Partindo, dentre outras fontes, da consulta às coleções dos Inventários e Testamentos não publicados existentes no Arquivo Público do Estado de São Paulo, identifiquei mais de duas centenas de mestres-de-capela e músicos atuantes em cerca de 30 vilas da então Capitania de São Paulo naquele período. Dentre essas vilas sobressaem as do Vale do Paraíba, por sua localização privilegiada entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.

Publiquei grande parte desse material, em 1979, na Enciclopédia da Música Brasileira (Marcondes, 1979) complementando as informações obtidas a partir dos recibos de pagamento de serviços musicais fúnebres dos Inventários e Testamentos com dados gerais colhidos em documentação de natureza vária, tais como os Censos da Capitania, os Livros de Receita e Despesa, de Assentos e Atas, das Câmaras e das Irmandades, e outros.

Além de se revestirem de caráter biográfico, essas informações ofereciam uma série de dados complementares permitindo ilações sobre as condições do exercício profissional da música, tais como padrões de remuneração, tipo eventual de acompanhamento instrumental da música vocal, modelos adotados de formação profissional e outros. A documentação permitiu, principalmente, concluir sobre a riqueza e abrangência geográfica das atividades musicais integradas nos ofícios religiosos em época recuada da história da Capitania. Mantinha-se, porém, o pressuposto de que as folhas de música correspondentes ao período mais remoto estariam definitivamente perdidas, sem nenhuma possibilidade de resgate. Os pesquisadores que manipularam documentação tão antiga sobre outras regiões brasileiras também constataram a mesma realidade (Duprat, 1965; Dinis, 1969, 1971 e 1979; Salles, 1980). A pesquisa em referência questionou e desmentiu aquele pressuposto.

Era tido como fato que as obras mais antigas até então descobertas, conhecidas e divulgadas pelos pesquisadores-musicólogos brasileiros datavam, em sua quase totalidade, do último quartel do século XVIII. Incluem-se aí as obras do padre José Maurício Nunes Garcia, do Rio de Janeiro; as dos compositores mineiros, nascidos a partir de meados do século XVIII; as de André da Silva Gomes, da Sé de São Paulo; as de Luiz Álvares Pinto, do Recife. De 1759 é o Recitativo e Ária, de autor anônimo da Bahia, que se tornou, durante longo tempo, a peça musical mais antiga na História da Música Brasileira. Editei esse Recitativo e Ária após localizá-la na Coleção Lamego da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, e a apresentei pela primeira vez em concerto em 1960, em disco em 1965, e em partitura em 1971 (Duprat, 1965 e 1971), publicada em livro com edição fac-símile (Volpe e Duprat, 2000).

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