Não existe: no meu tempo era melhor. Uma infância bem vivida é igual ao fogão à lenha da casa de minha mãe. Este não existe mais, mas o calor das lembranças mantém aceso o tição do coração.
Jorge de Souza é autor do livro Crônicas do Itapema.
Nos tempos quando a luz ainda não era trazida pelos fios, conheci a belezura do ser humano. Por volta dos treze anos, era ainda um menino desprovido de consciente maldade.
No inverno, quando a noite chegava, todos iam para a cozinha se aquecer junto ao fogão à lenha. Ali, aos poucos, a vizinhança ia se achegando, acomodando-se em cadeiras, bancos. Eu, o caçula da casa, tinha um privilégio: reservado à mim, no rabo do fogão revestido por cimento avermelhado, havia uma lata de leite ninho de tamanho grande, este era o meu banco, era ali que me sentava.
A lamparina, com o seu facho de luz trêmula, – haviam duas – mais o clarão vindo do fogão, eram suficientes para ressaltar a silhueta dos rostos, porém, insuficiente para decifrar os traços de emoção, esta era desvendada nas vozes, nos gestos, nos suspiros.
Dorico Caoiô, o nordestino especialista em histórias de cangaço: Lampião, Maria Bonita, Curisco, o nosso contador de caso e trovador, estava quieto no seu canto. O nosso Patativa do Assaré, naquele dia, tinha o seu bico amarrado por alguma mágoa desconhecida de nós. Fora embora cedo.
As pessoas ali, estimuladas por aquele ambiente, escondido na penumbra, contavam histórias, reclamavam da vida, lamentavam-se da geada que a tudo queimara. O mais bonito era ouvir, mais vivo do que a lenha a criptar no fogão, a esperança nas vozes.
Felicidade de menino não tem forma, simplesmente se é feliz. Ver a lua cheia surgir atrás do morro do Dito Cunha, a cabeça do São Jorge se delineando na lua, montado em seu cavalo subjugando o dragão, lá no alto, atrás dos coqueiros, era deslumbrante, sentimento idêntico e de tamanho igual ao de um menino nos dias de hoje diante um novo game em seu computador.
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