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Nº 40 | Julho/ agosto de 2011
Editorial

E o verbo habitou entre nós... | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Se alguma possibilidade libertadora existe – e ela existe – através da palavra crítica (literária ou científica, filosófica ou política) ela se microscopiza – se é que vale o neologismo – diante da incitação ao consumo e à desorganização política da sociedade promovida pelo estímulo exacerbado ao individualismo e ao auto-cuidado.
Sem reflexão, a sociedade torna-se refém de falastrões desprovidos da nobreza de caráter necessária para bem conduzi-la como líderes. O discurso mudou o tom, mas não perdeu o poder de movimentar multidões. Se antes se conclamou para a revolução, hoje é a involução, no sentido de voltar-se para si mesmo – regredir portanto –, o que se deseja.

Os palanques também são outros. A mídia, qual Mercúrio, em sua característica “eloqüência”, realiza o zás-trás da informação solta numa espécie de discurso às avessas. O que importa não é ter o que dizer, mas dizer rápido. Não há raciocínios a desenvolver, mas informações a dar. O que é sólido deve se desmanchar. A evanescência é só o que se permite. Nada de pensamentos estéreis.

E nesse bate-não-quara assistimos, com mínimas demonstrações de estupefação e indignação – o que é preocupante –, os desregramentos político-administrativos espraiados por todos os cantos desse país. Grande aliada dos desmandos, a palavra ali está, sempre ao lado desses ilusionistas que querem fazer crer que nem tudo o que se vê é o que parece.

Mas nem sempre a palavra como envoltório dos desacertos nos julgamentos e nas ações consegue cumprir adequadamente o seu papel de camuflagem. É o que se tem visto nos discursos infelizes de políticos que querem justificar o injustificável, provar o improvável, legitimar o ilegítimo, defender o indefensável, prometer realizar o inexequível. Nesses casos, a massa é indócil com aqueles que superestimam sua ingenuidade e menosprezam sua inteligência.

2012 está aí. A hora da verdade e do julgamento está chegando para os administradores e legisladores dos 5.564 municípios do Brasil.

Que verbo habitará entre nós?

Ao contrário do que corriqueiramente se pensa, a Era da ciência e da tecnologia – e de seus rebentos mecânicos e eletrônicos – não representa o sepultamento da palavra em nome do prático e do útil.

O poder da palavra como norte a seguir continua a imperar na bússola da subsistência, expressão que parece bem expressar a orientação dada ao existir pelas grandes massas.

Enquanto instrumento da sedução, a palavra não soçobrou, é bem verdade, mas perdeu encanto para tornar-se redentora, visto que boa parte de sua beleza formal e substancial cedeu lugar ao ideologicamente posto como necessário, substituindo a satisfação da contemplação estética pela ânsia constante de um ethos ocupado com a palavra promissora. A originalidade curvou-se diante da doutrina.

E essa palavra que promete (felicidade, sucesso, poder, dinheiro, salvação, amor, prazer... e não importa mais o que) ganha, a cada dia, legiões de adeptos. Ganham força os discursos petrificados da auto-ajuda, da religião, do como se dar bem (com pouco ou muito esforço), enfim, a palavra feita manual de conduta. Uma vez rigorosa e fielmente seguidos os passos, como em uma doutrina, o maná da vida ser-lhe-á oferecido.

E desse modo, as manifestações de fé – laicizadas como esperança – contribuem para uma opacificação, cada vez maior, do contraponto da palavra para multidões: a palavra crítica.

Aqui parece estar um dos nós estruturais de nosso tempo: amplificar o discurso crítico em um mundo não preparado para ele e desinteressado dele. Assim, o discurso crítico, por natureza re-flexivo, comedido e único capaz de imunizar-nos contra os perigos dos discursos ideológicos, coabita, modestamente e mais uma vez na história, com o discurso para multidões gozando de toda a sua pujança.
No Brasil, por razões óbvias, a palavra crítica cada vez mais alcança menos. Não por sua ineficiência intrínseca, mas pelas condições esterilizantes do pensamento que a acompanham, em especial, uma educação de baixa qualidade, uma mídia controlada por poucos e grandes grupos econômicos interessados em estimular “comportamentos de manada” e um Estado submisso aos interesses do Capital.

 
 


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