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Nº 38 | Março/ abril de 2011
Republicando

Uma pagina da revolução de 1842 na província de S. Paulo

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Ele fora victima do seu orgulho e intolerância, succumbindo por uma descarga, que lhe deram homens enfurecidos, quaes tigres sedentos de sangue, e reduzindo o corpo do desgraçado a uma massa disforme de carne!

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E este quadro negro foi por nós presenciado quando contávamos ainda 15 annos!

Manoel José havia sido perdoado pelos chefes da revolta; mas o povo, qual onda embravecida em mares tempestuosos, no momento de furor, não quizera ouvir a voz do padre Manoel Felix, tenente Anacleto e outros, e que então alli se formaria um terceiro partido.

E esse povo, desesperado pela vingança, era então senhor de seu direito de desforço. Saciára-se no sangue do desgraçado subdelegado...

Desde a data de 12 de junho a villa fora ocupada pela força do partido chimango. Os caramurus haviam abandonado o logar.

Porém chegara a vez das força legalista expulsar os revoltosos. O coronel Manoel Antonio e major Lopo de Albuquerque, zombaram das trincheiras erguidas pelos rebeldes à alguma distancia da villa.

Depois de um fogo, quando muito de duas horas, Silveiras cahira no poder desses officiaes, com perda de gente de ambas as partes.

Os chefes da revolta se ausentaram todos: o tenente Anacleto para o lado de Cunha; o padre Manoel Félix, seu pai Francisco Felix, sua respeitável mãe, e seus irmãos, todos foram occultar-se nas mattas da fazenda do alferes Lescura, que tivera a generosidade, patriotismo e coragem de dar nessas mattas um asylo seguro a essa família, a quem elle votava toda amizade e consideração.

Nós, também, ahi estivemos alguns dias: porém como menino que éramos só tinhamos prazer de contemplar os passarinhos em seus canticos ao arraiar da aurora, e as águas do Parahyba que perto d’alli se rolavam mansamente. Não pensávamos no futuro. Tudo nos estavam bem.
Fora nesse nosso escondrijo, que Francisco Félix de Oliveira, nosso bom e extremoso pae, adquirira uma grave enfermidade, da qual falleceu mezes depois em nossa casa da villa.

Na revolução de 1842, em Silveiras só ficaram compromettidos o padre Manoel Félix, seu irmão Francisco Félix de Castro e o tenente Anacleto Ferreira Pinto, os quaes foram amnistiados pelo governo de José Carlos Pereira de Almeida Torres, mais tarde visconde de Macahé; notando-se que o padre Manoel Félix e seu irmão Francisco Félix, se dirigiram para S. Paulo no intuito de se fazerem julgar pelo jury, mas que tal não acontecera pela amnistia aos compromettidos dos movimentos políticos de S. Paulo e Minas.

Foi um dia de festa para a villa de Silveiras, o regresso dos chefes do partido liberal aos seus lares. Já então dominava o governo liberal.

Silveiras foi altamente apreciada pelo illustradissimo cônego Jose Antonio Marinho, de gloriosa memória, em sua historia da revolução de Minas e S. Paulo; e é por este motivo mesmo que este nosso município deve merecer a estima de todos quantos amarem a liberdade, de todos quantos presarem o nome paulista.

Silveiras, 30 de setembro de 1872.

Vicente Felix

Almanach Litterario de S. Paulo - 1878

Corria o mez de Junho de 1842.

Os habitantes de Silveiras, que pertenciam ao partido liberal, – tomados de pânico, viam na auctoridade, que então era o mandão do lugar, um dos espíritos mais vingativos, que pelo ódio ou rancor que votava aos seus contrários, alimentava o desejo de ver correr o sangue de seus concidadãos.

Esse subdelegado era o Capitão Manoel José da Silveira, homem sem instrucção, quase analphabeto, inimizado em todo o município por causa do seu caracter irancudo, vingativo e intolerante.

Nunca podendo ter um diploma qualquer nas assembléias parochiaes, veiu a lei de 3 de dezembro de 1841 conferir-lhe a grande honra de ser nomeado primeiro suplente do subdelegado de Silveiras!

O proprietário, que era o Padre Joaquim Ferreira da Cunha, abastado fazendeiro do município, não querendo exercer o logar, passou a jurisdição ao seu primeiro supplente.

Era isso o que ambicionava o Capitão Manoel José.

Seu pensamento era – vingar-se das pessoas a quem elle odiava, já por política e já por causas particulares.

Os vultos mais importantes do partido liberal, então denominados chimango, eram inimigos de Manoel José.
Entre eles contavam-se os patriotas padre Manoel Felix, tenente Anacleto Ferreira, o padre Antonio Carvalho, o capitão Sene, o alferes Lescura, Francisco Félix, pai e filho, todos já fallecidos.

Ora, como a lei de 03 de dezembro de 1841 foi posta em execução com apparato revolucionário por parte dos caramurús (saquaremas) de facto foi machinada a revolução pelo partido chimango da província de S. Paulo, sendo o patriota brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar a esperança de todo o seu partido.

Os liberaes de Silveiras assistiram ao plano do seu respeitável chefe em S. Paulo.

A revolução, pois, era iminente.

Porém, Silveiras estava vaticinado para tristes scenas.
Começou aqui o desespero dos opprimidos pelo déspota subdelegado Manoel José.

Um processo por crime de sedição, tendo por cabeças o padre Manoel Félix, tenente Anacleto, Francisco Félix pai, Francisco Félix filho, e outros membros do partido liberal, deu motivo ao rompimento da revolução.

Silveiras ficou então uma praça d’armas.

O subdelegado era sempre escoltado pelos guardas policiaes, armados de bacamarte e cacetes.

Todos quantos tinham que ser victimas no tal processo de sedição se homisiaram para diversos logares do município, até o dia 12 de Junho de 1842, em que reunidos todos os liberaesou chimangos na fazenda do tenente Anacleto Ferreira, seu chefe prestigioso, vieram atacar a villa com perto de quatrocentas pessoas bem armadas.
Mas, para este facto de tanta gravidade, precedera um aviso, por parte dos chefes revoltosos, ao subdelegado Manoel José para que elle se retirasse à sua fazenda e deixasse livre a villa para o povo que vinha.

Manoel José despresou o aviso, e esperou a batalha cheio de confiança em seus capangas e policiaes; e, mui orgulhoso de sua auctoridade, rangera os dentes, esperando ver correr o sangue de seus concidadãos.

E esse dia 12 de Junho enluctou Silveiras. O sangue de seus filhos regou este solo virgem!

O partido revolucionario triumphára.

Manoel José, que não quizera acompanhar aos seus companheiros e amigos, que se puzeram em fuga, ficou só, certo de que o povo desenfreiado respeitaria a sua auctoridade.

Desgraçado! A ampulheta do tempo tinha-lhe marcado o termo da vida.

E esse infeliz subdelegado, repetimos, se vira só e exposto à fúria do povo!

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