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Nº 38 | Março/ abril de 2011
Memória

O Vale do Paraíba sob o olhar fotográfico de Tibor Jablonsky | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

A primeira excursão, datada de 1955 e conduzida por Nilo Bernardes (1922-1991), um jovem pesquisador do Instituto que viria a se tornar professor da PUC-RJ e do curso de doutorado em História da Universidade Federal Fluminense, registrou aspectos de Aparecida, Pindamonhangaba, Taubaté e São Luís do Paraitinga. As fotos evidenciam um geógrafo ocupado com a temática urbana cuja atenção é chamada pela densa aglomeração arquitetônica do centro de Aparecida, o casario de São Luís do Paraitinga e a presença de elementos da vida rural na paisagem urbana de Taubaté registrada através de uma foto de um carro de bois sendo conduzido por uma rua pavimentada e iluminada da cidade. Nilo Bernardes retornaria ao Vale do Paraíba para deixar imagens de Campos do Jordão (1956) e Paraibuna (1957). Destas vezes, com Tomas Somlo.

Em 1958, Jablonsky realizaria sua principal e mais completa expedição pelos meândricos caminhos valeparaibanos. Ao lado do respeitado geomorfólogo Antonio Teixeira Guerra, o experiente fotógrafo húngaro-brasileiro percorreu nada menos que dezesseis cidades e, desta vez, sua fotografação abrangeu inúmeros aspectos da fisionomia natural da região. Nada surpreendente uma vez que se fazia acompanhar de um dos mais qualificados especialistas em Geografia Física do Brasil. Antonio Teixeira Guerra, já nesta época, acumulava formação e experiência trazendo em seu currículo vários cursos de especialização na Universidade de Paris (1947 a 1949), uma expedição pelo Instituto Francês da África Negra, conhecendo do sul do Saara à Guiné Portuguesa (hoje Guiné Bissau) e a participação em Congressos Internacionais de Geografia em Lisboa, Washington e Rio de Janeiro. Mais tarde (1967) se tornaria Doutor e Livre Docente pela Universidade do Estado da Guanabara. Dez anos após sua passagem pelo Vale do Paraíba, aos 44 anos, faleceria prematuramente mas não antes de publicar o importante fundamental Dicionário Geológico-Geomorfológico, ainda hoje obra de referência aos estudantes de geociências no Brasil.

Tibor Jablonsky foi especial colaborador nesta obra. Das 125 fotos utilizadas para ilustrar o livro, 86 (68,8%) são creditadas a Jablonsky, sendo que três delas apresentam legendas de lugares do Vale do Paraíba.

A excursão de 58, sem dúvida, foi o mais completo registro fotográfico da região, feito pelo IBGE, até então. Seguramente, são mais de 80 imagens a possibilitar a recuperação do itinerário dos pesquisadores e, com ele, um pouco da biogeografia, da economia e da sociedade locais. Figuram entre as cidades visitadas e fotografadas por Teixeira Guerra/Jablonsky: Aparecida, Areias, Bananal, Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Guaratinguetá, Jacareí, Lorena, Paraibuna, Pindamonhanga, Piquete, São José do Barreiro, São José dos Campos, São Luís do Paraitinga, Silveiras e Taubaté.

Dois anos depois, em 1960, era a vez de Maria Rita Guimarães ter o privilégio de ser acompanhada pelas lentes de Jablonsky. Ao que parece, o destino era as regiões de montanha (altiplanos e Mantiqueira), mas não sem uma breve passagem por algumas cidades às margens do Paraíba. Além de Campos do Jordão, Paraibuna e Santa Branca, a geógrafa do IBGE passou por Aparecida e Guaratinguetá.

Por sinal, Aparecida e Taubaté foram as únicas cidades a serem fotografadas nas três vezes em que o geógrafo húngaro-brasileiro esteve no Vale do Paraíba.

Pouco tempo depois, a Geografia Teorética lançaria suas âncoras no Brasil e a quantificação enquanto técnica e método nublaria, em definitivo, o modo à francesa de fazer geografia. A observação in locu cederia lugar aos quadros e às tabelas estatísticas. O triunfo das descrições numéricas decretaria o sepultamento das excursões geográficas do IBGE, mas não a perpetuidade do olhar de Tibor Jablonsky.

1 Referência à Enciclopédia Brasileira dos Municípios, publicação do IBGE

2 Entrevista “As excursões geográficas no IBGE” de Carlos de Castro Botelho concedida a Vera Lucia Cortes Abrantes em 22 de junho de 1999.

3 Abrantes, Vera L. C. Imagens produzidas pelo fotógrafo Tibor Jablonsky: suportes materiais na construção da memória do trabalho no Brasil (1950-1968).

O desalento e as dificuldades do pós-II Guerra Mundial, acentuados pela definição de nações do leste europeu como áreas de influência soviética, fizeram soçobrar motivos para que vozes dissonantes ao regime comunista permanecessem nesta parte do Velho Mundo, em especial, daqueles que eram oriundos de famílias de tradição liberal-burguesa. Neste contexto, a América foi o destino de muitos. Da Hungria, uma nova onda migratória para o Brasil, a terceira, teve início. As primeiras haviam ocorrido no final do século 19 e logo após a Primeira Guerra.

Grupos de trabalhadores qualificados de diversas cidades húngaras adotaram o Brasil como destino comum e, aqui chegando, trataram, imediatamente, de buscar a validação de seus estudos e a inserção formal na economia como empreendedores ou profissionais especializados.

Foi o caso Tibor Jablonsky, um talentoso jovem que, vindo da capital dinamarquesa, aportou no Rio de Janeiro em 27/05/1948, onze dias antes de completar 24 anos de idade. Natural de Sarospatak, o talentoso jovem era, em seu país, Diretor de Filmes da Companhia Cinema da Hungria.

Contratado como técnico de cinema pelo Conselho Nacional de Geografia – órgão do IBGE – passou a compor a equipe de fotógrafos profissionais que acompanhavam as expedições geográficas do Instituto pelo país. Ao seu lado, outros dois húngaros, Thomas Somlo e Istivan Faludi, também foram admitidos no final da década de 1940.

O objetivo de se fotografar as excursões era registrar, deixar registro. Quando uma seção saía em excursão, ia o fotógrafo, porque aquela excursão resultava em vários artigos publicados na Revista Brasileira de Geografia, ou então, em obras como a Enciclopédia1. Você pega as revistas, têm fotos do Tibor Jablonsky, fotos de Tomas Somlo, era ilustrado.”2

O olhar fotográfico de Jablonsky, que chegou a chefe do Laboratório de Fotografia do Departamento de Divulgação Geográfica e Cartográfica, logo se tornaria tornar complemento indispensável aos grupos de pesquisadores que percorriam o Brasil em busca de um registro geofotográfico ainda inexistente.

De acordo com Abrantes, pesquisadora da Equipe de Memória Institucional do IBGE e interessada pela obra do fotógrafo, em pouco mais de uma década e meia (1952-1968), período durante o qual Tibor Jablonsky acompanhou geógrafos excursionando pelo país, foi reunido um admirável acervo de 9.254 fotos para o Arquivo Fotográfico Ilustrativo dos Trabalhos Geográficos de Campo do IBGE.

Tamanha produção amplia sua importância ao considerar-se a abordagem variada permitida pela diversidade regional brasileira e pelo profissionalismo posto a serviço dos responsáveis pelos trabalhos de campo. O raio de abrangência das excursões dos grupos de pesquisa alcançaram os mais extremos limites geográficos do país e, por isso mesmo, permitiram retratar paisagens naturais distintas e realidades humanas tão díspares quanto as desigualdades sociais existentes num Brasil predominantemente rural orientado por um projeto desenvolvimentista em nascença.

O trabalho de Jablonsky não somente contribuiu para ilustrar as publicações oficiais do IBGE. Seus registros imagéticos tornaram-se fonte para estudos históricos de lugares, regiões e grupamentos de pessoas em suas particularidades.

Ao buscar reaver os vínculos entre a fotografia de Jablonsky e a memória social do trabalho, Abrantes3 assim se refere a sua pesquisa como oportuna:

Em primeiro lugar, a importância de analisar esse material jamais estudado sob o ponto de vista da memória, do espaço e do trabalho, segundo um imigrante ou, sob qualquer outro aspecto. Além disso, o arquivo dos trabalhos geográficos de campo merece investimento por parte de pesquisadores interessados em estudar a fotografia como fonte histórica pela relevância desta documentação acumulada pelo IBGE ao longo de sua trajetória”.

Jablonsky, através de suas imagens, radiografou o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Esteve em quase todos os estados e territórios da federação. Fotografou aspectos do relevo e da hidrografia, de plantações e de áreas de extrativismo, de personagens rurais e urbanos, de choupanas e casarões, de fazendas e fábricas... Nada escapou ao seu atento olhar. Mas, apesar do enfoque presumidamente descritivo de suas imagens, engana-se quem se limita aos elementos visíveis de sua iconografia. Como em uma radiografia, a interpretação é o foco que transforma suas fotos em verdadeiros documentos para uma leitura do Brasil. Há uma imagética contida nas fotografias de Jablonsky. Retratos de uma época, as imagens do fotógrafo húngaro que se fez brasileiro representam muito mais que o espírito positivista de inspiração francesa que orientou por décadas a investigação e o pensamento geográficos no Brasil em boa parte do século 20. São também preciosas fontes primárias para a compreensão de nossa contemporaneidade que então se constituía.

Em suas quase ininterruptas viagens pelo país, Tibor Jablonsky, segundo o que permite depreender do acervo fotográfico do IBGE, ao menos três vezes, percorreu o Vale do Paraíba com a finalidade de submeter a região às suas lentes. Todas elas aconteceram no início da segunda metade do século 20, entre os anos de 1955 e 1960.

 
 

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