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Nº 38 | Março/ abril de 2011
Grafias

A banda do Sinuco | Maurílio Reis

Tateando o corredor de fora da casa, pois o quartinho dava nos fundos e não tinha luz, Sinuco foi se recolher.

A pensão estava lotada e Celio teve que improvisar uns dormitórios.

Sinuco conseguiu chegar até a cama.

Ao lado, no criado mudo, havia um copo com água; ele pensou: nossa que gente boa, até deixaram um copo com água pra minha dentadura.

Depositou ali a sua “perereca” e dormiu rapidamente.

Passado alguns minutos, Nardão meio cambaleando, tonto da “cachaça da terrinha”, deitou-se ao lado em outra cama, e por coincidência também usava dentadura.

Retirou-a com dificuldade, viu o copo ao lado da cama, colocou ali a dita cuja, e dormiu serenamente como um porco gordo.

Seis horas da manhã, madrugada escura, Sinuco levanta meio sonado, enfia a mão no copo retira a dentadura, coloca na boca e sai apressado, gritando para o compadre Nardão se levantar.

Nardão levanta rapidamente, põe a dentadura na boca, acha meio estranho sua gengiva, mas pensa que está amortecida por causa da cachaça que bebeu, devo ter exagerado na dose, pensou.

Formou-se a banda em frente a pensão na Rua Santa Rita e foram marchando até o Paço Municipal, onde se juntariam a procissão rumo ao páteo das Palmeiras.

Sinuco com seu bombardino, e Nardão com sua clarineta.

Sinuco estava incomodado, será que a minha gengiva murchou, mal cabe a dentadura na minha boca; como é que vou tocar o bombardino, com a boca mole desse jeito, pensou aflito.

Nardão estava mudo, seus olhos lacrimejavam como uma mina d’água tamanha a dor que sentia.

Seus companheiros pensavam que ele estava emocionado, mal sabiam que sua boca doía como cãibra, por causa da “perereca” tão apertada.

Ele até achou que fosse castigo da santa, por ter ficado bebendo até de madrugada, sabendo do compromisso que tinha.

As autoridades começaram a falar, Nardão não via a hora de tudo acabar prá poder tirar sua dentadura e refrescar a gengiva com um bom copo d’água.

E o Sinuco, coitado tentava equilibar a perereca em sua boca de corimbatá, pequenina que só vendo.

Quando por último o prefeito falou, a banda foi se apresentar.

Sinuco então comentou com Nardão: – Não sei o que está acontecendo, minha boca está pequena pra esta perereca, que mais parece um sapo cururu de tão grande.

Nardão então sorriu tanquilizado: – Cumpadre, acho que trocamos de dentadura, porque a minha está  acochada que nem porca, disse suando frio.

Rapidamente, destrocaram as pererecas e aliviados, tocaram como nunca naquele dia tão feliz.

Foi a primeira vez que vi um helicóptero tão pertinho.

Quase dava pra encostar a mão.

Era um dia bonito, ensolarado.

O céu parecia mais azul do que os azuis de hoje, talvez porque os olhos de criança enxerguem mais colorido.

Não sei.

Sei que todos pareciam muito felizes.

Seria por causa do helicóptero que voava baixinho e jogava pétalas de rosas em todo mundo?

Talvez.

Na cabecinha de criança, a gente só quer saber de brincar, e se alegrar com as novidades, e de fato era um dia especial.

A cidade estava comemorando os 250 anos de aparecimento da imagem de Nossa Senhora Aparecida, e em homenagem a santa encontrada no rio Paraíba o Papa Paulo VI a presenteava com uma rosa de ouro.

A cidade estava em festa, cada um fazia a sua comemoração, parecia copa do mundo.

As casas e ruas enfeitadas de azul e branco.

A alegria contagiava a todos.

Na pensão do Célio que ficava na rua do cemitério não era diferente, os romeiros que aqui vinham se hospedar pareciam da família, era comum até apadrinharem crianças de Aparecida, o vínculo dos peregrinos não era só por dinheiro, tinha um  quê de amizade, as pessoas se gostavam mais, e eram  melhor acolhidas.

Os hotéis, digo pensões, pois haviam muito poucos hotéis nessa época, geralmente eram feitos das próprias casas dos moradores, não havia luxo, muito menos estrelas, acho que nem a Embratur; o que importava era a presença, a satisfação da visita; hoje mal as pessoas se falam.

Enfim, como os valores mudaram.

Era uma noite fria de agosto de 1967. Não uma noite comum, mas especial, principalmente para o Célio, devoto de carteirinha do clube dos Sócios da Rádio Aparecida, o dono da pensão. Tão especial que até pediu ao prefeito da cidade, na época Aristeu Vieira Vilela que cumpria seu primeiro mandato, para ajudar nas festividades, e mandou chamar da cidade do foguete, Santo Antonio do Monte, uma banda formada por seus amigos.

Em Minas Gerais, todo mundo é compadre, e eles vieram com satisfação.

Célio os acolheu em sua pequenina pensão, mas como dizia, era como coração de mãe, sempre cabia mais um.
No dia seguinte  iriam se apresentar junto às comemorações que a prefeitura havia programado.

Naquela noite que antecedia as festividades já havia festa na pensão.  

Frango caipira. leitoa a pururuca e a tal da “branquinha” não faltou. 

As horas foram se avançando animadas com a conversa boa dos mineiros.

A ansiedade da apresentação da banda era grande.

Compadre Sinuco, um baixinho falante e alegre e o compadre Nardão, negro alto e forte não se deram conta do tempo, e um comentou com o outro:

– Compadre vamos deitar que amanhã cedo temos o compromisso com o seu prefeito.

Nardão respondeu que ia tomar mais uns goles e que logo iria.

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