Nº 38 | Março/ abril de 2011
Grafias

Mestre Medusa | Wilson Gorj

Ousaram entrar pela porta destrancada. Dentro avistaram alguns indícios de que ele estivera ali há pouco tempo: uma janela encontrava-se aberta; no quarto, a cama permanecia desfeita; havia alguns pratos sujos na pia da cozinha; na sala, duas velas negras ardiam ante a uma estranha estatueta.

Dali o grupo de curiosos rumou para o ateliê de madeira construído a poucos metros da casa.

No local encontraram vários montículos de argila encobertos por sacos plásticos, bem como algumas ferramentas rústicas utilizadas pelo escultor.

De tudo que viram o que mais chamou a atenção foi o intrigante rastro ao longo do assoalho de madeira.  Era composto de duas cores de argila: marrom e vermelha.  Vinha de um estrado posto no centro do ateliê e, passando pelos portões de madeira, estendia-se regularmente até sumir na mata circundante.

Logo descobriram que se tratava apenas de um tipo de barro: o marrom. A cor vermelha não era da argila.

Era sangue.

Descobriu-se também por que o rastro mostrava-se tão regular.

Na verdade, eram pegadas.

Pegadas de felino, um grande felino.

Premiado escultor, aplaudido em vários salões de arte. Suas esculturas humanas causavam assombro, tamanha precisão de detalhes. Por conta delas, recebera o apelido com o qual há anos assinava suas obras.

Uma dúvida, porém, perseguia Mestre Medusa: teria ele condições de reproduzir com a igual maestria um modelo não-humano?

Mais de uma vez indagava-se se suas hábeis mãos seriam capazes de modelar outra criatura com a mesma perfeição já consagrada em suas estátuas humanas.

Propôs a si mesmo o desafio, que logo tornou conhecido de todos. Dali a um mês traria a público a estátua de um animal à altura de seu talento. Admiradores e críticos, que aguardassem. Em breve veriam exposto em praça pública a melhor de suas obras. Nada menos do que o rei da selva. Um leão perfeito em detalhes e medidas, perante o qual ninguém passaria indiferente. Verdadeira obra-prima. Comprovação de que não havia limites para o rigor artístico do seu perfeccionismo.

*

Consagrado o desafio, todos esperavam por sua realização. Entretanto, o prazo estipulado para entrega da escultura expirou sem que ninguém obtivesse notícias do famigerado escultor.

Começaram a surgir boatos. Quem sabe Mestre Medusa não fora capaz de concluir a estátua do leão e, envergonhado, não tivesse coragem de aparecer. Enquanto uns assim especulavam, outros se inquietavam, preocupados com a ausência misteriosa do artista que era o orgulho da cidade.

Resolveram procurá-lo. De certo o encontrariam no ateliê, ou melhor, em sua casa de campo onde trabalhava longe do convívio humano. Formou-se um grupo de quase dez pessoas e rumaram para lá.

*

Lugar afastado, de difícil acesso. Penaram para chegar à residência do escultor.

Ao que tudo indicava, Mestre Medusa não estava em casa.

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