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Nº 38 | Março/ abril de 2011
Grafias

O Mistério do Judas | André Januário dos Santos

Chegando a praça o grupo para pra fazer o balanço do conteúdo do saco, e chegam a conclusão que já era suficiente, é aí que novamente surge à “brilhante” idéia de um dos garotos:

– Aí! E se a gente jogasse o Judas lá da passarela? Ia ser “muito loco”!

Pronto, foi o suficiente para despertar o lado da molecagem em todos, o Judas rapidamente estava na passarela e pronto para mergulhar no pátio, ainda chegou-se ao consenso que dois jogariam o Judas e o resto ficaria lá embaixo pra recolher o infeliz.

Até hoje fico imaginando a reação dos transeuntes ao verem um corpo caindo passarela abaixo, haja visto que este fato infelizmente vez ou outra se repetida na cidade, mas para eles era pura diversão, estavam alheios ao sustos e possíveis consequências dos seus atos.

Tudo preparado, o Judas lança vôo e se estatela próximo a guarita que fica em frente à Rádio Aparecida, os expectadores ficam em choque, uma senhora grita de susto:

– Minha Nossa Senhora! Alguém caiu da passarela!

O pobre Judas estava intacto mesmo depois da queda, e pra não perder o costume levou ainda vários pontapés do grupo que estava lá embaixo, que rapidamente recolheram o boneco em meio aos xingos dos expectadores e saíram correndo antes que os guardas da Basílica o confiscasse.

Parecia que chegava ao fim a aventura, todos estavam novamente reunidos em torno do boneco e decidiram voltar pra casa para enfim terminar o sofrimento do Judas, mas parece que o destino reservava uma falseta para nossos pequenos aventureiros, não é que ao passar em frente a um dos restaurantes em direção a rua Vicente Pasin, um cidadão decide provocar a garotada, que imediatamente parte em direção ao estabelecimento em coro:

– Queremos comida! Queremos comida!

O cidadão então disse:

– Aqui não tem nada não!

Em seguida o amigo deste que estava ao lado fala para o grupo que ele estava cheio de dinheiro.

Volta novamente o coro:

– Queremos dinheiro! Queremos dinheiro!

E completamente envolvido no clima da garotada ele arremessou várias notas e moedas no meio do grupo que agora adotara a política de cada um por si e catando tudo o que brilhava no chão, mas este foi o seu maior erro, pois na ânsia de pegar o dinheiro deixaram desprotegido o personagem principal de nossa história.

 Passada a euforia do dinheiro o grupo volta sua atenção para onde o Judas descansava e tem a maior de todas as decepções, O JUDAS TINHA DESAPARECIDO!

Não adiantou procurar, nem indagar com quem presenciou a cena, o Judas havia desaparecido por completo, nossos aventureiros voltam cabisbaixos para casa, dividem o produto do saco em partes iguais, mas o principal da festa não ocorreu, este ano o Judas levou a melhor.

Eu prefiro acreditar que este Judas, cansado de sofrer todos os anos, decidiu dar um basta, encontrou suas botas e sumiu no mundo de Deus.

Isto realmente aconteceu em Aparecida.

Sábado de Aleluia, acordei com som de um grupo de garotos que discutiam sem parar no quintal de minha casa, eu bem sabia eu dois deles eram meus filhos e que a data representava uma tradição que particularmente não gostava muito. A razão era clara, para mim representava a celebração de uma tradição na qual se celebrava o ódio e o rancor, se julgava e condenava o traidor de Jesus Cristo: Era dia de “malhação do Judas”.

Particularmente, nosso personagem principal este ano tinha muito em comum comigo, pois trajava um jeans surrado e uma camisa xadrez que a muito jaziam em meu guarda roupa e que eu já não tinha mais coragem de usar em público, o triste resultado é que o Judas da vez tinha minha cara e ainda por cima era recheado com os jornais e revistas que eu lera durante o mês.

Não gostava da tradição da malhação do Judas, mas gostava de ver meus filhos envolvidos em um projeto só deles, pois fizeram tudo sozinhos e criaram muitas expectativas sobre o pobre boneco, ele representava a saco cheio de doces e balas e de quebra a satisfação de destruí-lo por completo no final da brincadeira.

A discussão ficava por conta de quem seria o primeiro a carregar o fardo pesado durante a peregrinação pelos bares do bairro de Santa Rita, e infeliz aquele dono de bar que não desse nada para a turma exaltada, era o estopim para que em coro ecoasse a frase:

– Pão duro! Miserável! Repedido por todos várias vezes acabava por convencer a vitima a fazer a doação.
Chegou-se então ao consenso que o mais forte levaria o Judas primeiro e depois que estivesse cansado a turma revezaria, afinal para merecer o espólio do Judas todos tinham que carregar o infeliz, pelo menos uma vez.

Começa então a peregrinação, os garotos conduzem o boneco que vai arrastando as longas pernas pelo chão, eu tenho 1,80 metros de altura, o condutor é um tanto pequeno para o tamanho do boneco, pobre Judas, mal caminha dois metros e já recebe um sopapo no pé do ouvido, o que denuncia a todos que seu triste fim esta próximo, a Rua Padre Gebardo fica pequena para os garotos que chamam a atenção de todos os transeuntes que estavam alheios ao que se passava.

O primeiro bar a receber a visita do Judas é o conhecido Bar do Plínio, este ai é um cara legal, arremessou dezenas de balas e doces para a turma que entre empurrões cataram até pedrinhas pensando serem balas, mas esta história estava somente começando e a marcha descia a rua de bar em bar ao mesmo tempo em que o saco de balas dava sinal de que este ano o Judas ia render muito.

A garotada não contava com um fato inusitado, outro Judas estava atuando em sua área e segundo conheço a regra, nos meus tempos de criança ao encontrarmos outro Judas era briga na certa. O inevitável encontro de ambos aconteceu na altura do cemitério velho em frente à padaria São José e como a lei da natureza é inexorável os mais fortes saíram vitoriosos, nosso Judas estava intacto, o adversário foi despedaçado e agora as balas do grupo derrotado faziam parte do nosso saco.

A peregrinação continua e em cada bar e mercearia que passa cresce a arrecadação, vez ou outra um dos garotos surrupiava uma bala do saco, isto seria imperdoável em anos anteriores, mas como este ano tudo estava diferente ninguém reclamava. Percorrido todo o trajeto planejado o saco já estava abarrotado e seria hora de parar e voltar pra casa para malhar o Judas e dividir o produto arrecadado, mas a ganância falou mais alto e um dos garotos teve a “brilhante” idéia:

– Que tal a gente ir lá pro lado da Basílica Velha? Quem sabe nós conseguimos até coisa melhor que só balas!

Segue-se um silêncio entre o grupo e todos acatam a idéia, iriam para a Praça da Igreja Velha e quem sabe o que arrecadariam dos romeiros e lojistas, minha avó em uma situação desta diria o seguinte:

– Idéia de jerico!

A coisa parecia estar saindo do controle, mas nenhum deles queria voltar atrás, e o pior é que a arrecadação estava crescendo, a esta altura até brinquedinhos do Paraguai estavam entrando no saco.

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