Embora idealizador e autor do projeto, Candido impôs como condição que não participasse da direção do Suplemento, indicando para tal a “direção dedicada e criadora” de seu amigo Décio de Almeida Prado, que de fato o conduziu de maneira firme e elegante até o ano de 1967, quando então se desligou para assumir função acadêmica na Universidade. O Suplemento durou, assim, nessa configuração original, ao menos uma década, vindo depois a ser substituído pelo Suplemento Cultural do mesmo jornal, mas já com uma feição descaracterizada, mais voltada para a publicidade, bem ao gosto da cultura do entretenimento imposta pela indústria cultural nos finais da década de 1960, sobretudo depois do esvaziamento cultural proporcionado pelo AI-5 em 1968, início da fase mais difícil da ditadura militar que comandava o país desde 1964.
Nelson Luís Barbosa é doutor em Letras – Teoria Literária, pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Compara, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
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Foi durante as comemorações do Quarto Centenário da fundação da cidade de São Paulo, em 1954, que Antonio Candido, um crítico literário então em ascensão, propôs a José Mesquita, o dono do jornal O Estado de S. Paulo, a criação de um suplemento literário que pudesse abrigar a produção de uma nascente geração de críticos egressos da primeira turma formada na Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934 também como resposta aos anseios e expectativas profissionalizantes do modernismo de 1922.
Candido vinha de uma feliz experiência de crítico com a revista Clima (1941-1944)na década de 1940, criada por ele e seus amigos Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, entre outros. A seriedade com que esses novos críticos encaravam a função acabou fazendo que Oswald de Andrade se referisse aos competentes moços com o jocoso apelido de “Chatoboys” – Oswald, como se vê, jamais perdeu uma boa oportunidade para provocar e expor seu humor refinado e cáustico.
Com o fim de Clima, Candido acreditava que um suplemento literário, encartado no jornal, pudesse suprir a falta de uma boa revista literária à época, alçando a crítica comumente feita em rodapé dos jornais para uma posição mais digna e tratando-a de modo diferenciado daquele que então recebia nos jornais, com uma linguagem mais flexível e próxima do leitor, sem ter a obrigação de assumir uma função meramente informativa ou ensaística. Ou seja, pretendia com o suplemento unir o rigor e a seriedade dos estudos agora elaborados dentro dos muros da universidade a uma linguagem mais palatável ao leitor comum, e por isso mesmo mais condizente com sua finalidade de divulgação das artes plásticas, da literatura, do cinema, da música, do teatro... Enfim, um veículo de cultura que cumprisse com satisfação a função de intermediário cultural para deleite, ilustração, mas também formação do leitor comum.
A surpresa de Candido foi que, um ano depois, Júlio de Mesquita Neto, a pedido de seu pai, o procurou na Universidade para solicitar-lhe, então, que apresentasse um projeto sobre o tal suplemento. Foi assim que, em abril de 1956, Candido lhe expôs o esboço de seu plano, que seria finalizado em julho daquele ano, com tudo preparado em detalhes para que o primeiro número do Suplemento Literário fosse publicado já em outubro. E assim de fato aconteceu, pois na data prevista, 6 de outubro de 1956, um sábado, o jornal trouxe encartado seu “Suplemento Literário”, até hoje tido como o melhor do gênero já editado no Brasil.
No projeto do Suplemento feito por Candido, hoje recuperado e publicado em Suplemento Literário, que falta ele faz!, de Elizabeth Lorenzotti (2007, p.94-120), lê-se:
O suplemento, que aparecerá aos sábados, pretende conciliar as exigências de informação jornalística e as de bom nível cultural, visando ser, como ideal, uma pequena revista de cultura. Na sua estrutura prevê-se uma porcentagem de matéria leve, curta e informativa, que permite incluir, em compensação, matéria de mais peso. Assim, serão atendidos os interesses tanto do leitor comum quanto do leitor culto, devendo-se evitar que o suplemento se dirija exclusivamente a um ou outro.
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