Uma superficial análise do trabalho da imprensa (escrita ou não) nas pequenas e médias cidades, para ficar tão somente em um exemplo, contribui para dimensionar o efeito nefasto que as redes lojistas podem causar.
O raciocínio é relativamente simples, está ligado à liberdade como necessária condição para o exercício da profissão e, é lógico, não se refere às empresas que possuem outras formas de financiamento de suas atividades.
A grande empresa, maior responsável pela evasão das divisas locais, raramente se coloca como patrocinadora de veículos com alcance restrito a circunscrições municipais, especial-mente se forem cidades de pequeno ou médio porte. Sua presença, por outro lado, pode representar a quase-bancarrota do comércio varejista local. Fragilizado, o comerciante local deixa de ser o sustentáculo de uma imprensa que, também fragilizada, acaba por recorrer ao Poder Público (Prefeituras e Câmaras Municipais) como seu principal mantenedor. Consequência: uma imprensa Chapa Branca, subserviente aos interesses de mandatários sem qualquer escrúpulo para se fazerem censores. Não que a Imprensa Marrom não se faça em outras circunstâncias. O que se diz é da inviabilidade de uma imprensa livre pela ausência de recursos que a sustentem. Quem perde? A sociedade como um todo ao de ter a informação imparcial e o debate honesto substituídos pela notícia distorcida e pela bajulação encomendada.
Num incomparável ato de vassalagem (pois neste caso a fidelidade ao suserano dura enquanto o financiamento existir, ou seja, o cachorro está sempre pronto para morder o dono), a imprensa local, de joelhos, está a ouvir o réquiem adrede preparado para o definitivo sepultamento da liberdade, vendida, a um módico preço, juntamente com a dignidade.
“Mais que as idéias, são os interesses que separam as pessoas.”
Alexis de Tocqueville
A organização da economia e da sociedade em redes ainda não expirou todas as suas consequências. Algumas estão por vir enquanto outras já deixam as marcas de seus efeitos.
Um exemplo é o impacto da organização das grandes redes lojistas sobre o comércio e a vida social e política das pequenas e médias cidades.
Tais estruturas administrativas permitem a expansão territorial do crédito e funcionam como poderosos organismos a ditar padrões comportamentais dirigidos pelo ardor do consumo, criando assim a possibilidade de o Grande Capital estender seus tentáculos a mercados até então não alcançados.
O fortalecimento destas redes acabou por gerar o maior império de que a história já teve conhecimento. Um império multicefálico, extremamente criativo, capaz de aproveitar as “boas idéias”, independentemente de onde surjam, porém orientado por uma avidez sem freios pelo lucro. Este império das redes tem como característica maior o uso do que de melhor a inteligência humana é capaz de produzir a serviço dos interesses mercantis de governos e grandes corporações, não necessariamente nesta ordem.
Um dos corolários advindos desse enredamento perverso é o ônus pago pelas sociedades locais enfraquecidas em seu poder de decisão e em sua capacidade de ação.
E isto repercute na estruturação das relações cotidianas que deixam de se pautar pelos interesses endógenos submetendo-se a uma hierarquia estabelecida de fora.
Multiplicam-se o tempo todo os exemplos que evidenciam estes novos fenômenos sociais. A avançada tecnologia e o papel crescente da importância da informação revoluciona, dia-a-dia, os valores familiares, a atividade profissional, as teleologias pessoais e coletivas, os princípios educacionais, enfim, toda a diversa cultura erigida pela humanidade ao longo de milênios.
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