Já a coleção de jornais guarda algumas preciosidades. Uma delas é a edição especial da Gazeta Esportiva que fala da conquista do campeonato mundial de futebol pelo Brasil, em 1958. Obviamente, não poderiam faltar referências ao conterrâneo Zito, volante que venceu, com a seleção brasileira, duas Copas do Mundo e, com o Santos Futebol Clube, dez campeonatos paulistas, cinco brasileiros, dois sul-americanos e dois mundiais.
Mas a maior parte do acervo do colecionista roseirense é de revistas. São centenas e sobre temas diversos. É possível encontrar revistas voltadas para o público infanto-juvenil, tais como Tico-Tico e Vida Juvenil, para os apreciadores da programação radiofônica e de seus bastidores, para os curiosos sobre notícias policiais ou da vida noturna.
Entretanto, o que chama a atenção é a extensa coleção de revistas “O Cruzeiro”. São mais de trezentas edições de uma das mais importantes revistas ilustradas do Brasil durante o século XX. Sebastião Nelson começou a colecioná-las em 1953 e o seu mais antigo exemplar data de 3 de janeiro de 1948. Sistematicamente, sua coleção abrange o período de 21 de março de 1953 a 11 de fevereiro de 1978, ou seja, praticamente metade do tempo de circulação da revista. São pilhas e pilhas de “O Cruzeiro” guardadas junto às outras coleções na pequena casa que pertenceu a sua avó e até hoje preservada no amplo quintal de sua propriedade na região central da cidade. Um pequeno museu particular.
Para se ter uma idéia da importância e do valor deste acervo, se tomado apenas o conteúdo das revistas “O Cruzeiro”, há material para estudos e publicações nas mais diferentes áreas do conhecimento.
Imagine uma pesquisa sobre a evolução das estratégias de marketing a partir das publicidades veiculadas na revista? Ou um estudo sobre os textos semanalmente publicados por Rachel de Queiroz? Ou uma investigação sobre os conceitos estéticos que orientaram o design industrial em vários momentos do século passado? Ou ainda a linha editorial mantida pela revista diante dos principais acontecimentos políticos nacionais? São inúmeras as possibilidades e provocações para quem estiver preparado e disposto a assumir desafios. E isto não seria possível se alguém não tomasse para si a responsabilidade de guarda.
Sebastião Nelson, por sua feita, encontra mesmo satisfação quando é convidado para expor parte de seu material. O expositor é a sua outra face de colecionador, pois crê que não haveria qualquer sentido no que faz se as pessoas não tivessem a oportunidade de admirar e aprender.
Expor é a sua contrapartida, sua maior realização. Em função disso, chegou a transformar parte do conteúdo da revista em material para exposição. Por exemplo, as páginas do humorista Péricles de Andrade Maranhão, criador do personagem “amigo da onça”, foram organizadas em cem pranchas para que estudantes e público em geral pudessem ter um contato mais próximo com a maneira de fazer humor entre os anos 1940 a 1960.
Assim, cheio de vitalidade, o septuagenário colecionador vai alternando a preocupação com a conservação e a satisfação com a exposição de um material que, de maneira monástica, coleta e conserva desde a sua infância, criando um verdadeiro patrimônio cultural. Uma inestimável contribuição para que o passado recente consiga chegar às gerações ocupadas apenas com o imediato e o instantâneo.
Quem, quando criança, não cultivou o hábito de colecionar algum tipo de objeto segundo seus interesses e recursos? Não importa se gibis, figurinhas, moedas, selos, papel-moeda, cartões postais ou telefônicos, relógios, brinquedos ou qualquer outra coisa que lhe tenha chamado a atenção. O fato é que guardar, organizar, selecionar, trocar e até expor, características fundamentais do colecionismo, concorrem para que seja possível recuperar determinados momentos históricos – com tudo o que ele contém de valores éticos, estéticos e políticos –, para o desenvolvimento de determinadas capacidades intelectuais e morais do indivíduo, para a ampliação da cultura geral do colecionador ao ser obrigado a buscar informações por exigência do item que coleciona e, enfim, para a ilustração daqueles que tem a oportunidade de estar diante de um coleção com propósitos didáticos.
Por mais excêntrica que pareça, uma coleção pode se constituir em fonte primária para a ampliação da compreensão sobre fenômenos naturais e humanos. À guisa de exemplo, poderíamos questionar a excentricidade e a inutilidade da periglicofilia (hábito de colecionar pacotes de açúcar), comum entre europeus. Porém, não é preciso muita imaginação para perceber que através das características das embalagens é possível notar aspectos relevantes acerca dos hábitos de consumo da população bem como do estágio de desenvolvimento tecnológico das manufaturas ou, por outras palavras, de que maneira se relacionam a economia e os padrões alimentares de uma determinada sociedade.
De qualquer modo, entre a ludicidade e a construção de saberes, o colecionismo abrange incontáveis apreciadores espalhados pelo mundo todo.
Há registros de que célebres nomes da história – um deles é Henry Ford – figuram como famosos colecionadores. Mas merecedor de destaque é o relato que Charles Darwin fez quando escreveu seu Esboço autobiográfico para a edição alemã de A Origem das Espécies, em 1882:
“Na época em que estive naquela escola, já demonstrava inclinação natural para colecionar toda sorte de objetos: conchas, pedras, selos postais, lacres carimbados, moedas, timbres, etc., revelando interesse todo especial em conhecer o nome das plantas. Essa paixão por colecionar coisas, que leva o homem a ser naturalista sistemático, ou antiquário, ou tão somente avarento, era em mim bastante forte e evidentemente inata, porque meu irmão Erasmus jamais demonstrou tal tendência, assim como também nenhuma de minhas irmãs.”
E assim, antes e depois de Darwin, muitos “naturalistas sistemáticos, antiquários e avarentos” se formaram. É discutível se esta propensão para colecionar coisas é inata ou não, mas há muita gente que concorda com o autor de uma das maiores obras científicas de todos os tempos. Dentre eles encontra-se o senhor Sebastião Nelson da Cruz, morador da cidade de Roseira-SP, militar da reserva da Força Aérea Brasileira e um aficionado colecionador desde a infância. Para ele, o interesse por guardar coisas foi herdado da mãe, uma pessoa bastante organizada e que, além de gostar muito de ler, colecionava o que podia.
“Eu nasci na roça, aqui em Pindaitiba, em 1937. Naquele tempo, as coisas eram muito difíceis e o único lazer que tínhamos era o rádio. Além do rádio, era o que aparecia para ler. Aos domingos, íamos para a cidade e lá meus pais compravam um jornal que passava pelas mãos de todos e depois era cuidadosamente guardado pela minha mãe. Daí nasceu o meu gosto pela leitura e pelos papéis.”
Mas as primeiras coleções do senhor Sebastião Nelson, “coleções de criança pobre”, como ele diz, foram formadas por objetos que se podiam encontrar nas ruas, como carteiras de cigarro, ou de álbuns de figurinhas de papel que embrulhavam balas cujos valores, embora pequenos, nem sempre eram acessíveis às crianças. “Quando a gente estava com o caixa baixo, não conseguia completar os álbuns de figurinhas”, lembra.
E assim, entre muitas histórias, o colecionador radicado em Roseira vai mostrando o que conseguiu juntar e preservar ao longo de mais de sessenta anos. Além das carteiras de cigarros e dos álbuns de figurinhas, Sebastião Nelson conserva moedas, flâmulas, objetos domésticos, jornais e revistas.
Sua coleção de álbuns de figurinhas encanta qualquer criança, particularmente os meninos que gostam de futebol. Seu álbum de figurinhas de futebol mais antigo é de 1939, mas há alguns mais recentes formados no início da década de 1950. O álbum do IV Centenário de São Paulo merece uma referência toda especial não apenas pela sua qualidade gráfica e de acabamento como também pelo seu caráter histórico e informativo mostrando fatos, personagens, lugares e símbolos da capital paulista.
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