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Nº 38 | Março/ abril de 2011
Ágora

Aqui está Rhodes, salta aqui! Por um parlatório sem falastrões | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

“Hoje sabemos que a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprimi-las. E, assim, o problema política consiste em instituir estruturas sociais e relações reais entre os homens tais que a liberdade, a igualdade e o direito tornem-se efetivos. A fraqueza do pensamento democrático reside no fato de ser menos uma política e mais uma moral, visto que não coloca qualquer problema de estrutura social e considera as condições do exercício da liberdade como dadas com a humanidade”.

Não sendo a liberdade coetânea da humanidade, a política lhe tem função instrumental. É sua subordinada. Negar-se a isso é fazer degenerar a democracia em formas totalitárias, mesmo que popularmente simpáticas, de exercício do poder. E perfilar-se com “políticos” fanfarrões que, a todo tempo, vangloriam-se de seus inexpressivos feitos administrativos, o que faz lembrar uma clássica fábula.

Conta Esopo que certo atleta, de volta a sua terra após tê-la abandonado, vangloriava-se de ter feito, em Rhodes, um salto jamais realizado em jogos olímpicos e afirmava ter testemunhas que o comprovasse. Ao seu redor, compatriotas atentamente ouviam quando um deles interpelou: “Mas, meu amigo, se dizes a verdade, tu não necessitas de testemunhas: executa aqui o mesmo salto que em Rhodes”.

E o provérbio “Hic Rhodus, hic salta!” entrou para a história moral da humanidade como sinônimo da necessidade de que a validade das palavras seja confirmada pelos atos. Se não isto, restam apenas o palavrório e o proselitismo sem sentido.

Novas eleições se aproximam. É chegada a hora de afastar os falastrões que insistem em fazer da política apenas discurso. Política é fundamentalmente ação arrazoada pelo discurso, portanto sempre sujeita a revisão. É passada a hora de exigir um novo discurso. Menos messiânico e mais humano. Menos inconseqüente e mais sábio. Menos demagógico e mais honesto. Menos populista e mais democrático. Alguém se candidata? A dependermos da sabedoria popular, o que poderemos esperar?

“Mais que as idéias, são os interesses que separam as pessoas”
Alexis de Tocqueville

Mal desponta a aurora das próximas eleições municipais e as articulações começam a desenhar o mosaico partidário que definirá, em âmbito local, os rumos da política nacional para os próximos anos. Grupos se aglutinam e se dissolvem ao sabor de interesses raramente inspirados pela esfera pública.

Com isso, a política se reduz ao conluio partidário e ao processo eleitoral como se fossem eles a sua própria essência. Pseudopolíticos e marqueteiros (Platão os chamaria, talvez, prestidigitadores) se transformam em “expertos” das eleições, e só. Usam das mais elementares estratégias de ludíbrio, para encobrir a frágil consciência popular com a névoa de um discurso invariavelmente inconsistente – sob a ótica de sua validade e exeqüibilidade –, mas eficiente – quando se trata de conduzir as massas.
O que era para ser um refletido e articulado projeto político voltado para o crescimento material e humano de coletividades, é transmutado em miseráveis planos de governo – se é que podem assim ser chamados os engodos em que se constituem as listas de ações administrativas corriqueiras tais como divulgadas e prometidas ao eleitor – sem qualquer preocupação com a adoção de medidas que visem discutir como e para quem o poder será exercido pelos grupos pleiteantes.

Tal questão é vital para a democracia visto que nela não há espaço para projetos individuais conflitantes com os interesses coletivos. Quando isso acontece, a relação das pequenas trocas prevalece instituindo uma forma varejista de exercício do poder através da qual favores pessoais são retribuídos com pagamentos, também pessoais, em forma de voto.

Este mecanismo, tão simples quanto real, independe de escala e acontece em grandes e pequenas cidades. O que varia é a forma de se apresentar. O fato é que, a continuarem ausentes de nossa sociedade os dispositivos educacionais e jurídicos que obstaculizem a preparação e a atuação desta horda de pessoas “mal formadas” (e não se fala aqui de diplomas e certificações), o Brasil continuará distando muito de uma verdadeira democracia.
Remeto aqui à idéia de democracia tal como anotada por Merleau-Ponty em seu Em torno do Marxismo, quando diz:

 
 

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