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Nº 35 | Setembro/ outubro de 2010
Editorial

A teatralização da política ou O voto dos "abestados" | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Talvez isso explique, ainda que parcialmente e no caso do legislativo, o sucesso de determinados candidatos diante da platéia de eleitores. Aplaudidos com votos, estes novos “Titulares da República”, apesar de nenhuma diferença significarem no funcionamento da engrenagem política estadual e nacional, cumprem bem o papel de “vaidosos inocentes úteis” de seus partidos políticos.

E para ter o reconhecimento popular nada mais foi preciso que a habitual superexposição e uma mensagem de fácil assimilação que permitisse a rápida identificação candidato-eleitor.

O que está em xeque, é bom que se esclareça, não é a celebridade e seu legítimo direito de pleitear um cargo eletivo, mas a maquinaria que comanda o movimento das peças no tabuleiro e faz com que indivíduos sem qualquer lastro de formação ou experiência política se transformem em campeões de votos.

O que se discute é a essência mesma do processo democrático, é o papel da consciência ampliada de pensamento e de ação, é a real liberdade de escolha, sem induções, sem camuflagens e sem qualquer expediente matreiro de agências publicitárias e especialistas em comportamento de massas.

Mas o que se diagnostica é que a tônica da manipulação perdurará por longos e longos anos até que uma educação de altíssima qualidade possibilite o golpe de espada a romper o nó de Górdio que impede a efetiva democratização da sociedade brasileira: a alienação política.

Enquanto isso, “abestadamente” e a cada dois anos, compareceremos às urnas para ratificar nossa renúncia a um mundo melhor.

O transcorrer das últimas eleições consolidou, uma vez mais, a mídia televisiva como o espaço privilegiado para a teatralização da política. Em um verdadeiro mise en scène, céleres célebres que não querem esvaecer apresentaram sketchs vestindo personagens mil diante de um público atônito e transtornado com tanta desfaçatez.

Os truques de mídia utilizados não ultrapassaram os traços caricaturais e sob este aspecto, pois que toda caricatura é uma simplificação, não se diferenciaram as figuras hilárias das circunspectas. Todos foram (e são) atores a buscar a atenção e o convencimento do eleitor em poucos segundos ou minutos. Alguns apelaram para comportamentos extravagantes, outros se voltaram para eleitores confinados em segmentos bem definidos da sociedade (fiéis de uma determinada confissão religiosa, torcedores de um time de futebol, apreciadores de um certo gênero musical etc), e, por fim, houve aqueles que, políticos de carreira, fizeram da gravidade do semblante e do discurso a chancela de sua honestidade e compromisso com a coisa pública.

Fato é que, entre firulas e humor sem refinamento, a propaganda eleitoral apostou, sem escrúpulos, na alienação, na irreflexão, na decisão sem comedimento do eleitor. Foi um apelo ao passional e que funcionou. Não importa se por afinidade ou por repulsa, o que se almejou foi envolver o eleitor e deixá-lo entregue às paixões. Ao impedir o pensamento e a debate, negou-se a democracia.

Na sociedade do instantâneo e do esgotamento precoce tudo acontece em nome da leveza. Cria-se um universo de inconsistências no qual não há espaço para temas densos e áridos. Assim, os jogos de cena tornam-se inevitáveis e o humor como deboche ganha proeminência. No lugar da discussão de idéias e sua viabilidade real, o escracho; no lugar da consciência histórica, o fisiologismo e o parasitismo; no lugar do cérebro, as vísceras. Enfim, o que era para ser decisão amadurecida torna-se celebração leviana.

 
 


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