Cada um dos bondes de passageiros conduzia aproximadamente 50 passageiros sentados. Os bancos eram reversíveis, ou seja, mudavam de posição para manterem o sentido para a frente. O décimo bonde destinava-se à carga e manutenção.
O motorneiro Plínio também afirma que a entrada dos passageiros era sempre pelo lado oposto ao dos postes da rede elétrica e lembra-se perfeitamente, diz, de que ao seu lado esquerdo ficava o controle do bonde e do lado direito a alavanca de freio, que era uma manivela que acionava as “sapatas”.
“Os primeiros bondes não possuíam vidros dianteiros”, diz José Camargo Filho, o Bigode, nascido em 1916 e motorista de táxi por mais de 50 anos, “o que expunha os motorneiros à chuva e sol. Em dias de chuva o motorneiro tinha que colocar uma capa para proteger-se”.
Recorda também que, em São Paulo, surgiu o bonde fechado apelidado de “Camarão”. Em Aparecida, logo adaptaram o bonde nº 06, um bonde verde. Primeiro e único “Camarão” a circular pelas ruas da cidade.
“Naquela época”, continua, “a passagem para Guaratinguetá era 500 réis, o que dava para comprar 7 pães, e para a estação era 300 réis”.
O professor Guido Braga carrega na memória o valor para o passe escolar: 250 réis. Lembra também do senhor Benedito Silvério, engraxate do trilho, que percorria Aparecida-Guaratinguetá, com uma lata de graxa em uma das mãos e uma brocha na outra, buscando a segurança da linha, nem sempre conseguida.
Aliás, vários foram os acidentes provocados pelo descarrilamento do bonde. Alvos freqüentes eram o Hotel Negro Reis, o bar e mercearia do Tino e a casa de jornais e revistas de Cacildo Astério de Freitas.
O primeiro ponto de partida do bonde foi na Praça Nossa Senhora Aparecida. Depois, em frente ao Hotel das Famílias, em frente do Hotel Negro Reis, na rua Oliveira Braga, na Praça Dr. Benedito Meirelles e, finalmente, na rua Barão do Rio Branco.
Em primeiro de maio de 1955, o bonde torna a subir o outeiro, chegando ao centro velho da cidade, para encerrar definitivamente suas atividades em 1956, quando a Jacobelli e Cia., concessionária da linha desde 1951, abriu falência.
Descia o bonde o largo da Igreja de São Benedito e adentrava a rodovia São Paulo-Rio (atual rua Barão do Rio Branco), calçada com um palmo de pó, quando um determinado passageiro, provavelmente um visitante, resolveu saltar do veículo em movimento.
A descida foi circense. O passageiro saltou, caiu, rolou e se encheu de pó.
O público presente não conteve o riso. O passageiro levantou-se, bateu o pó, olhou para os presentes e, indignado, disse: “ ― Cada um desce do jeito que sabe”, e retirou-se.
Esta é apenas uma das pitorescas histórias relatadas pelo octagenário Antonio do Carmo Souza, o Seu Nenê, nascido em 16 de julho de 1915, que diz também se lembrar do bonde puxado por juntas de burros.
O jornal “Santuário de Aparecida” registra, em 1903, o valor das passagens de bondes puxados por burro: “A Empresa de Bondes de Aparecida estabeleceu uma nova tabela de preços em suas passagens: 300 réis para subida e 200 réis para descida. A bem dos senhores romeiros e a bem da nossa própria população desejamos que a empresa conserve sempre esta nova tabela, que está agora razoável”.
“Na descida, os burros eram desatrelados e o bonde era controlado apenas por freio”, conta o Sr. Nenê. “Daí, o preço de descida ser inferior”, complementa.
A chegada da luz elétrica, em 1º de dezembro de 1912, permitiu a instalação de uma linha de bondes elétricos que foi inaugurada em março de 1914. O “Santuário de Aparecida” assim comenta: “Conforme anunciamos, foram inaugurados, sábado passado, os bondes elétricos que ligam Aparecida com Guaratinguetá e o alto da Basílica com a estação. Assistiram à inauguração, além das autoridades municipais e grande massa popular, diversos representantes do governo estadual”. (edição de 14 de março de 1914, página 2)
Propriedade da Companhia Luz e Força de Guaratinguetá, o bonde iniciou atividades com duas linhas: uma ligando a Estação Ferroviária ao Largo da Basílica pelo valor de 200 réis, e outra ligando o Largo até Guaratinguetá por 300 réis.
O responsável técnico foi o engenheiro elétrico Guilherme Stiebler, responsável também pela instalação do primeiro motor elétrico do Jornal Santuário, em 1913.
O senhor Plínio Queiroz da Silva, o “baiano”, nascido em 1917, chegou em Aparecida em 1942 e entrou para a empresa em 1947. Foi cobrador, motorneiro (condutor de bonde) e fiscal.
Segundo ele, a linha de bonde funcionava das 6h. às 23h45min. Eram dez bondes partindo a cada quinze ou trinta minutos, conforme o número de veículos circulando.
Quando eram dois bondes, eles saíam de meia em meia hora. Mas quando eram quatro, o tempo entre eles diminuía para quinze minutos”, diz ele.
Três desvios permitiam a circulação dos bondes. Um em frente a atual Santa Casa de Aparecida, outro na atual rua Zezé Valadão, no bairro do Aroeira (o desvio dos “eucalipeiros”) e um terceiro, chamado “desvio do alto”, para cima da atual garagem da Empresa de Ônibus Pássaro Marrom.
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