Nº 33 | Maio/ junho de 2010
Letras Vale.

A Vida é Linda por um dia | Daniela Prado

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Convém destacar, antes de mais nada, a dificuldade que enfrentamos para descobrir algo mais sobre a autora e sua obra. Além das propagandas de sebos vendendo exemplares do livro na internet, não se encontra muita coisa. Na Biblioteca on-line da maior universidade do Brasil, a USP, encontramos apenas O Pássaro da Escuridão. E só. Nenhuma tese, monografia, nem mesmo um artigo sobre o romance. Pesquisamos em grandes manuais de história da literatura como História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi, e A Literatura Brasileira, de José Aderaldo Castello. Nenhuma referência a Eugênia Sereno. Na internet – onde tudo se encontra – descobrimos, com felicidade, que algumas pesquisadoras do Vale do Paraíba estão se debruçando sobre a obra e a vida da escritora: Rita Elisa Seda e Sônia Gabriel. Localizamos também uma entrevista em que o livro de Eugênia é citado pelo entrevistado como um de seus preferidos. Outra feliz descoberta, mais uma vez através da internet, foi um manual de história da literatura que dedica algumas linhas à escritora valeparaibana. Não é muita coisa, mas o autor, o professor Massaud Moisés (em História da Literatura Brasileira, volume III, dedicado ao Modernismo e publicado pela Cultrix numa edição de 2001) se mostra simpático à obra, cujo estilo define como “poeticamente opulento”, além de fornecer uma possível pista de trabalho para os estudiosos de Literatura Comparada, quando afirma que Eugênia “empreendeu a reconstituição proustiana de Mororó-Mirim” (2001, 362).

Uma vez que no campo do romance O Pássaro da Escuridão é filho único, perguntamo-nos: teria Eugênia Sereno escrito e publicado outros gêneros textuais?

* Daniela Prado é doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo

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Para dar início ao nosso artigo, devemos primeiramente relembrar algumas datas importantes que marcaram nossa literatura no século XX. Em 1922 acontece a Semana de Arte Moderna. Obras importantes oriundas desse período foram, entre outras, Memórias sentimentais de João Miramar, de 1924, por Oswald de Andrade; Macunaíma, de 1928, por Mário de Andrade; e Serafim Ponte Grande, de 1933, pelo mesmo Oswald. A partir da década de 1930, um Brasil mergulhado em tensões políticas (Estado Novo, Revolução de 30) assiste ao despontar de obras de feição regionalista  – malgrado essa denominação não ser totalmente justa em relação a algumas obras que ultrapassam classificações: Menino de Engenho (1932) e Fogo Morto (1943), de José Lins do Rego; Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos; O Tempo e o Vento (1949-1961), de Érico Veríssimo; Cacau (1933), Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado; O Quinze (1930) e João Miguel (1932), de Raquel de Queirós. De acordo com o crítico Alfredo Bosi, as décadas de 30 e 40 serão lembradas como “a era do romance brasileiro” (1994, p. 388). Romances que mostram uma realidade dura e personagens sofridas, como ressalta o crítico Antonio Candido, ao dar mais detalhes sobre o que se passou no período:

“A partir de 1930 houve uma ampliação e consolidação do romance, que apareceu pela primeira vez como bloco central de uma fase em nossa literatura, marcando uma visão diferente da sua função e natureza. A radicalização posterior à revolução daquele ano favoreceu a divulgação das conquistas da vanguarda artística e literária dos anos 1920. Radicalização do gosto e também das ideias políticas: divulgação do marxismo; aparecimento do fascismo; renascimento católico. O fato mais saliente foi a voga do chamado ‘romance do Nordeste’, que transformou o regionalismo ao extirpar a visão paternalista e exótica, para lhe substituir uma posição crítica frequentemente agressiva, não raro assumindo o ângulo do espoliado, ao mesmo tempo em que alargava o ecúmeno literário por um acentuado realismo no uso do vocabulário e na escolha das situações.” (2006, p. 246-247). 

Continuando nosso panorama literário, outra data que se destaca no século passado é o ano de 1943, quando a jovem Clarice Lispector publica Perto do coração selvagem, inaugurando uma linguagem inédita no romance, marcado pela busca de novas conquistas formais. Vale lembrar que Clarice foi recusada pela José Olympio Editora, além de ter dividido os críticos da época, desacostumados àquela linguagem – mais tarde trataremos novamente da editora José Olympio.

Em 1956, um romance vem abalar todas as estruturas literárias: Grande Sertão: Veredas, considerada a grande obra do século XX. Nele, Guimarães Rosa une, com maestria, o velho regionalismo associado a uma linguagem nova, recriada, plena de neologismos. O grande legado de Guimarães foi uma obra grandiosa e poética.

Finalmente chegamos ao ano de 1965. Nesse ano pós golpe militar é publicada uma obra rara e impactante, mas que por algum mistério ainda não consta dos grandes manuais de literatura brasileira: O Pássaro da Escuridão, de Eugênia Sereno. Esse é o pseudônimo de Benedita de Rezende Graciotti, nascida na cidade de São Bento do Sapucaí, no Vale do Paraíba. Com seu único livro, subintitulado “romance antigo de uma cidadezinha brasileira”, Eugênia Sereno traz uma lufada de ar fresco ao regionalismo paulista. A “cidadezinha” referida no subtítulo é Mororó-Mirim, uma recriação baseada em sua cidade de nascimento, São Bento do Sapucaí.

Leia também: O Pássaro da Escuridão

 
 
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