Sobre a autoridade espiritual, os redentoristas se perguntavam: Qual o benefício de uma missa rezada pelo Cônego? Segundo esses padres, sua duração era de apenas ¼ de hora. Além disso, o acusavam de não preparar o sermão, que era vazio e sem proveito. Nessa perspectiva, a preparação requeria a reflexão, um estilo de vida interiorizado para o domínio das verdades sagradas. Um padre que possuía uma vida mundana não estaria qualificado para a conversão dos católicos.
O mudanismo de Henriques pode ser verificado no seu apego às festas profanas, geralmente realizadas em sua própria casa, na sua posição como empresário, proprietário de um jornal e de terras em Roseira. É interessante o fato de o Cônego ter organizado uma excursão para a Ilha de Trindade, com a intenção de resgatar um suposto carregamento de ouro deixado por piratas ingleses. Fez propaganda em seu jornal, contratou um navio no Rio de Janeiro e convenceu diversas pessoas de que seu empreendimento era forma de enriquecimento fácil. A excursão foi um fracasso, sendo acusado de ter enganado aqueles que se dispuseram a pagar pela viagem.
Além de suas intrigas com os redentoristas, o cônego envolveu-se com a política. Não tenho dúvida em afirmar que ele foi um dos principais articuladores do processo de independência da cidade. Combateu a “oligarquia dos Rodrigues Alves” de Guaratinguetá, por não permitirem a emancipação de Aparecida e por explorarem os recursos do Santuário. Escreveu um manifesto de apoio aos ideais republicanos, insistia que cada localidade deveria escolher seus próprios administradores, defendia publicamente suas concepções políticas. Foi até a Assembléia Legislativa de São Paulo articular nossa emancipação. Era um dos financiadores do jornal “A Liberdade”, fundado com o objetivo de defender a separação de Guaratinguetá. Colocou-se ao lado de Rangel de Camargo, deputado e inimigo dos “Alves”. No dia 17 de dezembro de 1928, Aparecida emancipou-se. Por coincidência ou não, é o dia do aniversário do Cônego.
Perdoado por D. Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de São Paulo, e pelos redentoristas, em 1927, após pedir desculpas por ter causado “descontentamento e intrigas”, o Cônego faleceu no ano de 1929, sendo esquecido pela memória local. Foi um personagem sempre disposto a defender os interesses da localidade, articulador político e militante. Ele não é lembrado nas comemorações oficiais de nossa emancipação política. Como sacerdote é visto como desordeiro e distante da concepção de um comportamento ideal. Por sua vez, os redentoristas, de acordo com os padrões da romanização, agiram conforme era esperado: combateram as práticas populares e os que se colocaram contra as diretrizes hierárquicas.
Fábio José Garcia dos Reis é Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, Diretor Acadêmico do Cen- tro Universitário Unisal de Lorena-SP e organizador e autor do livro "Vale do Paraíba: Pessoas, Instituições e Movi- mentos - Contribuições relevantes nos séculos XIX e XX".
As manifestações religiosas populares representam uma das características dos comportamentos do “povo brasileiro” e Aparecida é um exemplo de exaltação dessa realidade. Observamos em nosso cotidiano a devoção e a espontaneidade dos romeiros que visitam em nosso cotidiano a devoção da Igreja Católica em dialogar com o popular. Hoje, podemos afirmar que presenciamos um processo de aproximação entre as diretrizes da hierarquia eclesiástica e os costumes típicos da cultura não erudita.
No final do século XIX a conjuntura histórica era outra. A igreja nesse momento estava passando por um processo de transformação de sua estrutura interna. Era o momento da romanização, ou seja, da introdução de um conjunto de normas estabelecidas pela Santa Sé, em que o papado lançava as diretrizes que indicavam as formas de interpretação do “mundo moderno”. Acima de tudo, a hierarquia católica procurava estabelecer princípios de ação pastoral, como instrumento de formação de um católico convicto e participante dos eventos religiosos. A romanização tinha como pontos básicos a afirmação da autoridade da Igreja hierárquica, a valorização do papel do episcopado como divulgador da doutrina, da fé e da administração do sagrado e do institucional, da formação do clero. Aliás, cabia ao clero realizar o elo entre a doutrina católica e os leigos. No plano institucional, ideológico e estrutural, a Igreja brasileira vinculava-se às orientações da Sé romana. As congregações religiosas européias passaram a ser essenciais na estratégia de introdução do modelo romano no Brasil. A dinâmica desse processo fez com que os redentoristas alemães se estabelecessem em Aparecida no ano de 1894.
O Cônego Antônio Marques Henriques, sacerdote português, já residia na localidade desde 1888. Não se enquadrou às orientações do projeto de romanização. Não era, pela sua forma de pensar e agir, um “padre ideal”. Não aceitava a administração do Santuário de Aparecida pelos redentoristas, sendo suspenso de ordens em 1900. Através do jornal “Luz d’Apparecida”, do qual foi redator e proprietário, divulgava suas idéias. Mostrava-se preocupado com a moral, com a família e com as influências maléficas. Afirmava que a contaminação da alma significava para o homem, o ter que enfrentar a ira de Deus no dia do juízo final. Por outro lado, vivia amasiado, chegando, inclusive, a ter filhos. O Cônego recusava-se a reconhecer a autoridade do bispo, D. Joaquim Arcoverde, sobre o Santuário e acusava os redentoristas de serem padres estrangeiros que pouco entendiam da cultura brasileira. Temos que levar em conta que os redentoristas tinham uma formação européia, voltada para a prática da pastoral, das missões religiosas e que eram considerados pelo episcopado como representantes ideais do clero, pois suas formas de agir e se comportar vinculavam-se ao modelo romano: preocupados com as coisas do sagrado e com a assistência religiosa junto ao povo católico, promotores dos sacramentos, distantes do malefícios modernos, combatentes da ignorância religiosa e dispostos a inserir no Santuário uma “pedagogia do comportamento”, ou seja, normas que indicam o comportamento ideal.
Por sua vez, o Cônego Henriques, homem popular e sacerdote responsável pelas práticas pastorais em Aparecida, percebeu que lentamente suas funções foram sendo assumidas pelos redentoristas. Através do jornal, ele arrecadava dinheiro em nome de Nossa Senhora Aparecida para “aplicar” em benefícios do Santuário. A partir de 1900, coube ao jornal dos redentoristas “Santuário de Aparecida” essa função. Nosso sacerdote português não desistiu de arrecadar as doações e entrou em confronto com o tesoureiro João Maria de Oliveira. Afirmava que Oliveira tinha “engordado”. Como o apoio dos redentoristas, trocou o chinelo de dedo e a camisa rasgada pelo paletó, pois roubava os cofres de Nossa Senhora. Foi processado por acusar o tesoureiro de estar roubando com a autorização dos “padres urubus”.
Em 1897, Henriques tentou instalar luz elétrica no largo da Basílica. Arrecadou dos romeiros, 50 mil réis. O superior redentorista em Aparecida, Pe. Gebardo Wiggermann não autorizou, afirmando que o Cônego não possuía autoridade espiritual e muito menos temporal sobre a localidade. A luz elétrica foi instalada, sem a autorização de D. Arcoverde. Esse bispo deu ordens para que se retirasse a luz elétrica. Henriques a recolocou, até que foi destruída, “supostamente”, por um temporal.
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