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Nº 33 | Maio/ junho de 2010
Grafias

Sem perder a ternura | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

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Após desvendar o contraditório mundo cubano, Lúcia Helena, em novo livro, mostra a face combativa das mulheres sicilianas.
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Logo depois, passaria a colaborar também com a Folha de São Paulo, o maior jornal da América Latina, com matérias feitas por ela em Roma. O artigo de estréia nasceu de entrevistas com quatro prostitutas trazidas ilegalmente, pela Máfia Albanesa, do Leste Europeu para a Itália, com falsas promessas de emprego. “Sonho italiano se transforma em pesadelo” mereceu, em edição dominical, página inteira do caderno “Mundo”, com chamada de capa.

É, no Velho Mundo, a reafirmação do desejo profissional de “dar voz a quem não tem voz”. Um desejo nascido, quem sabe, da experiência permitida pelo intercâmbio feito na Inglaterra feito no final da década de 1980, quando, recém-egressa do curso colegial, teve muito contato com refugiados de guerra: “Queria ser correspondente de guerra. Contar a guerra a partir da perspectiva humana. Há histórias tristes mas lindas de gente cuja vontade de continuar vivo e fazer algo pelos outros ajudou a superar o terror que um homem é capaz de impor a outros homens. Ouvi várias delas de paquistaneses, afegãos, indianos,...”.

Decidiu-se por contar histórias de esperanças no pós-guerra.

Às vésperas de lançar um novo livro sobre a “significativa luta das mulheres sicilianas contra a máfia numa terra em que o silêncio é a medida do valor da mulher”, Lucia Helena Issa acaba de retornar de uma viagem a Beirute à procura de conteúdo para um novo livro no qual as mulheres protagonizam um novo movimento social pela paz mundial. “Women for peace” (Mulheres pela paz) é o nome deste movimento que nasceu nos Bálcãs, em Sarajevo e Srebrenica, local onde houve o maior massacre de civis desde a II Guerra Mundial. Em 1995, 8000 pessoas foram assassinadas num único dia em Srebrenica. Hoje, as mulheres da Sérvia fazem Viagens do Perdão para remir os homens de suas famílias e etnias das atrocidades cometidas durante as guerras recentes na região. Ano passado, Lucia Helena esteve em Belgrado (capital da Sérvia) e em Sarajevo (capital da Bósnia e Herzegovina). Deparou-se com um imediato pós-guerra desolador: toda a área rural contaminada, minas explosivas espalhadas por todos os cantos trazendo o iminente risco de mutilação da população e o número de crianças com câncer aumentado em 70%. Indignada, a jornalista valeparaibana adverte que os efeitos nocivos de uma guerra perduram por três ou quatro décadas assim que terminado o confronto armado e critica a leviandade e a indiferença com que a geração do instantâneo e do artificial trata os conflitos desta natureza.

Enquanto o mundo globalizado é redesenhado à força, Lucia Issa representa o esforço daqueles que suavizam o sofrimento sem transigir à intolerância e à violência. Terna, mas dura.

O texto de Lucia Helena Issa carrega a sonoridade aconchegante de quem sabe contar histórias,  talvez geneticamente herdada da tradição árabe que encanta povos e gerações desde que a hábil Sherazade enredou-nos em Mil e Uma Noites.

Entretanto, a narrativa desta jornalista guaratinguetaense apresenta uma diferença fundamental: não é a ficção que entretece seu diálogo com o leitor, mas o mundo real, concreto e vivido. Como profissional perspicaz e atenta, Lucia Helena é capaz de criar uma tessitura de palavras que descolam-se e deslocam-nos para o universo apresentado pela autora, dando um toque de literatura àquilo que poderia ser apenas informação.

Seu compromisso explícito com o desnudamento das contradições que acercam os fatos permitem, com o leitor, escapar à fraseologia ideológica, em busca de um dètour que reapresenta personagens com outras roupagens e cenários com novos elementos.

Assim é a escritura de Lucia Helena Issa. A um só tempo excita as emoções e incita a inteligência. À brandura e suavidade do estilo, acrescenta o rigor e a profundidade da investigação. À ternura maternal da contadora de histórias adiciona o critério judicioso. Assim é a autora do premiado livro “As Cerejas do Comandante” (2003, Cabral Editora Universitária): não se satisfaz com a informação de segunda mão ou com os juízos definitivos. Ao contrário, vai a campo num verdadeiro trabalho de busca das fontes primárias que burila com sólida formação acadêmica. O resultado? O desejo de lê-la em mil e um capítulos – ou mais!

Seu trabalho sobre Cuba é, como registra o subtítulo, “um mergulho no contraditório universo cubano”. Apesar de leitora assídua de Marx, Sartre, Garcia Márquez, Neruda e admiradora dos ideais revolucionários de Che e Fidel, não permitiu que o jornalístico se deixasse conduzir pelo panfletário. Para tanto, viajou para a Ilha Órfã (título provisório de seu trabalho de conclusão do curso de graduação) e, literalmente, imergiu no mundo-objeto cubano instalando-se na casa de uma amiga da Universidade de Havana. Em seu contato com a experiência tropical do socialismo, descobriu “que havia perseguição política, prostituição e pobreza associados aos ganhos fundamentais da revolução: saúde, educação e esporte – todo mundo tem acesso e é de alta qualidade. A saúde em Cuba é de Primeiro-Mundo, mas faltam matérias-primas básicas em razão do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos”.

Lucia Helena entrevistou médicos, engenheiros, jornalistas e também estudantes, prostitutas e donas de casa. Os levantamentos em arquivos e bibliotecas, as ciências sociais e a história cuidaram da soldadura. Assim, ao invés de um ideológico mosaico opaco, deu-nos um vitral transparecendo uma Cuba a oscilar entre a paixão e a decepção, o orgulho e a amargura, a dignidade e a submissão, a utopia coletiva e o sonho individual.

Questionada a respeito da grande lição extraída desta experiência, a escritora responde: “Descobri que a Revolução Socialista de 59 era necessária, seus ideais eram possíveis e maravilhosos, pois Cuba estava se transformando num bordel dos Estados Unidos, mas após a revolução, as coisas foram lentamente mudando. A burocracia do Estado, os CDR (Comitês de Defesa da Revolução) foram se transformando em centros de delação e as pessoas foram sendo proibidas de sonhar. Uma sociedade não pode abolir totalmente os sonhos individuais, a esperança de trabalhar para ter um futuro melhor (...) Devemos sonhar juntos, mas com espaços para os sonhos individuais”.

De Havana, os caminhos da jovem de nome latino, graduada em jornalismo, levavam a Roma. Depois de um curso de quatro meses de Língua e Literatura Italiana, no Instituto Lorenzo de Médici, em Florença, passa a residir na Cittá Eterna, onde se fez mais iluminada. Após quase dois anos vivendo em Roma, e ainda, nas horas vagas, desfilando para um atelier de vestidos de noivas localizado na Piazza de Spagna, Lúcia passa a colaborar com várias publicações de circulação nacional como Isto é e Jornal do Brasil.

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Lúcia Helena na famosa ponte onde, segundo a história, Gravilo Princip assassinou o herdeiro do Império Austro-húngaro, Francisco Ferdinando, estopim para o início da Primeira Grande Guerra Mundial, em 1914.
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