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Nº 33 | Maio/ junho de 2010
Grafias

Empinando emoção | Jorge Souza

A pipa sobe, como um animal faminto pedindo mais linha. O menino dá. Rápido ganha altura ultrapassando as árvores, porém ainda não ultrapassou a paineira com as suas flores de cor rósea.

Mais linha e a pipa  já está mais alto do que a paineira. O garoto não vê mais nada. O mundo para ele agora é quela pipa feita de jornais usados e com a rabiola em forma de corrente, feita  de papel de pão.

O vento é constante. Não é vento forte, pouco mais do que uma brisa, porém o suficiente para sustentar a pipa no infinito  azul. A tarde, preguiçosa  abraça o menino dando-lhe  as mãos e juntos caminham em direção ao anoitecer. E naquilo tudo o mais bonito de se ver foi aquele menino empinando emoção.

Jorge Souza é Químico em São José dos Campos, autor do livro Crônicas do Itapema.

Pés no chão, camisa aberta ao peito, o menino  solta  pipa na estrada. O vento não é suficente para levantá-la. Ele corre pela estrada , trasendo atrás de si , a uma certa distância, a pipa presa à linha. Ele dá solavancos na linha, a pipa responde, subindo.  Em seguida , lentamente pousa no chão. O menino, olha na extremidade da paineira para ver se há vento. As folhas balançam levemente, indicando vento insuficiente.

Não está só. Balançando o rabo, saltando, abaixando-se, apoiando-se nas patas dianteira, sorrindo , está o seu cachorro, Julim. Ele quer ajudar o menino. Entende o seu cão e fala: “não tem como me ajudar Julim, não há vento”.

Na estrada não há   fios elétricos. A luz elétrica ainda não chegara ali. Para ele luz  ainda é  de lamparina, luares e  vagalumes. Raro passar veículos motorizados, uma vez ou outra um cavaleiro, uma carroça ou charrete. Ainda pouco passara dona Firmina, a benzedeira, com o lenço florido cobrindo os seus cabelos brancos, de andar trôpego, apoiada numa bengala feita de guatambu. A voz dela ainda lhe soa: “fique com Deus, menino.”

Súbito um vento mais forte espalha  os seus cabelos. Olha para a copa das árvores, o assopro do vento é forte. A pipa , ao toque do vento se arrasta. Rápido o menino dá um tranco na linha.

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