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Nº 33 | Maio/ junho de 2010
Grafias

Olhando através do concreto: A poesia mínima e rarefeita de José Moraes Barbosa | Fernando Scarpel

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Fashion week é a semana de moda do vestuário, daquilo que está à vista, que cobre o ser humano, fashion week da miséria é a semana de moda da miséria, ou seja, o que resta na cleptocracia. Se os ladrões mandam e têm o poder, aos outros resta a miséria de semana a semana, ao povo, aos dominados, cobrir-se miséria, aos ladrões, o poder e todas as riquezas. A poesia de Moraes vem cheia de dureza e é preciso ver além dela, porque, ao começarmos a divagar, pensaremos, quem é o poder? Quem são os ladrões? Quem está na Fashion Week? Quem está na miséria? As questões vão ficando irrespondíveis e somos obrigados a enxergar cada vez mais, considerando que Moraes monta seu quebra cabeça poético com poucas peças. Somos obrigados a lapidar a pedra que Moraes coloca na nossa frente, e coloca uma pedra pichada, cheia de protesto, ao qual nos obrigamos a vencer.

Até o amor parece difícil ao colocá-lo entre o virtual e a realidade

Poemar
Poe-mail
Entre-mails
Amar

É o amor coexistindo entre a tecnologia cibernética, o amor virtual superando o amor real, seria o fim da aproximação física entre as pessoas? Seria melhor amar por email? Não, ele mesmo responde e crê, apesar do mundo, na eternidade do amor em

Lúdica para Luci:

Na ambigüidade de sua existência
Permito-me viajante
Até que a morte nos revele

Assim é o amor da ótica de Moraes, um amor da urbe visando o eterno, ciente de que só a morte poderá revelar a verdadeira natureza deste amor.

Retomando o recurso de letras entre parênteses, temos um poema que mostra a riqueza da poesia ao dar vários significados à mesma frase, o exemplo de

Ouro de Aluvião

A (pa)lav(r)a o Poeta

Numa primeira análise, percebemos que não há verbo algum, mas ao fazermos várias combinações da frase como se fosse um número de combinações da matemática, teríamos, como exemplo:

A pá lavra o poeta
O poeta a par palavra
A lava o Poeta
A palavra lava o poeta.

Lava pode ter o sentido de vulcão, então, a lava o poeta, ou pode ser a palavra é a lava do poeta, é o que o queima, ou o poeta é o vulcão que queima por dentro, milhares de significados na mesma frase.

Então começamos a perceber que ele quer dizer muitas coisas com poucas palavras, reduzindo ao mínimo o texto, podemos dizer que ele constrói o poema como quem faz um poderoso chip de computador, cheio de informações, no entanto, só podemos utilizá-lo se possuirmos o equipamento correto para ler e retirar as informações.

José Moraes Barbosa ou poeta Moraes é um autor joseense que se dedica à poesia concreta e tentarei aqui entrar neste universo difícil.

A poesia concreta de Moraes é visual e mínima, tenta mostrar os diversos significados e conteúdos existentes dentro da palavra e, muitas vezes, dentro da palavra e sua visualização. Neste comentário, tratarei mais especificamente do livro lançado em 2008, chamado de POEMAS RAREFEITOS.

Começando pelo título, Poemas Rarefeitos, compreendemos que são poemas de poucas palavras, curtos, ocupando pouco espaço ou, talvez, porque são como ar das grandes altitudes, precisamos respirar mais para obter o oxigênio. Fico com a segunda opção, precisamos respirar mais os poemas rarefeitos para oxigenar a cabeça, para compreendê-los é preciso lê-los muitas vezes.

Para entender sua poesia, precisamos saber que Moraes foi um menino urbano que viu e viveu a transformação da cidade e não se conformou com isso. Tendo vivido sempre na sua cidade, perceber a força das construções que se erguem em excesso e vê a fragmentação da cidade em milhões de pedaços, pessoas, prédios, veículos, temas diversos e protesta contra a falta de concisão da urbe em

Del(e)ito

Pelas ruas ombro a ombro
Pelas tuas
Assombro
Escombro

Ou seja, para ele, apesar de todos estarem ombro a ombro continua se assombrando ao perceber que as pessoas não percebem o escombro das ruas, das construções, da vida. No entanto, observamos que ele fez questão de salientar a letra “e” colocando-a entre parênteses. Este recurso, que ele utiliza em outros poemas, pode ter o significado de chamar a atenção, se fizermos o exercício de excluir o “e”, teremos “delito” em vez de “deleito”, assim, Moraes subverte o primeiro sentimento de Gozo = deleito para o sentimento de culpa = delito = crime.

Moraes é um migrante às avessas, ainda mais difícil, sempre viveu dentro desta cidade e sempre se moveu e se moldou nela, mas ele migrou da urbe pacata, onde os meninos podiam andar de bicicleta por toda ela, nadar no Rio Vidoca, limpo, cheio de peixes e tracajás, migrou da cidade sem prédios e arranha-céus para a São José atual, industrial, poluída, onde o asfalto é mais importante que o caminhar a pé, inconformou-se, viu a destruição de tudo aquilo que lhe era belo, migrou da beleza da cidade ideal ao lado da natureza até uma cidade cheia de prédios, de concreto, de asfalto, ele protesta em:

 Nanomanifesto

 “(A)(Pre)(texto)
(Pro)Te(x)to
(Pro)Testo”

Interpreto que ele protesta, e, ao protestar contra este Texto escrito nesta cidade, contra este Teto feito de concreto, ele também protesta e testa, com sentido de testar até onde somo pró (a favor) deste texto, até onde somos pré (antes deste texto) ou deste protesto, ou somos a favor deste protesto.

Em outro momento, continua o seu protesto contra o rio transformado em:

Vidoca

Acorde Melancólico de Fezes

Então, em seu protesto, ele está dizendo que o Rio Vidoca é um acorde, nota musical, mas de fezes, soa estranho, soa sujo. E, ao mesmo tempo, quer dizer, se entendermos que este “acorde” é o verbo imperativo, que o rio precisa acordar de sua melancolia, mas rios não acordam, então, quem precisa acordar somos nós que o transformamos.

A poesia de Moraes é esta poesia dura, concreta, feita de pedra. Muitas vezes, ao lê-la, parece que enxergamos uma parede de tijolos à nossa frente, tão difícil é compreender o poeta, mas precisamos ver o poema e derrubar esta parede, poemas de tão poucos, às vezes quase nenhum verbo, para nos guiar entre suas palavras. Afinal, o que ele quer dizer em:

  Cleptocracia
Fashion week da miséria

Não há verbo algum, não há ação nenhuma, cinco palavras, não há sujeito ou predicado, no entanto, diz muito quando começamos a pensar nas palavras colocadas.

Cleptocracia como fusão de clepto que é o furto, o roubo com cracia, o poder, ou a classe que está no poder, então, cleptocracia seria a classe dominante formada pelos ladrões, seria a sociedade cujo poder é exercido pelos ladrões e assaltantes.

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